Resumos03 ago 20265 min de leitura

TRALI e TACO

Complicações transfusionais pulmonares: diagnóstico diferencial e conduta

hematologia

TRALI e TACO são as principais causas de lesão pulmonar aguda por transfusão. Conheça critérios diagnósticos, diferenças clínicas e tratamento.

TRALI (Transfusion-Related Acute Lung Injury) e TACO (Transfusion-Associated Circulatory Overload) são as duas principais causas de morbidade e mortalidade pulmonar relacionadas à transfusão de hemocomponentes. Apesar de apresentações clínicas semelhantes — dispneia aguda durante ou após transfusão —, possuem fisiopatologias distintas e condutas específicas. Saber diferenciá-las é essencial para a prova de residência e para a prática clínica.

O que é TRALI e TACO?

TRALI (Lesão Pulmonar Aguda Relacionada à Transfusão) é uma reação transfusional grave caracterizada por lesão pulmonar aguda não cardiogênica que ocorre durante ou em até 6 horas após a transfusão. É uma das principais causas de morte por transfusão nos países desenvolvidos.

TACO (Sobrecarga Circulatória Associada à Transfusão) é uma complicação de natureza cardiogênica, resultante da expansão volêmica excessiva e rápida durante a transfusão, levando a edema pulmonar hidrostático. É a complicação transfusional grave mais frequente na prática.

Pulmonary edema - Wikipedia
Fonte: James Heilman, MD / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Causas e transmissão

TRALI

A fisiopatologia é predominantemente imunológica (modelo de dois eventos):

  • Primeiro evento: condição clínica prévia do paciente (sepse, cirurgia, inflamação) que ativa neutrófilos e os retém na microvasculatura pulmonar.
  • Segundo evento: a transfusão fornece anticorpos (anti-HLA classe I ou II, anti-HNA) presentes no plasma do doador, que ativam esses neutrófilos, causando lesão endotelial e aumento da permeabilidade capilar.
  • Uma forma não imune também existe, mediada por lipídios biologicamente ativos acumulados durante o armazenamento do hemocomponente.
  • Componentes ricos em plasma (PFC, plaquetas, sangue total) são os mais implicados, mas pode ocorrer com qualquer hemocomponente.

TACO

  • Mecanismo: sobrecarga de volume com aumento das pressões de enchimento cardíaco e edema pulmonar hidrostático.
  • Fatores de risco: insuficiência cardíaca prévia, insuficiência renal, idade avançada, hipoalbuminemia, transfusão rápida ou em grande volume.
  • Qualquer hemocomponente pode desencadear TACO, especialmente quando infundido em velocidade ou volume excessivos.

Classificação e formas

TRALI

A definição do Consenso Internacional (2019) distingue:

  • TRALI tipo I: lesão pulmonar aguda sem fator de risco preexistente para SDRA.
  • TRALI tipo II: lesão pulmonar aguda em paciente com fator de risco para SDRA preexistente ou com lesão pulmonar leve antes da transfusão (anteriormente chamado de "possível TRALI").

TACO

Não possui subclassificações formais; a gravidade varia de leve (tosse, hipertensão) a grave (edema pulmonar franco com hipoxemia severa).

Sintomas e manifestações clínicas

TRALI

  • Dispneia aguda e hipoxemia (SpO₂ < 90% em ar ambiente ou PaO₂/FiO₂ < 300 mmHg)
  • Infiltrados pulmonares bilaterais ao raio X de tórax
  • Ausência de sinais de hipervolemia (pressão venosa não elevada, sem edema periférico)
  • Febre e hipotensão são frequentes (distinguem do TACO)
  • Ausência de evidência de insuficiência cardíaca esquerda preexistente explicando o quadro
  • Início durante a transfusão ou em até 6 horas do término

TACO

  • Dispneia, ortopneia, tosse
  • Hipertensão arterial (ao contrário do TRALI, onde há hipotensão)
  • Taquicardia, distensão venosa jugular
  • Crepitações bibasais à ausculta
  • Infiltrados pulmonares bilaterais ao raio X de tórax
  • Edema periférico
  • Melhora com diuréticos
  • Início durante ou em até 6 horas da transfusão

Diagnóstico

Ambos são diagnósticos primariamente clínicos, com suporte em exames complementares.

