Resumos03 ago 20265 min de leitura

Trombocitemia Essencial

O que é, sintomas, diagnóstico e tratamento

hematologia

Trombocitemia essencial: neoplasia mieloproliferativa com plaquetas elevadas. Conheça causas, sintomas, diagnóstico (JAK2, CALR) e tratamento.

A trombocitemia essencial (TE) é uma neoplasia mieloproliferativa crônica caracterizada pela produção excessiva e persistente de plaquetas pela medula óssea. É considerada uma das neoplasias mieloproliferativas clássicas BCR-ABL1 negativas, ao lado da policitemia vera e da mielofibrose primária. Embora muitos pacientes permaneçam assintomáticos por longos períodos, a doença acarreta risco significativo de eventos trombóticos e hemorrágicos.

O que é Trombocitemia Essencial?

A trombocitemia essencial é uma neoplasia clonal originada em células-tronco hematopoiéticas, que leva à proliferação desregulada da linhagem megacariocítica. O resultado é uma trombocitose persistente — geralmente acima de 450.000 plaquetas/µL — sem causa secundária identificável. A doença é crônica, com curso indolente na maioria dos casos, mas pode evoluir para mielofibrose secundária ou, menos frequentemente, para leucemia mieloide aguda.

Essential thrombocythemia - Wikipedia
Fonte: No machine-readable author provided. KGH assumed (based on copyright claims). / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Causas e transmissão

Não há transmissão — a TE é uma neoplasia adquirida, não infecciosa. A origem é uma mutação somática em célula-tronco hematopoiética. As principais mutações driver identificadas são:

  • JAK2 V617F: presente em aproximadamente 50–60% dos casos; ativa constitutivamente a via JAK-STAT
  • CALR (calreticulina): mutações no éxon 9, em cerca de 25–30% dos casos; tipo 1 e tipo 2 têm implicações prognósticas
  • MPL (receptor de trombopoietina): em aproximadamente 3–5% dos casos
  • Triplo-negativo: ausência das três mutações acima, em torno de 10–15% dos pacientes

Fatores predisponentes adicionais incluem predisposição genética familiar (rara) e variantes germinativas que aumentam susceptibilidade à aquisição de mutações somáticas.

Classificação e formas

A TE é classificada dentro das neoplasias mieloproliferativas (NMP) BCR-ABL1 negativas pela OMS. A estratificação de risco para eventos trombóticos orienta o tratamento:

Estratificação de risco (trombose)

  • Baixo risco: idade < 60 anos E ausência de trombose prévia E sem mutação JAK2 V617F
  • Intermediário: idade < 60 anos, sem trombose prévia, mas com JAK2 V617F positivo; ou fatores cardiovasculares isolados
  • Alto risco: idade ≥ 60 anos OU trombose prévia

Algumas classificações incorporam fatores cardiovasculares adicionais (hipertensão, diabetes, tabagismo) na gradação do risco.

Sintomas e manifestações clínicas

Muitos pacientes são diagnosticados incidentalmente em hemograma de rotina. Quando presentes, as manifestações mais comuns incluem:

Sintomas vasomotores

  • Eritromelalgia (dor, calor e eritema nas extremidades distais)
  • Cefaleia, tontura, visão turva, parestesias
  • Isquemia digital transitória

Trombose

  • Trombose arterial (AVC isquêmico, AIT, síndrome coronariana aguda) é mais frequente que a venosa
  • Trombose venosa profunda, embolia pulmonar, trombose de veia esplâncnica (portal, hepática — síndrome de Budd-Chiari)

Hemorragia

  • Paradoxalmente, plaquetas muito elevadas (> 1.500.000/µL) podem causar síndrome de von Willebrand adquirida e sangramento
  • Epistaxe, sangramento gengival, equimoses

Outros

  • Esplenomegalia (em parte dos pacientes)
  • Sintomas constitucionais (fadiga, sudorese noturna) são menos proeminentes do que na policitemia vera ou mielofibrose

Diagnóstico

O diagnóstico é baseado nos critérios da OMS (revisão de 2016/2022), que exigem a presença de todos os critérios maiores ou dos três primeiros maiores mais o critério menor:

Critérios maiores

  1. Contagem de plaquetas ≥ 450.000/µL persistente
  2. Biópsia de medula óssea com proliferação megacariocítica de células maduras e hiperlobuladas, sem aumento significativo de granulócitos ou eritroblastos, e fibrose reticulínica ausente ou mínima (≤ grau 1)
  3. Exclusão de outras neoplasias mieloproliferativas (policitemia vera, mielofibrose primária, LMC, SMD e outras neoplasias mieloides)
  4. Demonstração de mutação driver: JAK2 V617F, CALR ou MPL

