TRALI e TACO
Complicações transfusionais pulmonares: diagnóstico diferencial e conduta
TRALI e TACO são as principais causas de lesão pulmonar aguda por transfusão. Conheça critérios diagnósticos, diferenças clínicas e tratamento.
TRALI (Transfusion-Related Acute Lung Injury) e TACO (Transfusion-Associated Circulatory Overload) são as duas principais causas de morbidade e mortalidade pulmonar relacionadas à transfusão de hemocomponentes. Apesar de apresentações clínicas semelhantes — dispneia aguda durante ou após transfusão —, possuem fisiopatologias distintas e condutas específicas. Saber diferenciá-las é essencial para a prova de residência e para a prática clínica.
O que é TRALI e TACO?
TRALI (Lesão Pulmonar Aguda Relacionada à Transfusão) é uma reação transfusional grave caracterizada por lesão pulmonar aguda não cardiogênica que ocorre durante ou em até 6 horas após a transfusão. É uma das principais causas de morte por transfusão nos países desenvolvidos.
TACO (Sobrecarga Circulatória Associada à Transfusão) é uma complicação de natureza cardiogênica, resultante da expansão volêmica excessiva e rápida durante a transfusão, levando a edema pulmonar hidrostático. É a complicação transfusional grave mais frequente na prática.

Causas e transmissão
TRALI
A fisiopatologia é predominantemente imunológica (modelo de dois eventos):
- Primeiro evento: condição clínica prévia do paciente (sepse, cirurgia, inflamação) que ativa neutrófilos e os retém na microvasculatura pulmonar.
- Segundo evento: a transfusão fornece anticorpos (anti-HLA classe I ou II, anti-HNA) presentes no plasma do doador, que ativam esses neutrófilos, causando lesão endotelial e aumento da permeabilidade capilar.
- Uma forma não imune também existe, mediada por lipídios biologicamente ativos acumulados durante o armazenamento do hemocomponente.
- Componentes ricos em plasma (PFC, plaquetas, sangue total) são os mais implicados, mas pode ocorrer com qualquer hemocomponente.
TACO
- Mecanismo: sobrecarga de volume com aumento das pressões de enchimento cardíaco e edema pulmonar hidrostático.
- Fatores de risco: insuficiência cardíaca prévia, insuficiência renal, idade avançada, hipoalbuminemia, transfusão rápida ou em grande volume.
- Qualquer hemocomponente pode desencadear TACO, especialmente quando infundido em velocidade ou volume excessivos.
Classificação e formas
TRALI
A definição do Consenso Internacional (2019) distingue:
- TRALI tipo I: lesão pulmonar aguda sem fator de risco preexistente para SDRA.
- TRALI tipo II: lesão pulmonar aguda em paciente com fator de risco para SDRA preexistente ou com lesão pulmonar leve antes da transfusão (anteriormente chamado de "possível TRALI").
TACO
Não possui subclassificações formais; a gravidade varia de leve (tosse, hipertensão) a grave (edema pulmonar franco com hipoxemia severa).
Sintomas e manifestações clínicas
TRALI
- Dispneia aguda e hipoxemia (SpO₂ < 90% em ar ambiente ou PaO₂/FiO₂ < 300 mmHg)
- Infiltrados pulmonares bilaterais ao raio X de tórax
- Ausência de sinais de hipervolemia (pressão venosa não elevada, sem edema periférico)
- Febre e hipotensão são frequentes (distinguem do TACO)
- Ausência de evidência de insuficiência cardíaca esquerda preexistente explicando o quadro
- Início durante a transfusão ou em até 6 horas do término
TACO
- Dispneia, ortopneia, tosse
- Hipertensão arterial (ao contrário do TRALI, onde há hipotensão)
- Taquicardia, distensão venosa jugular
- Crepitações bibasais à ausculta
- Infiltrados pulmonares bilaterais ao raio X de tórax
- Edema periférico
- Melhora com diuréticos
- Início durante ou em até 6 horas da transfusão
Diagnóstico
Ambos são diagnósticos primariamente clínicos, com suporte em exames complementares.
