Resumos03 ago 20263 min de leitura

Reações Febris Não Hemolíticas

O que é, causas, sintomas, diagnóstico e tratamento

hematologia

Reações febris não hemolíticas são a complicação transfusional mais comum. Conheça causas, sintomas, diagnóstico e como manejar.

As reações febris não hemolíticas (RFNH) representam a complicação transfusional aguda mais frequente na prática clínica. Caracterizam-se pelo surgimento de febre durante ou logo após a transfusão, na ausência de hemólise ou outra causa identificável. Seu reconhecimento precoce é fundamental para diferenciá-las de reações mais graves e para conduzir adequadamente o receptor.

O que é Reação Febril Não Hemolítica?

A RFNH é definida como elevação da temperatura corporal ≥ 1 °C acima do valor pré-transfusional (ou temperatura ≥ 38 °C), associada à transfusão de hemocomponentes, sem evidência de hemólise, infecção bacteriana do produto ou outra etiologia explicativa. Pode ocorrer durante a infusão ou até 4 horas após seu término. É considerada uma reação transfusional imunológica não hemolítica.

Causas e transmissão

Dois mecanismos principais explicam a RFNH:

  • Anticorpos do receptor contra leucócitos do doador: o receptor previamente sensibilizado (por gestações ou transfusões anteriores) possui anticorpos anti-HLA ou anti-granulócito que reagem com leucócitos presentes no hemocomponente transfundido, desencadeando liberação de citocinas pró-inflamatórias (IL-1, IL-6, TNF-α).
  • Acúmulo de citocinas no produto armazenado: durante o armazenamento, leucócitos residuais no hemocomponente liberam citocinas passivamente; ao serem infundidas, essas citocinas circulam no receptor e provocam a resposta febril. Este mecanismo é mais relevante em concentrados de plaquetas armazenados por períodos prolongados.

Fatores de risco para RFNH:

  • Multíparas e politransfundidos (sensibilização prévia)
  • Uso de concentrado de plaquetas (maior acúmulo de citocinas)
  • Armazenamento prolongado do hemocomponente

Sintomas e manifestações clínicas

As manifestações surgem tipicamente durante a transfusão ou nas primeiras horas após:

  • Febre (elevação ≥ 1 °C) com ou sem calafrios
  • Calafrios e tremores, por vezes intensos (rigidez)
  • Cefaleia
  • Mal-estar geral
  • Náuseas (menos frequentes)

As reações costumam ser autolimitadas e de intensidade leve a moderada. A ausência de hipotensão grave, urticária disseminada, broncoespasmo ou hemoglobinúria ajuda a diferenciar a RFNH de reações mais graves (hemolítica aguda, anafilática, TRALI).

Diagnóstico

O diagnóstico de RFNH é de exclusão: antes de classificá-la como tal, é obrigatório afastar causas mais graves de febre transfusional.

Conduta imediata

  1. Interromper a transfusão assim que a febre for detectada.
  2. Manter acesso venoso com soro fisiológico.
  3. Notificar o banco de sangue e registrar o evento.

Investigação laboratorial

  • Hemograma, haptoglobina sérica, LDH, bilirrubina indireta e pesquisa de hemoglobina livre no plasma e na urina — para excluir hemólise.
  • Repetição da tipagem sanguínea e prova cruzada — para excluir incompatibilidade ABO.
  • Hemocultura do paciente e do produto transfundido — para excluir contaminação bacteriana.
  • Avaliação clínica de hipoxemia/infiltrado pulmonar bilateral — para excluir TRALI.

Se todos os exames forem negativos e a evolução for benigna e autolimitada, confirma-se o diagnóstico de RFNH.

Algoritmo de Manejo da Reação Febril Transfusional
Algoritmo de Manejo da Reação Febril Transfusional

Tratamento

O manejo é essencialmente sintomático:

  • Interrupção imediata da transfusão ao detectar a reação.
  • Antitérmicos: paracetamol (dipirona também é utilizada no Brasil) nas doses habituais — são a primeira linha para controle da febre e dos calafrios.
  • Meperidina em baixa dose pode ser usada em casos de calafrios intensos refratários, embora seu uso seja cada vez mais restrito.
  • Monitorização dos sinais vitais até estabilização.
  • A transfusão pode ser retomada com cautela após controle dos sintomas, somente se as causas graves tiverem sido excluídas e o benefício clínico justificar — decisão médica individualizada.
  • Não administrar AAS em pacientes trombocitopênicos.

Prevenção

As principais estratégias preventivas são:

  • Leucorredução (desleucocitação): filtragem dos hemocomponentes para reduzir leucócitos residuais. É a medida mais efetiva e está recomendada para pacientes com RFNH de repetição; em muitos serviços, é adotada de forma universal.
  • Uso de hemocomponentes mais frescos: reduz o acúmulo de citocinas, especialmente em plaquetas.
  • Pré-medicação com paracetamol: indicada apenas para pacientes com história prévia de RFNH; não é recomendada de rotina para todos os receptores, pois pode mascarar outras reações.
  • Registro adequado das reações para orientar transfusões futuras.

Perguntas frequentes

O que é uma reação febril não hemolítica?
É uma complicação transfusional caracterizada por febre (elevação ≥ 1 °C) durante ou após a transfusão, sem evidência de hemólise ou contaminação bacteriana. É a reação transfusional aguda mais comum e, em geral, autolimitada.
Como diferenciar reação febril não hemolítica de hemólise aguda?
Na hemólise aguda há queda de haptoglobina, elevação de LDH e bilirrubina indireta, hemoglobinúria e, frequentemente, lombalgia e instabilidade hemodinâmica. Na RFNH esses marcadores são normais e a evolução é benigna — por isso o diagnóstico é de exclusão.
É necessário interromper a transfusão na reação febril não hemolítica?
Sim. A transfusão deve ser interrompida imediatamente para investigar a causa da febre e excluir reações graves. Após afastar hemólise, contaminação bacteriana e TRALI, a retomada pode ser considerada individualmente pelo médico.
Como prevenir reações febris não hemolíticas de repetição?
A leucorredução (filtração do hemocomponente para remover leucócitos) é a estratégia mais efetiva. Em pacientes com histórico de RFNH, a pré-medicação com paracetamol pode ser utilizada, mas não substitui a leucorredução.

Ler é metade do caminho.

A outra metade é praticar: transforme o que você acabou de ler em questões, flashcards e resumos com a IA do Chagas — a partir do seu próprio material.

Quero sair na frente

Mais em Resumos