Critério menor

  • Presença de marcador clonal (mutação somática em outro gene) OU ausência de evidência de trombocitose reativa

Investigação laboratorial e de imagem

  • Hemograma completo com contagem diferencial
  • Biópsia e aspirado de medula óssea (obrigatórios para o diagnóstico)
  • Pesquisa de JAK2 V617F, CALR éxon 9 e MPL W515
  • Eritropoietina sérica, ferro, ferritina (exclusão de policitemia vera e causas secundárias)
  • Exclusão de causas de trombocitose reativa: infecção, inflamação, deficiência de ferro, asplenia, neoplasia sólida
  • Ultrassonografia abdominal para avaliação de esplenomegalia

Tratamento

O objetivo principal é prevenir eventos trombóticos e hemorrágicos. A decisão terapêutica é guiada pela estratificação de risco.

Todos os pacientes

  • Ácido acetilsalicílico (AAS) em baixa dose: indicado para a maioria dos pacientes (exceto em plaquetas muito elevadas com risco de sangramento, ou contraindicações formais)
  • Controle rigoroso de fatores de risco cardiovascular (cessação do tabagismo, controle da hipertensão e do diabetes)

Terapia citorredutora (alto risco)

  • Hidroxiureia (hidroxicarbamida): fármaco de primeira linha; reduz contagem de plaquetas e risco trombótico; monitorar toxicidade cutânea e citopenias
  • Interferon-alfa peguilado (ou interferon-alfa): preferido em pacientes jovens e gestantes; pode induzir resposta molecular; uso crescente como primeira linha em alguns serviços
  • Anagrelida: inibidor da maturação megacariocítica; usada em segunda linha ou em pacientes resistentes/intolerantes à hidroxiureia; maior risco de trombose arterial e anemia
  • Bussulfano: reservado para pacientes idosos refratários
  • Ruxolitinibe (inibidor de JAK1/2): aprovado em algumas diretrizes para pacientes resistentes ou intolerantes à hidroxiureia

Situações especiais

  • Gestação: hidroxiureia é contraindicada; interferon-alfa é a opção citorredutor de escolha; AAS em baixa dose é mantido até o terceiro trimestre; heparina de baixo peso molecular peripartum em alto risco
  • Trombocitose extrema (> 1.500.000/µL): risco de síndrome de von Willebrand adquirida — AAS pode estar contraindicado; citorredução prioritária
  • Trombose aguda: anticoagulação conforme localização; manter citorredução
Estratificação de risco e conduta na Trombocitemia Essencial
Estratificação de risco e conduta na Trombocitemia Essencial

Prognóstico

  • A expectativa de vida dos pacientes de baixo risco é próxima à da população geral
  • Risco de transformação para mielofibrose secundária em torno de 10–20% em 20 anos de seguimento
  • Transformação para leucemia mieloide aguda é incomum na TE isolada (< 5% em 20 anos), mas aumenta com uso de agentes alquilantes
  • Genótipo CALR tipo 1 associa-se a menor risco trombótico e prognóstico mais favorável; JAK2 V617F e triplo-negativo têm perfis distintos
  • Seguimento regular com hemograma, avaliação clínica e revisão periódica da estratificação de risco é essencial

Perguntas frequentes

Quais são os sintomas da trombocitemia essencial?
Muitos pacientes são assintomáticos ao diagnóstico. Quando presentes, os sintomas mais comuns são eritromelalgia (dor e calor nas extremidades), cefaleia, tontura e parestesias. O principal risco clínico são eventos trombóticos (AVC, infarto) ou, paradoxalmente, sangramentos quando as plaquetas estão muito elevadas.
Trombocitemia essencial tem cura?
Não existe tratamento curativo estabelecido fora do transplante de células-tronco hematopoiéticas, que raramente é indicado na TE por seu curso geralmente indolente. O tratamento visa controlar a contagem de plaquetas e prevenir complicações, com boa qualidade de vida na maioria dos pacientes.
Qual a diferença entre trombocitemia essencial e trombocitose reativa?
A trombocitemia essencial é uma neoplasia mieloproliferativa clonal, com mutação driver (JAK2, CALR ou MPL) identificável, e requer biópsia de medula óssea para confirmação. A trombocitose reativa é secundária a causas como infecção, inflamação, deficiência de ferro ou asplenia — é transitória e se resolve com o tratamento da causa base.
Quando iniciar citorredução na trombocitemia essencial?
A citorredução com hidroxiureia ou interferon-alfa está indicada para pacientes de alto risco: aqueles com idade ≥ 60 anos ou trombose prévia. Em pacientes de baixo ou intermediário risco, o manejo pode ser baseado apenas em AAS e controle de fatores cardiovasculares, dependendo do perfil individual.

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