Trombose Venosa Profunda
O que é, causas, sintomas, diagnóstico e tratamento
Trombose Venosa Profunda (TVP): causas, fatores de risco, sintomas, como diagnosticar com Doppler e duplex scan, e tratamento com anticoagulantes.
A trombose venosa profunda (TVP) é a formação de um trombo dentro do sistema venoso profundo, mais frequentemente nos membros inferiores. É uma condição potencialmente grave porque pode levar ao tromboembolismo pulmonar (TEP), complicação com risco de vida. Junto com o TEP, integra o espectro clínico do tromboembolismo venoso (TEV).
O que é Trombose Venosa Profunda?
A TVP consiste na oclusão parcial ou total de uma veia profunda por um coágulo sanguíneo (trombo), que se forma em decorrência de alterações nos mecanismos normais de coagulação. Acomete predominantemente as veias dos membros inferiores (ilíaca, femoral e poplítea), mas pode ocorrer também nos membros superiores, nas veias viscerais e no sistema nervoso central. O trombo formado pode fragmentar-se e embolizar para a circulação pulmonar, configurando o TEP.

Causas e transmissão
A TVP não é uma doença transmissível. Sua patogênese é explicada pela Tríade de Virchow, que agrupa os três mecanismos fundamentais:
Estase venosa: imobilidade prolongada (viagens longas, internação, pós-operatório), insuficiência cardíaca, obesidade
Lesão endotelial: trauma, cirurgia, cateter venoso central, processos inflamatórios
Hipercoagulabilidade: uso de contraceptivos orais, gestação, neoplasias, trombofilias hereditárias (deficiência de proteína C, proteína S, antitrombina; mutação do fator V de Leiden; mutação G20210A da protrombina), síndrome antifosfolipídeo
Outros fatores de risco relevantes incluem:
Idade avançada
Histórico prévio de TVP ou TEP
Neoplasia ativa
Cirurgias ortopédicas de grande porte (artroplastia de quadril e joelho)
Trauma de membros inferiores
Classificação e formas
A TVP pode ser classificada quanto à localização:
Distal (infrapoplítea): acomete veias da panturrilha (tibiais, peroneiras, musculares); menor risco de TEP, evolução geralmente mais benigna
Proximal: acomete veias poplítea, femoral e ilíaca; maior risco de TEP e de síndrome pós-trombótica
Quanto ao contexto clínico:
Provocada: associada a fator de risco identificável (cirurgia, imobilização, estrogênio)
Não provocada (idiopática): sem fator desencadeante evidente; maior risco de recorrência e maior probabilidade de trombofilia subjacente ou neoplasia oculta
Recorrente: episódio ocorrendo após trombose prévia documentada
Sintomas e manifestações clínicas
Os sintomas da TVP são inespecíficos e podem estar ausentes em até 50% dos casos:
Edema do membro afetado, geralmente unilateral
Dor em peso ou câimbra no membro, de início gradual
Eritema e calor local
Empastamento à palpação da panturrilha
Sinal de Homans (dor na panturrilha à dorsiflexão passiva do pé): baixa sensibilidade e especificidade, uso em declínio
Circulação colateral visível na coxa ou região inguinal, nos casos de trombose proximal extensa
Nos casos de flegmasia cerulea dolens (trombose maciça iliofemoral), o membro apresenta edema volumoso, cianose intensa e dor excruciante, com risco de gangrena venosa.
Diagnóstico
O diagnóstico baseia-se na integração entre probabilidade clínica pré-teste, dosagem de D-dímero e exame de imagem.
Estratificação da probabilidade clínica
O Escore de Wells para TVP é o instrumento mais utilizado:
Pontuação ≥ 2: probabilidade alta
Pontuação 1: probabilidade intermediária
Pontuação ≤ 0: probabilidade baixa
Itens pontuados incluem câncer ativo, paralisia/imobilização do membro, cirurgia recente, sensibilidade ao longo do trajeto venoso, edema unilateral, empastamento de panturrilha, circulação colateral, diagnóstico alternativo menos provável que TVP.
D-dímero
Alta sensibilidade, baixa especificidade
Útil para excluir TVP em pacientes com probabilidade clínica baixa ou intermediária: resultado negativo afasta o diagnóstico com alto valor preditivo negativo
Pouco útil como teste confirmatório (elevado em infecção, inflamação, gestação, neoplasia)
Exame de imagem
Ultrassonografia com compressão (Doppler duplex): método de escolha — não invasivo, amplamente disponível, alta acurácia para TVP proximal (sensibilidade > 95%); acurácia menor para TVP distal isolada
Flebografia (venografia contrastada): padrão-ouro histórico, atualmente reservada para casos duvidosos ou procedimentos intervencionistas
Angiotomografia ou ressonância magnética: indicadas em casos especiais (TVP pélvica, visceral ou de membros superiores)
Investigação de trombofilia
Indicada em TVP não provocada em pacientes jovens, recorrente, em sítios incomuns ou com história familiar relevante. Idealmente colhida antes de iniciar anticoagulação ou após suspensão.