Critérios diagnósticos do TRALI (Consenso de Berlim/2019)
- Início agudo durante ou até 6 horas após transfusão
- Hipoxemia: PaO₂/FiO₂ < 300 mmHg ou SpO₂ < 90% em ar ambiente
- Infiltrado bilateral ao raio X de tórax
- Ausência de sobrecarga hídrica como causa principal
- Ausência de lesão pulmonar aguda pré-transfusional
Critérios diagnósticos do TACO (ISBT)
- Quatro ou mais dos seguintes em até 6 horas após transfusão:
- Distúrbio respiratório agudo (novo ou piora)
- Elevação de BNP/NT-proBNP (> 1,5× o valor pré-transfusional ou BNP > 250 pg/mL)
- Evidência de balanço hídrico positivo
- Edema pulmonar na radiografia de tórax
- Evidência de disfunção cardíaca sistólica/diastólica à ecocardiografia
- Elevação da pressão venosa (PVC elevada, turgência jugular)
Exames auxiliares no diagnóstico diferencial
- BNP/NT-proBNP: elevado no TACO, tipicamente normal ou modestamente elevado no TRALI
- Radiografia de tórax: infiltrados bilaterais em ambos; no TACO, há índice cardiotorácico aumentado e linhas B de Kerley
- Ecocardiografia: disfunção ventricular no TACO; função preservada no TRALI
- Pesquisa de anticorpos anti-HLA/anti-HNA: confirma mecanismo imune no TRALI, mas não está disponível em urgência
- Gradiente alvéolo-arterial de O₂: elevado em ambos — não diferencia
Tratamento
TRALI
- Suspender a transfusão imediatamente (medida mais importante)
- Suporte respiratório: O₂ suplementar; ventilação mecânica protetora se indicada (estratégia da SDRA: volume corrente 4–6 mL/kg de peso ideal, pressão de platô < 30 cmH₂O)
- Não administrar diuréticos — a fisiopatologia é de permeabilidade aumentada, não de sobrecarga; diurese pode piorar a hemodinâmica
- Suporte hemodinâmico com cristaloides se hipotensão; vasopressores se necessário
- Corticoides: sem evidência sólida; não recomendados rotineiramente
- Notificação ao banco de sangue para investigação do doador e do hemocomponente
TACO
- Suspender ou reduzir drasticamente a velocidade da transfusão
- Diuréticos de alça (furosemida): tratamento central — promovem rápida melhora do edema pulmonar hidrostático
- Suporte com O₂ ou ventilação não invasiva (CPAP/BiPAP) conforme necessidade
- Posição ortopneica (decúbito elevado)
- Monitorização hemodinâmica e de balanço hídrico
- Em casos graves: ventilação mecânica invasiva
Prevenção e Prognóstico
Prevenção do TRALI
- Uso preferencial de plasma de doadores masculinos (menor prevalência de anticorpos anti-HLA adquiridos) — estratégia adotada em vários bancos de sangue
- Transfundir apenas quando houver indicação clínica precisa
- Investigação e exclusão de doadores com anticorpos anti-HLA/anti-HNA implicados em casos
Prevenção do TACO
- Infusão lenta em pacientes de risco (≤ 1 mL/kg/h)
- Diurético profilático antes da transfusão em pacientes com IC ou sobrecarga hídrica prévia
- Monitorização volêmica durante a transfusão
- Transfundir uma unidade por vez, com reavaliação clínica
Prognóstico
- TRALI: mortalidade de 5–10% nos casos graves; a maioria dos sobreviventes apresenta resolução do quadro em 48–96 horas com suporte adequado.
- TACO: mortalidade aumentada em pacientes idosos e com cardiopatia grave; boa resposta à diureticoterapia precoce na maioria dos casos.
Perguntas frequentes
- Qual a principal diferença entre TRALI e TACO?
- A principal diferença é fisiopatológica: TRALI é uma lesão pulmonar não cardiogênica por aumento de permeabilidade (mediada por anticorpos ou lipídios do hemocomponente), enquanto TACO é um edema pulmonar cardiogênico por sobrecarga volêmica. Clinicamente, TRALI cursa com hipotensão e febre, e TACO com hipertensão e sinais de hipervolemia. O BNP e a ecocardiografia ajudam a diferenciar.
- Como tratar TRALI?
- Suspender imediatamente a transfusão e oferecer suporte respiratório (O₂ e ventilação mecânica protetora se necessário). Diuréticos são contraindicados no TRALI, pois o edema é por permeabilidade — não por sobrecarga. Hipotensão deve ser tratada com cristaloides e vasopressores.
- TACO tem cura?
- Sim. O TACO responde bem à suspensão da transfusão e à diureticoterapia com furosemida. A maioria dos pacientes melhora rapidamente com a redução da sobrecarga hídrica e suporte respiratório adequado. O prognóstico é mais reservado em cardiopatas graves e idosos.
- Quanto tempo após a transfusão podem ocorrer TRALI e TACO?
- Ambos se manifestam durante a transfusão ou em até 6 horas após o seu término. Reações respiratórias que surgem fora desse janela exigem investigação de outras etiologias.