Trombocitemia Essencial
O que é, sintomas, diagnóstico e tratamento
Trombocitemia essencial: neoplasia mieloproliferativa com plaquetas elevadas. Conheça causas, sintomas, diagnóstico (JAK2, CALR) e tratamento.
A trombocitemia essencial (TE) é uma neoplasia mieloproliferativa crônica caracterizada pela produção excessiva e persistente de plaquetas pela medula óssea. É considerada uma das neoplasias mieloproliferativas clássicas BCR-ABL1 negativas, ao lado da policitemia vera e da mielofibrose primária. Embora muitos pacientes permaneçam assintomáticos por longos períodos, a doença acarreta risco significativo de eventos trombóticos e hemorrágicos.
O que é Trombocitemia Essencial?
A trombocitemia essencial é uma neoplasia clonal originada em células-tronco hematopoiéticas, que leva à proliferação desregulada da linhagem megacariocítica. O resultado é uma trombocitose persistente — geralmente acima de 450.000 plaquetas/µL — sem causa secundária identificável. A doença é crônica, com curso indolente na maioria dos casos, mas pode evoluir para mielofibrose secundária ou, menos frequentemente, para leucemia mieloide aguda.

Causas e transmissão
Não há transmissão — a TE é uma neoplasia adquirida, não infecciosa. A origem é uma mutação somática em célula-tronco hematopoiética. As principais mutações driver identificadas são:
- JAK2 V617F: presente em aproximadamente 50–60% dos casos; ativa constitutivamente a via JAK-STAT
- CALR (calreticulina): mutações no éxon 9, em cerca de 25–30% dos casos; tipo 1 e tipo 2 têm implicações prognósticas
- MPL (receptor de trombopoietina): em aproximadamente 3–5% dos casos
- Triplo-negativo: ausência das três mutações acima, em torno de 10–15% dos pacientes
Fatores predisponentes adicionais incluem predisposição genética familiar (rara) e variantes germinativas que aumentam susceptibilidade à aquisição de mutações somáticas.
Classificação e formas
A TE é classificada dentro das neoplasias mieloproliferativas (NMP) BCR-ABL1 negativas pela OMS. A estratificação de risco para eventos trombóticos orienta o tratamento:
Estratificação de risco (trombose)
- Baixo risco: idade < 60 anos E ausência de trombose prévia E sem mutação JAK2 V617F
- Intermediário: idade < 60 anos, sem trombose prévia, mas com JAK2 V617F positivo; ou fatores cardiovasculares isolados
- Alto risco: idade ≥ 60 anos OU trombose prévia
Algumas classificações incorporam fatores cardiovasculares adicionais (hipertensão, diabetes, tabagismo) na gradação do risco.
Sintomas e manifestações clínicas
Muitos pacientes são diagnosticados incidentalmente em hemograma de rotina. Quando presentes, as manifestações mais comuns incluem:
Sintomas vasomotores
- Eritromelalgia (dor, calor e eritema nas extremidades distais)
- Cefaleia, tontura, visão turva, parestesias
- Isquemia digital transitória
Trombose
- Trombose arterial (AVC isquêmico, AIT, síndrome coronariana aguda) é mais frequente que a venosa
- Trombose venosa profunda, embolia pulmonar, trombose de veia esplâncnica (portal, hepática — síndrome de Budd-Chiari)
Hemorragia
- Paradoxalmente, plaquetas muito elevadas (> 1.500.000/µL) podem causar síndrome de von Willebrand adquirida e sangramento
- Epistaxe, sangramento gengival, equimoses
Outros
- Esplenomegalia (em parte dos pacientes)
- Sintomas constitucionais (fadiga, sudorese noturna) são menos proeminentes do que na policitemia vera ou mielofibrose
Diagnóstico
O diagnóstico é baseado nos critérios da OMS (revisão de 2016/2022), que exigem a presença de todos os critérios maiores ou dos três primeiros maiores mais o critério menor:
Critérios maiores
- Contagem de plaquetas ≥ 450.000/µL persistente
- Biópsia de medula óssea com proliferação megacariocítica de células maduras e hiperlobuladas, sem aumento significativo de granulócitos ou eritroblastos, e fibrose reticulínica ausente ou mínima (≤ grau 1)
- Exclusão de outras neoplasias mieloproliferativas (policitemia vera, mielofibrose primária, LMC, SMD e outras neoplasias mieloides)
- Demonstração de mutação driver: JAK2 V617F, CALR ou MPL
Critério menor
- Presença de marcador clonal (mutação somática em outro gene) OU ausência de evidência de trombocitose reativa
Investigação laboratorial e de imagem
- Hemograma completo com contagem diferencial
- Biópsia e aspirado de medula óssea (obrigatórios para o diagnóstico)
- Pesquisa de JAK2 V617F, CALR éxon 9 e MPL W515
- Eritropoietina sérica, ferro, ferritina (exclusão de policitemia vera e causas secundárias)
- Exclusão de causas de trombocitose reativa: infecção, inflamação, deficiência de ferro, asplenia, neoplasia sólida
- Ultrassonografia abdominal para avaliação de esplenomegalia
Tratamento
O objetivo principal é prevenir eventos trombóticos e hemorrágicos. A decisão terapêutica é guiada pela estratificação de risco.