Algoritmo Diagnóstico da TVP
Tratamento
Os objetivos são prevenir a extensão do trombo, o TEP, a recorrência e a síndrome pós-trombótica.
Anticoagulação
Pilare do tratamento. As opções atuais incluem:
Anticoagulantes orais diretos (DOACs): rivaroxabana e apixabana são de escolha na maioria dos pacientes — eficácia equivalente à varfarina com menor risco de sangramento e sem necessidade de monitoração laboratorial rotineira
Heparina de baixo peso molecular (HBPM): enoxaparina; usada como ponte para varfarina ou em contextos onde DOACs são contraindicados (gestação, insuficiência renal grave, câncer ativo em algumas situações)
Heparina não fracionada (HNF): reservada para pacientes com risco hemorrágico elevado (necessidade de reversão rápida), instabilidade hemodinâmica ou insuficiência renal grave
Varfarina: ainda utilizada em contextos específicos (valvopatia, fibrilação atrial com TVP concomitante, gestação — apenas no 2º trimestre); necessita monitoração de INR com alvo 2,0–3,0
Duração da anticoagulação
TVP proximal provocada por fator de risco transitório: 3 meses
TVP proximal não provocada ou recorrente: mínimo 3 meses, com reavaliação do benefício de anticoagulação estendida
TVP associada a neoplasia ativa: anticoagulação enquanto o câncer estiver ativo (preferência por DOACs ou HBPM)
TVP distal isolada sintomática: 3 meses; assintomática ou de baixo risco pode ser monitorada sem anticoagular
Medidas adjuvantes
Meia elástica de compressão graduada: reduz edema e pode diminuir a incidência de síndrome pós-trombótica; controversa quanto à prevenção da síndrome a longo prazo segundo evidências recentes
Deambulação precoce: segura e preferível ao repouso absoluto
Filtro de veia cava inferior: reservado a pacientes com contraindicação absoluta à anticoagulação ou TVP recorrente apesar de anticoagulação adequada
Trombólise dirigida por cateter ou trombectomia cirúrgica: considerada em casos selecionados de flegmasia cerulea dolens com risco de perda de membro
Prevenção
A profilaxia é pilar fundamental no manejo hospitalar e cirúrgico:
Mecânica: deambulação precoce, meias de compressão graduada, dispositivos de compressão pneumática intermitente
Farmacológica: HBPM (enoxaparina) ou heparina não fracionada em baixas doses, DOACs profiláticos em cirurgias ortopédicas de grande porte
A escolha e a duração da profilaxia dependem do risco individual do paciente (escores como Caprini hospitalar) e do tipo de procedimento cirúrgico
Prognóstico
O principal determinante da mortalidade imediata é o TEP, presente em proporção significativa dos casos de TVP proximal
A síndrome pós-trombótica (dor crônica, edema, lipodermatosclerose, úlcera venosa) ocorre em até 20–50% dos casos após TVP proximal ao longo de 2 anos
A recorrência de TEV é maior em TVP não provocada, trombofilia de alto risco e neoplasia ativa
O diagnóstico precoce e a anticoagulação adequada reduzem substancialmente a morbimortalidade
Perguntas frequentes
- Quais são os sintomas de trombose venosa profunda?
- Os sintomas mais comuns são edema unilateral do membro, dor em peso ou câimbra (especialmente na panturrilha), calor e vermelhidão local. Em até metade dos casos, no entanto, a TVP pode ser assintomática, o que torna a investigação clínica e por imagem essencial quando há fatores de risco.
- Como se diagnostica trombose venosa profunda?
- O diagnóstico combina a probabilidade clínica pré-teste (Escore de Wells), dosagem de D-dímero e ultrassonografia com Doppler duplex. Em pacientes com baixa probabilidade clínica e D-dímero negativo, a TVP pode ser excluída sem necessidade de exame de imagem. O Doppler é o método de imagem de escolha, com alta acurácia para trombose proximal.
- Trombose venosa profunda tem cura?
- Sim. Com anticoagulação adequada, o trombo é progressivamente reabsorvido e os sintomas regridem na maioria dos pacientes. A duração do tratamento varia de 3 meses a tempo indeterminado, dependendo do fator desencadeante e do risco de recorrência. Uma complicação tardia possível é a síndrome pós-trombótica, que pode causar sintomas crônicos no membro afetado.
- Qual o risco de embolia pulmonar na trombose venosa profunda?
- TVP proximal (femoral, ilíaca) tem risco significativo de embolização para a circulação pulmonar, configurando o TEP. Por isso, toda TVP proximal deve ser anticoagulada prontamente. TVP distal (panturrilha) tem menor risco de TEP, mas pode se estender para segmentos proximais se não tratada.