Resumos03 ago 20264 min de leitura

Policitemia Vera

O que é, sintomas, diagnóstico e tratamento

hematologia

Policitemia vera: neoplasia mieloproliferativa com aumento da massa eritrocitária. Conheça os sintomas, como é feito o diagnóstico e o tratamento.

A policitemia vera (PV) é uma neoplasia mieloproliferativa crônica caracterizada pela proliferação clonal das células hematopoéticas, com predomínio do aumento da massa eritrocitária. É considerada uma das principais neoplasias mieloproliferativas, ao lado da trombocitemia essencial e da mielofibrose primária.

O que é Policitemia Vera?

A policitemia vera é uma doença clonal da célula-tronco hematopoética em que ocorre produção excessiva de eritrócitos — e frequentemente também de leucócitos e plaquetas — de forma independente dos mecanismos regulatórios normais. Diferencia-se das policitemia secundárias (causadas por hipóxia crônica, tabagismo ou tumor secretor de eritropoetina), pois na PV a eritropoetina sérica está reduzida ou suprimida. A mutação somática JAK2 V617F é encontrada em mais de 95% dos casos e é central na fisiopatologia da doença.

Polycythemia - Wikipedia
Fonte: OpenStax College / Wikimedia Commons (CC BY 3.0)

Causas e transmissão

A PV não é transmissível. Trata-se de uma doença adquirida, resultante de mutação somática em célula-tronco hematopoética:

  • Mutação JAK2 V617F: presente em >95% dos casos; leva à ativação constitutiva da via JAK-STAT, promovendo proliferação eritroide independente de eritropoetina.
  • Mutação no éxon 12 do JAK2: encontrada em uma pequena parcela dos casos JAK2 V617F-negativos.
  • Fatores de risco incluem idade avançada (pico na 6ª–7ª décadas) e sexo masculino (leve predomínio).
  • Não há transmissão hereditária direta, embora predisposição genética possa contribuir em casos raros.

Classificação e formas

A evolução da PV tende a seguir três fases:

Fase pré-policitêmica (latente)

Hemograma pouco alterado; pode haver trombocitose leve. Frequentemente diagnosticada de forma incidental.

Fase policitêmica manifesta

Aumento franco da massa eritrocitária, com sintomas clínicos evidentes. É a fase mais prevalente ao diagnóstico.

Fase de esgotamento (spent phase) / mielofibrose pós-PV

Ocorre em parte dos pacientes após anos de doença. Há fibrose medular progressiva, queda dos valores hematimétricos (anemia), esplenomegalia volumosa e pancitopenia. Risco adicional de transformação para leucemia mieloide aguda.

Sintomas e manifestações clínicas

Os sintomas decorrem principalmente da hiperviscosidade sanguínea e da tendência trombótica:

  • Prurido aquagênico: coceira intensa após banho quente — sintoma bastante característico da PV, relacionado à degranulação de basófilos e mastócitos.
  • Eritromelalgia: dor e eritema em extremidades, especialmente pés, por oclusão microvascular.
  • Cefaleia, tontura, zumbido e distúrbios visuais: reflexo da hiperviscosidade.
  • Pletora facial: fácies avermelhada, injeção conjuntival.
  • Esplenomegalia: presente em cerca da metade dos pacientes ao diagnóstico.
  • Hepatomegalia: menos frequente.
  • Eventos trombóticos: trombose venosa (incluindo síndrome de Budd-Chiari) e arterial (AVC, IAM, TVP, TEP) são a principal causa de morbimortalidade.
  • Eventos hemorrágicos: paradoxalmente possíveis, especialmente com plaquetometria muito elevada (síndrome de von Willebrand adquirida).
  • Sintomas constitucionais: fadiga, sudorese noturna, perda de peso — sobretudo nas fases avançadas.

Diagnóstico

O diagnóstico baseia-se nos critérios da OMS (revisão de 2016/2022), divididos em critérios maiores e menor:

Critérios maiores

  1. Hemoglobina >16,5 g/dL em homens ou >16,0 g/dL em mulheres (ou hematócrito >49% em homens / >48% em mulheres), ou massa eritrocitária aumentada.
  2. Biópsia de medula óssea com hipercelularidade trilinear (panmielose) e pleomorfismo de megacariócitos.
  3. Presença da mutação JAK2 V617F ou mutação no éxon 12 do JAK2.

Critério menor

  • Eritropoetina sérica abaixo do normal.

O diagnóstico exige os 3 critérios maiores, ou os 2 primeiros critérios maiores + o critério menor.

