Resumos03 ago 20265 min de leitura

Ventilação Mecânica

Indicações, modos ventilatórios, monitorização e complicações

pneumologia

Ventilação mecânica: indicações, modos ventilatórios (VCV, PCV, PSV), parâmetros, monitorização e manejo das principais complicações na UTI.

A ventilação mecânica (VM) é o suporte ventilatório artificial que assume, parcial ou totalmente, o trabalho respiratório do paciente. É um dos pilares da medicina intensiva e sua aplicação correta é determinante para desfechos na UTI.

O que é Ventilação Mecânica?

Ventilação mecânica é o processo pelo qual um ventilador mecânico gera fluxo de gás para as vias aéreas, promovendo troca gasosa quando o paciente não é capaz de realizá-la de forma adequada por conta própria. Pode ser invasiva — por via de tubo orotraqueal (TOT) ou traqueostomia — ou não invasiva (VNI), quando utiliza interfaces como máscaras faciais ou nasais.

A VM invasiva requer intubação orotraqueal e é reservada para situações de maior gravidade ou falha da VNI. A VNI (CPAP, BiPAP) aplica pressão positiva sem via aérea artificial e é especialmente eficaz na DPOC exacerbada e no edema agudo de pulmão cardiogênico.

Mechanical ventilation - Wikipedia
Fonte: BreathDriver / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Causas e indicações

As principais indicações de início da VM incluem:

  • Insuficiência respiratória aguda hipoxêmica (PaO₂/FiO₂ < 200–300, SpO₂ não responsiva ao O₂ suplementar)
  • Insuficiência respiratória hipercápnica (PaCO₂ elevada com acidose respiratória e rebaixamento do nível de consciência)
  • Apneia ou parada respiratória
  • Proteção de via aérea (Glasgow ≤ 8, vômitos, sangramento, obstrução iminente)
  • Choque refratário com trabalho respiratório excessivo consumindo fração significativa do débito cardíaco
  • Pós-operatório de grandes cirurgias em paciente sem condições de sustentar ventilação espontânea

Classificação e modos ventilatórios

Variável controlada

  • VCV (Ventilação por Volume Controlado): o ventilador entrega um volume corrente (VC) fixo a cada ciclo; a pressão de pico pode variar conforme a complacência e a resistência das vias aéreas.
  • PCV (Ventilação por Pressão Controlada): a pressão inspiratória é fixada; o VC gerado depende da mecânica pulmonar.

Nível de suporte

  • Modo controlado (A/C — Assistido-Controlado): o ventilador entrega ciclos completos a cada esforço do paciente; se não houver esforço, ciclos são disparados pela frequência mínima programada.
  • SIMV (Ventilação Mandatória Intermitente Sincronizada): intercala ciclos mandatórios com respirações espontâneas do paciente. Uso em desmame, embora menor evidência de superioridade sobre PSV.
  • PSV (Suporte a Pressão): o ventilador amplifica cada esforço espontâneo com uma pressão de suporte pré-fixada; o paciente controla frequência, tempo e VC. Modo de desmame preferencial.
  • CPAP: pressão contínua positiva em via aérea, sem suporte inspiratório adicional. Usado na VNI e no desmame final.
  • APRV (Airway Pressure Release Ventilation): libera ciclicamente a pressão alta para promover expiração; indicado em SDRA grave com hipoxemia refratária.

Parâmetros iniciais e estratégia protetora

A estratégia de ventilação protetora pulmonar é padrão para todo paciente ventilado, especialmente na SDRA:

  • Volume corrente (VC): 6 mL/kg de peso predito (pode ir até 8 mL/kg em pulmões saudáveis)
  • Pressão de platô (Pplatô): manter < 30 cmH₂O
  • Driving pressure (ΔP = Pplatô − PEEP): manter < 15 cmH₂O
  • PEEP: individualizar; início habitual de 5–8 cmH₂O, titulando conforme oxigenação e hemodinâmica
  • FiO₂: a menor necessária para SpO₂ 92–96% (88–92% na DPOC)
  • Frequência respiratória (FR): 12–20 ipm; ajustar pela PaCO₂
  • Relação I:E: geralmente 1:2; invertida (I > E) em situações específicas de SDRA

Manobras de recrutamento e PEEP na SDRA

  • Posição prona por ≥ 16 h/dia em SDRA grave (PaO₂/FiO₂ < 150) reduz mortalidade (estudo PROSEVA)
  • Bloqueio neuromuscular precoce controverso; pode ser usado em SDRA grave refratária nas primeiras 48 h

Sintomas e monitorização do paciente em VM

O paciente em VM deve ser monitorizado continuamente quanto a:

  • Adaptação ao ventilador: assincronia (duplo gatilho, auto-PEEP, reverse triggering)
  • Parâmetros respiratórios: SpO₂, EtCO₂, curvas de pressão-tempo e fluxo-tempo
  • Gasometria arterial: 30–60 min após mudanças de parâmetros e ao menos 1×/dia
  • Hemodinâmica: VM aumenta pressão intratorácica, podendo reduzir retorno venoso e débito cardíaco — monitorizar PA, FC, débito urinário
  • Sedação e analgesia: escala RASS (alvo −1 a 0) e escala de dor BPS/NRS; protocolo SAT (Spontaneous Awakening Trial) + SBT (Spontaneous Breathing Trial) diários