Todos os pacientes
- Ácido acetilsalicílico (AAS) em baixa dose: indicado para a maioria dos pacientes (exceto em plaquetas muito elevadas com risco de sangramento, ou contraindicações formais)
- Controle rigoroso de fatores de risco cardiovascular (cessação do tabagismo, controle da hipertensão e do diabetes)
Terapia citorredutora (alto risco)
- Hidroxiureia (hidroxicarbamida): fármaco de primeira linha; reduz contagem de plaquetas e risco trombótico; monitorar toxicidade cutânea e citopenias
- Interferon-alfa peguilado (ou interferon-alfa): preferido em pacientes jovens e gestantes; pode induzir resposta molecular; uso crescente como primeira linha em alguns serviços
- Anagrelida: inibidor da maturação megacariocítica; usada em segunda linha ou em pacientes resistentes/intolerantes à hidroxiureia; maior risco de trombose arterial e anemia
- Bussulfano: reservado para pacientes idosos refratários
- Ruxolitinibe (inibidor de JAK1/2): aprovado em algumas diretrizes para pacientes resistentes ou intolerantes à hidroxiureia
Situações especiais
- Gestação: hidroxiureia é contraindicada; interferon-alfa é a opção citorredutor de escolha; AAS em baixa dose é mantido até o terceiro trimestre; heparina de baixo peso molecular peripartum em alto risco
- Trombocitose extrema (> 1.500.000/µL): risco de síndrome de von Willebrand adquirida — AAS pode estar contraindicado; citorredução prioritária
- Trombose aguda: anticoagulação conforme localização; manter citorredução
Prognóstico
- A expectativa de vida dos pacientes de baixo risco é próxima à da população geral
- Risco de transformação para mielofibrose secundária em torno de 10–20% em 20 anos de seguimento
- Transformação para leucemia mieloide aguda é incomum na TE isolada (< 5% em 20 anos), mas aumenta com uso de agentes alquilantes
- Genótipo CALR tipo 1 associa-se a menor risco trombótico e prognóstico mais favorável; JAK2 V617F e triplo-negativo têm perfis distintos
- Seguimento regular com hemograma, avaliação clínica e revisão periódica da estratificação de risco é essencial
Perguntas frequentes
- Quais são os sintomas da trombocitemia essencial?
- Muitos pacientes são assintomáticos ao diagnóstico. Quando presentes, os sintomas mais comuns são eritromelalgia (dor e calor nas extremidades), cefaleia, tontura e parestesias. O principal risco clínico são eventos trombóticos (AVC, infarto) ou, paradoxalmente, sangramentos quando as plaquetas estão muito elevadas.
- Trombocitemia essencial tem cura?
- Não existe tratamento curativo estabelecido fora do transplante de células-tronco hematopoiéticas, que raramente é indicado na TE por seu curso geralmente indolente. O tratamento visa controlar a contagem de plaquetas e prevenir complicações, com boa qualidade de vida na maioria dos pacientes.
- Qual a diferença entre trombocitemia essencial e trombocitose reativa?
- A trombocitemia essencial é uma neoplasia mieloproliferativa clonal, com mutação driver (JAK2, CALR ou MPL) identificável, e requer biópsia de medula óssea para confirmação. A trombocitose reativa é secundária a causas como infecção, inflamação, deficiência de ferro ou asplenia — é transitória e se resolve com o tratamento da causa base.
- Quando iniciar citorredução na trombocitemia essencial?
- A citorredução com hidroxiureia ou interferon-alfa está indicada para pacientes de alto risco: aqueles com idade ≥ 60 anos ou trombose prévia. Em pacientes de baixo ou intermediário risco, o manejo pode ser baseado apenas em AAS e controle de fatores cardiovasculares, dependendo do perfil individual.