Exames complementares relevantes

  • Hemograma completo: eritrocitose, frequentemente com leucocitose e trombocitose.
  • Pesquisa de JAK2 V617F (por PCR ou sequenciamento).
  • Eritropoetina sérica: suprimida na PV (útil no diagnóstico diferencial com policitemia secundária).
  • Biópsia de medula óssea: necessária na maioria dos casos para completar os critérios.
  • LDH, ácido úrico: podem estar elevados (carga proliferativa).
  • Saturação de oxigênio / gasometria: para exclusão de policitemia secundária.
Algoritmo diagnóstico e terapêutico da Policitemia Vera
Algoritmo diagnóstico e terapêutico da Policitemia Vera

Tratamento

Os objetivos do tratamento são reduzir o risco trombótico, controlar os sintomas e retardar a progressão da doença.

Medidas gerais e estratificação de risco

  • Baixo risco: idade <60 anos e sem história de trombose.
  • Alto risco: idade ≥60 anos ou história de trombose.

Flebotomia (sangria terapêutica)

  • Indicada para todos os pacientes, independentemente do risco.
  • Meta: manter hematócrito <45% (evidência de redução de eventos cardiovasculares com esse alvo).
  • Cada sessão retira geralmente 450–500 mL de sangue.

Antiagregação plaquetária

  • Ácido acetilsalicílico (AAS) em baixa dose é recomendado para a maioria dos pacientes, salvo contraindicação ou plaquetometria muito elevada com risco de sangramento.

Terapia citorredu tora

  • Indicada nos pacientes de alto risco ou naqueles intolerantes às flebotomias frequentes.
  • Hidroxiureia: primeira linha; reduz a proliferação celular com boa tolerabilidade a curto e médio prazo.
  • Interferon-alfa (peguilado): alternativa de primeira linha, preferida em pacientes jovens, mulheres em idade fértil e gestantes (não é teratogênico).
  • Ruxolitinibe (inibidor de JAK1/JAK2): indicado em casos refratários ou intolerantes à hidroxiureia; aprovado para segunda linha.
  • Bussulfano e pipobroman: uso restrito a casos selecionados (maior risco leucemogênico).

Controle de sintomas

  • Prurido: anti-histamínicos, inibidores seletivos da recaptação de serotonina (paroxetina), fototerapia UVB, e melhora com o controle da doença.
  • Hiperuricemia sintomática: alopurinol.
  • Eritromelalgia: AAS em baixa dose geralmente é eficaz.

Prognóstico

  • A PV é uma doença crônica com sobrevida mediana em torno de 14–20 anos em séries modernas, porém variável conforme a idade ao diagnóstico e a presença de fatores de risco.
  • Trombose é a principal causa de mortalidade.
  • Risco de transformação para mielofibrose pós-PV ocorre em aproximadamente 10–20% dos pacientes após 10–15 anos de doença.
  • Transformação para leucemia mieloide aguda é menos frequente (~5% em 10 anos), porém de prognóstico reservado.
  • O controle rigoroso do hematócrito e a antiagregação plaquetária são as intervenções com maior impacto na redução de eventos trombóticos.

Perguntas frequentes

Qual é o principal sintoma da policitemia vera?
O prurido aquagênico — coceira intensa desencadeada pelo contato com água quente — é um sintoma bastante característico da policitemia vera. Outros sintomas frequentes incluem pletora facial, cefaleia, tontura e eritromelalgia (dor e eritema nas extremidades).
Como é feito o diagnóstico de policitemia vera?
O diagnóstico segue os critérios da OMS: eritrocitose significativa, biópsia de medula óssea com panmielose e, principalmente, a pesquisa positiva para a mutação JAK2 V617F (presente em mais de 95% dos casos). A eritropoetina sérica suprimida é um critério menor adicional.
Policitemia vera tem cura?
Não existe tratamento curativo disponível na prática clínica para a maioria dos pacientes. O transplante alogênico de medula óssea pode ser curativo, mas é reservado para casos selecionados de alto risco por conta de sua morbimortalidade. O tratamento habitual controla a doença e reduz complicações, possibilitando boa qualidade de vida por muitos anos.
Qual é o tratamento de primeira linha da policitemia vera?
A flebotomia terapêutica (com meta de hematócrito abaixo de 45%) e o AAS em baixa dose são a base do tratamento para todos os pacientes. Em casos de alto risco (idade ≥60 anos ou história de trombose), adiciona-se citorredu ção com hidroxiureia ou interferon-alfa peguilado como primeira escolha.

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