Diagnóstico das principais complicações

  • Pneumonia associada à VM (PAV): nova infiltrado radiológico + febre + leucocitose + secreção purulenta após ≥ 48 h de intubação; confirmação microbiológica por aspirado traqueal ou BAL
  • Barotrauma/volutrauma: pneumotórax, pneumomediastino, enfisema subcutâneo — diagnóstico clínico e radiológico
  • Auto-PEEP (PEEP intrínseca): obstrução ao fluxo expiratório, especialmente em DPOC e asma; detectado na curva de fluxo (sem retorno ao zero) e por manobra de pausa expiratória
  • Atelectrauma: abertura e colapso cíclicos de unidades alveolares instáveis — prevenido com PEEP adequada
  • Fraqueza adquirida na UTI: imobilidade, bloqueadores neuromusculares e corticoides são fatores de risco; reabilitação precoce minimiza sequelas

Tratamento e manejo

Sedoanalgesia

  • Priorizar analgesia primeiro (analgesia-first approach): fentanil, morfina ou remifentanil
  • Sedação leve preferencial: midazolam (curto prazo) ou propofol/dexmedetomidina (maior evidência para desmame mais rápido e menor delirium)
  • Evitar sedação profunda prolongada (associada a piores desfechos)

Manejo da assincronia

  • Ajustar sensibilidade de disparo, tempo inspiratório, pressão de suporte e fluxo de pico
  • Titular sedação se assincronia grave e refratária

Desmame

Protocolo diário SAT + SBT é a estratégia com maior evidência para reduzir tempo de VM:

  1. SAT: interromper sedação e avaliar nível de consciência
  2. SBT: testar respiração espontânea em PSV baixa (5–8 cmH₂O) ou peça em T por 30–120 min
  3. Critérios de sucesso do SBT: FR < 35 ipm, SpO₂ > 90%, ausência de desconforto, estabilidade hemodinâmica
  4. Se SBT bem-sucedido → avaliar extubação (tosse eficaz, secreção manejável, nível de consciência adequado)
  5. Se falha → identificar e tratar causa, repetir em 24 h

PAV

  • Cobertura para gram-negativos e S. aureus; ajuste por cultura local
  • Piperacilina-tazobactam, carbapenêmicos ou cefepime como opções de base; vancomicina/linezolida se MRSA
  • Duração: 7–8 dias na maioria dos casos
Algoritmo de Desmame da Ventilação Mecânica
Algoritmo de Desmame da Ventilação Mecânica

Prevenção de complicações

  • Pacote de prevenção de PAV: cabeceira 30–45°, higiene oral com clorexidina, pausa diária de sedação, cuff com pressão 20–30 cmH₂O, aspiração subglótica
  • Profilaxia de TVP e úlcera de estresse em pacientes de risco
  • Reabilitação precoce: fisioterapia motora e respiratória desde os primeiros dias
  • Traqueostomia precoce: considerar quando previsto tempo de VM > 14 dias (melhora conforto e manejo das vias aéreas, mas não reduz mortalidade de forma consistente)
  • Protocolo ABCDEF Bundle integra todas as medidas acima de forma sistemática

Perguntas frequentes

Quais são as principais indicações de ventilação mecânica invasiva?
As principais indicações incluem insuficiência respiratória aguda com hipoxemia grave não responsiva ao O₂ suplementar, hipercapnia com acidose e rebaixamento de consciência, apneia, necessidade de proteção de via aérea (Glasgow ≤ 8) e choque com trabalho respiratório excessivo. A decisão deve considerar o quadro clínico global e não apenas parâmetros isolados.
O que é ventilação protetora pulmonar e por que ela é importante?
Ventilação protetora pulmonar é a estratégia que utiliza volumes correntes baixos (6 mL/kg do peso predito), pressão de platô < 30 cmH₂O e driving pressure < 15 cmH₂O para minimizar a lesão pulmonar induzida pelo ventilador (VILI). É especialmente importante na SDRA, onde pulmões inflamados são mais suscetíveis a barotrauma e volutrauma.
Como funciona o desmame da ventilação mecânica?
O desmame é feito com protocolo diário de SAT (interrupção da sedação) seguido de SBT (teste de respiração espontânea em pressão de suporte baixa ou peça em T por 30–120 min). Se o SBT for bem-sucedido e o paciente tiver tosse eficaz, nível de consciência adequado e secreção manejável, indica-se a extubação.
O que é pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV)?
PAV é a pneumonia que surge após 48 horas de intubação orotraqueal, manifestando-se com novo infiltrado radiológico, febre, leucocitose e secreção traqueal purulenta. Seu tratamento envolve antibióticos de amplo espectro ajustados por microbiologia local, com duração habitual de 7 a 8 dias.

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