Mieloma Múltiplo
O que é, sintomas, diagnóstico e tratamento
Mieloma múltiplo: entenda causas, sintomas (hipercalcemia, dor óssea, anemia), como confirmar o diagnóstico e as opções de tratamento atuais.
O mieloma múltiplo (MM) é uma neoplasia hematológica maligna caracterizada pela proliferação clonal de plasmócitos na medula óssea. É a segunda neoplasia hematológica mais frequente no adulto, acometendo predominantemente indivíduos acima de 60 anos. O reconhecimento precoce de suas manifestações clínicas é essencial para evitar complicações graves e irreversíveis.
O que é Mieloma Múltiplo?
O mieloma múltiplo resulta da expansão descontrolada de plasmócitos monoclonais que secretam uma imunoglobulina anormal — denominada proteína M ou paraproteína — detectável no soro e/ou na urina. Essa proliferação infiltra a medula óssea, suprime a hematopoese normal e ativa osteoclastos, gerando as lesões ósseas características da doença. A imunoglobulina mais frequentemente envolvida é a IgG (≈ 50% dos casos), seguida de IgA; em cerca de 15–20% dos casos os plasmócitos secretam apenas cadeias leves (doença de cadeias leves).

Causas e fatores de risco
A etiologia é multifatorial e ainda não completamente elucidada. Os principais fatores de risco reconhecidos incluem:
Idade avançada (pico entre 65–74 anos)
Sexo masculino
Raça negra (incidência aproximadamente duas vezes maior do que em brancos)
Gamopatia monoclonal de significado indeterminado (MGUS) — condição pré-maligna que progride para MM a uma taxa de cerca de 1% ao ano
Exposição a pesticidas, solventes orgânicos e radiação ionizante
Obesidade
História familiar de neoplasias hematológicas
Alterações citogenéticas recorrentes — como t(4;14), t(14;16), del(17p) e ganho de 1q — têm papel prognóstico central e influenciam a escolha terapêutica.
Classificação e formas
Estadiamento
O sistema ISS revisado (R-ISS) estratifica o MM em três estágios com base em beta-2-microglobulina sérica, albumina, LDH e alterações citogenéticas de alto risco:
R-ISS I: β2-microglobulina < 3,5 mg/L + albumina ≥ 3,5 g/dL + citogenética de risco padrão + LDH normal — melhor prognóstico
R-ISS II: critérios intermediários
R-ISS III: β2-microglobulina ≥ 5,5 mg/L + citogenética de alto risco ou LDH elevada — pior prognóstico
Formas clínicas especiais
Mieloma assintomático (smoldering myeloma): proteína M ≥ 3 g/dL e/ou plasmócitos medulares 10–60%, sem critérios CRAB — conduta: observação
Plasmocitoma solitário: lesão plasmocitária única óssea ou extramedular, sem envolvimento sistêmico
Leucemia de plasmócitos: plasmócitos circulantes > 20% ou > 2.000/µL — forma mais agressiva
Sintomas e manifestações clínicas
A mnemônica CRAB resume as manifestações que definem doença ativa e indicam tratamento:
C — Cálcio elevado (hipercalcemia > 11 mg/dL ou > 1 mg/dL acima do limite superior): náuseas, vômitos, constipação, poliúria, alteração do sensório
R — Renal (creatinina > 2 mg/dL ou clearance < 40 mL/min): nefropatia por cadeias leves (rim de mieloma), hipercalcemia, hiperuricemia
A — Anemia (Hb < 10 g/dL ou > 2 g/dL abaixo do limite inferior): fadiga, dispneia, palidez — normocítica e normocrômica por infiltração medular
B — Bone (lesões ósseas líticas, osteoporose grave, fraturas patológicas): dor lombar ou dorsal persistente é o sintoma inicial mais comum
Além do CRAB, os critérios SLiM ampliam a definição de doença ativa:
S: plasmócitos medulares ≥ 60%
Li: relação de cadeias leves livres ≥ 100
M: mais de uma lesão focal na RM
Outras manifestações incluem infecções bacterianas recorrentes (especialmente pneumococo e H. influenzae, por imunodepressão humoral), neuropatia periférica e síndrome de hiperviscosidade (mais associada ao mieloma IgA e IgM).
Diagnóstico
O diagnóstico é estabelecido pela combinação de achados clínicos, laboratoriais e histopatológicos.
Exames de triagem
Eletroforese de proteínas séricas e urinárias: pico monoclonal em região gama (pico M)
Dosagem quantitativa de imunoglobulinas
Cadeias leves livres séricas (free light chains) com relação κ/λ
Imunofixação sérica e urinária: confirma isótipo da paraproteína
Exames hematológicos e bioquímicos
Hemograma: anemia, rouleaux ao esfregaço
Cálcio sérico, creatinina, LDH, β2-microglobulina, albumina, ácido úrico
Proteinúria de Bence-Jones (urina de 24 horas)
Confirmação histológica
Biópsia de medula óssea: plasmócitos ≥ 10% (critério diagnóstico central); imuno-histoquímica confirma clonalidade (restrição κ ou λ)
Citogenética convencional e FISH para alterações de alto risco
Avaliação de lesões ósseas
PET-CT com 18F-FDG ou ressonância magnética de corpo inteiro (WB-MRI): métodos preferenciais, superiores ao esqueleto ósseo convencional (série esquelética)
Tomografia computadorizada de baixa dose em corpo inteiro: alternativa acessível
Abordagem diagnóstica e terapêutica do Mieloma Múltiplo
Tratamento
O tratamento é estratificado conforme elegibilidade ao transplante autólogo de células-tronco hematopoéticas (TACTH).