Critérios diagnósticos do TRALI (Consenso de Berlim/2019)

  • Início agudo durante ou até 6 horas após transfusão
  • Hipoxemia: PaO₂/FiO₂ < 300 mmHg ou SpO₂ < 90% em ar ambiente
  • Infiltrado bilateral ao raio X de tórax
  • Ausência de sobrecarga hídrica como causa principal
  • Ausência de lesão pulmonar aguda pré-transfusional

Critérios diagnósticos do TACO (ISBT)

  • Quatro ou mais dos seguintes em até 6 horas após transfusão:
    • Distúrbio respiratório agudo (novo ou piora)
    • Elevação de BNP/NT-proBNP (> 1,5× o valor pré-transfusional ou BNP > 250 pg/mL)
    • Evidência de balanço hídrico positivo
    • Edema pulmonar na radiografia de tórax
    • Evidência de disfunção cardíaca sistólica/diastólica à ecocardiografia
    • Elevação da pressão venosa (PVC elevada, turgência jugular)

Exames auxiliares no diagnóstico diferencial

  • BNP/NT-proBNP: elevado no TACO, tipicamente normal ou modestamente elevado no TRALI
  • Radiografia de tórax: infiltrados bilaterais em ambos; no TACO, há índice cardiotorácico aumentado e linhas B de Kerley
  • Ecocardiografia: disfunção ventricular no TACO; função preservada no TRALI
  • Pesquisa de anticorpos anti-HLA/anti-HNA: confirma mecanismo imune no TRALI, mas não está disponível em urgência
  • Gradiente alvéolo-arterial de O₂: elevado em ambos — não diferencia
Diagnóstico diferencial: TRALI vs. TACO
Diagnóstico diferencial: TRALI vs. TACO

Tratamento

TRALI

  • Suspender a transfusão imediatamente (medida mais importante)
  • Suporte respiratório: O₂ suplementar; ventilação mecânica protetora se indicada (estratégia da SDRA: volume corrente 4–6 mL/kg de peso ideal, pressão de platô < 30 cmH₂O)
  • Não administrar diuréticos — a fisiopatologia é de permeabilidade aumentada, não de sobrecarga; diurese pode piorar a hemodinâmica
  • Suporte hemodinâmico com cristaloides se hipotensão; vasopressores se necessário
  • Corticoides: sem evidência sólida; não recomendados rotineiramente
  • Notificação ao banco de sangue para investigação do doador e do hemocomponente

TACO

  • Suspender ou reduzir drasticamente a velocidade da transfusão
  • Diuréticos de alça (furosemida): tratamento central — promovem rápida melhora do edema pulmonar hidrostático
  • Suporte com O₂ ou ventilação não invasiva (CPAP/BiPAP) conforme necessidade
  • Posição ortopneica (decúbito elevado)
  • Monitorização hemodinâmica e de balanço hídrico
  • Em casos graves: ventilação mecânica invasiva

Prevenção e Prognóstico

Prevenção do TRALI

  • Uso preferencial de plasma de doadores masculinos (menor prevalência de anticorpos anti-HLA adquiridos) — estratégia adotada em vários bancos de sangue
  • Transfundir apenas quando houver indicação clínica precisa
  • Investigação e exclusão de doadores com anticorpos anti-HLA/anti-HNA implicados em casos

Prevenção do TACO

  • Infusão lenta em pacientes de risco (≤ 1 mL/kg/h)
  • Diurético profilático antes da transfusão em pacientes com IC ou sobrecarga hídrica prévia
  • Monitorização volêmica durante a transfusão
  • Transfundir uma unidade por vez, com reavaliação clínica

Prognóstico

  • TRALI: mortalidade de 5–10% nos casos graves; a maioria dos sobreviventes apresenta resolução do quadro em 48–96 horas com suporte adequado.
  • TACO: mortalidade aumentada em pacientes idosos e com cardiopatia grave; boa resposta à diureticoterapia precoce na maioria dos casos.

Perguntas frequentes

Qual a principal diferença entre TRALI e TACO?
A principal diferença é fisiopatológica: TRALI é uma lesão pulmonar não cardiogênica por aumento de permeabilidade (mediada por anticorpos ou lipídios do hemocomponente), enquanto TACO é um edema pulmonar cardiogênico por sobrecarga volêmica. Clinicamente, TRALI cursa com hipotensão e febre, e TACO com hipertensão e sinais de hipervolemia. O BNP e a ecocardiografia ajudam a diferenciar.
Como tratar TRALI?
Suspender imediatamente a transfusão e oferecer suporte respiratório (O₂ e ventilação mecânica protetora se necessário). Diuréticos são contraindicados no TRALI, pois o edema é por permeabilidade — não por sobrecarga. Hipotensão deve ser tratada com cristaloides e vasopressores.
TACO tem cura?
Sim. O TACO responde bem à suspensão da transfusão e à diureticoterapia com furosemida. A maioria dos pacientes melhora rapidamente com a redução da sobrecarga hídrica e suporte respiratório adequado. O prognóstico é mais reservado em cardiopatas graves e idosos.
Quanto tempo após a transfusão podem ocorrer TRALI e TACO?
Ambos se manifestam durante a transfusão ou em até 6 horas após o seu término. Reações respiratórias que surgem fora desse janela exigem investigação de outras etiologias.

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