Pacientes elegíveis ao TACTH (geralmente < 70 anos, bom performance status)
Indução (4–6 ciclos): triplete com inibidor de proteassoma + imunomodulador + dexametasona — esquema mais utilizado: VRd (bortezomibe + lenalidomida + dexametasona) ou VTd (bortezomibe + talidomida + dexametasona)
Mobilização e coleta de células-tronco
TACTH em altas doses (melfalan 200 mg/m² de condicionamento)
Manutenção: lenalidomida por tempo prolongado após o transplante — reduz risco de progressão e aumenta sobrevida global
Pacientes não elegíveis ao TACTH
Esquema de referência: VRd em doses adaptadas ou Rd (lenalidomida + dexametasona) contínuo
Daratumumabe (anti-CD38) em combinação com VRd ou Rd é aprovado e melhora desfechos em primeira linha
Doença refratária/recidivada
Combinações incluem: carfilzomibe, pomalidomida, daratumumabe, isatuximabe, elotuzumabe, venetoclax (t(11;14)), belantamabe mafodotina e terapias com células CAR-T (idecabtagene vicleucel, ciltacabtagene autoleucel) para casos multirefratários
Terapias de suporte essenciais
Bisfosfonatos (ácido zoledrônico ou pamidronato): toda doença óssea ativa — reduzem eventos esqueléticos e têm efeito antitumoral
Hipercalcemia: hidratação vigorosa, corticoides, bifosfonato EV
Anemia: eritropoetina ou transfusão conforme necessidade
Profilaxia antitrombótica: aspirina ou heparina de baixo peso molecular em pacientes em uso de imunomoduladores
Profilaxia antiinfecciosa: aciclovir (profilaxia de herpes-zóster em uso de bortezomibe), imunoglobulina EV em infecções recorrentes
Prognóstico
O mieloma múltiplo permanece incurável na grande maioria dos casos, mas houve avanço expressivo na sobrevida nas últimas décadas com o surgimento dos inibidores de proteassoma, imunomoduladores e anticorpos monoclonais. A sobrevida mediana supera 5–7 anos em muitos centros para pacientes tratados com regimes modernos. Fatores de pior prognóstico incluem:
R-ISS III
Citogenética de alto risco: del(17p), t(4;14), t(14;16), ganho de 1q21
LDH elevada
Leucemia de plasmócitos
Doença refratária a múltiplas classes de agentes
A resposta ao tratamento é monitorada pela queda da proteína M, podendo atingir resposta completa (ausência de paraproteína por imunofixação) e, mais recentemente, doença residual mínima (MRD) negativa por citometria ou sequenciamento — parâmetro associado a maior duração da resposta.
Perguntas frequentes
- Quais são os primeiros sintomas do mieloma múltiplo?
- Os sintomas mais comuns no início são dor óssea persistente — principalmente na coluna ou no tórax —, fadiga intensa por anemia e infecções bacterianas de repetição. Hipercalcemia pode causar náuseas, constipação e confusão mental. Muitos pacientes chegam ao diagnóstico após fratura patológica ou achado incidental de anemia e pico monoclonal em exames de rotina.
- Mieloma múltiplo tem cura?
- Na grande maioria dos casos o mieloma múltiplo não é curável com os tratamentos disponíveis atualmente, sendo considerado uma doença crônica tratável. O objetivo do tratamento é obter remissão profunda e prolongada, com boa qualidade de vida. Transplante alogênico pode ser curativo em casos selecionados, mas apresenta alta morbimortalidade. As terapias com células CAR-T estão em estudo como opção potencialmente mais efetiva.
- Como é feito o diagnóstico do mieloma múltiplo?
- O diagnóstico exige a combinação de plasmócitos clonais ≥ 10% na biópsia de medula óssea e presença de proteína M na eletroforese sérica ou urinária. Para indicar tratamento, é necessário confirmar doença ativa pelos critérios CRAB (hipercalcemia, insuficiência renal, anemia, lesões ósseas) ou pelos critérios SLiM. Imuno-histoquímica, imunofixação e FISH complementam o diagnóstico e o estadiamento.
- O que é MGUS e qual a relação com o mieloma múltiplo?
- MGUS (gamopatia monoclonal de significado indeterminado) é uma condição pré-maligna definida por proteína M < 3 g/dL, plasmócitos medulares < 10% e ausência de critérios CRAB ou SLiM. Ela progride para mieloma múltiplo ou outra neoplasia linfoplasmocitária a uma taxa de aproximadamente 1% ao ano. Todo paciente com MGUS deve ser acompanhado periodicamente com eletroforese e avaliação clínica.