Reações Febris Não Hemolíticas
O que é, causas, sintomas, diagnóstico e tratamento
Reações febris não hemolíticas são a complicação transfusional mais comum. Conheça causas, sintomas, diagnóstico e como manejar.
As reações febris não hemolíticas (RFNH) representam a complicação transfusional aguda mais frequente na prática clínica. Caracterizam-se pelo surgimento de febre durante ou logo após a transfusão, na ausência de hemólise ou outra causa identificável. Seu reconhecimento precoce é fundamental para diferenciá-las de reações mais graves e para conduzir adequadamente o receptor.
O que é Reação Febril Não Hemolítica?
A RFNH é definida como elevação da temperatura corporal ≥ 1 °C acima do valor pré-transfusional (ou temperatura ≥ 38 °C), associada à transfusão de hemocomponentes, sem evidência de hemólise, infecção bacteriana do produto ou outra etiologia explicativa. Pode ocorrer durante a infusão ou até 4 horas após seu término. É considerada uma reação transfusional imunológica não hemolítica.
Causas e transmissão
Dois mecanismos principais explicam a RFNH:
- Anticorpos do receptor contra leucócitos do doador: o receptor previamente sensibilizado (por gestações ou transfusões anteriores) possui anticorpos anti-HLA ou anti-granulócito que reagem com leucócitos presentes no hemocomponente transfundido, desencadeando liberação de citocinas pró-inflamatórias (IL-1, IL-6, TNF-α).
- Acúmulo de citocinas no produto armazenado: durante o armazenamento, leucócitos residuais no hemocomponente liberam citocinas passivamente; ao serem infundidas, essas citocinas circulam no receptor e provocam a resposta febril. Este mecanismo é mais relevante em concentrados de plaquetas armazenados por períodos prolongados.
Fatores de risco para RFNH:
- Multíparas e politransfundidos (sensibilização prévia)
- Uso de concentrado de plaquetas (maior acúmulo de citocinas)
- Armazenamento prolongado do hemocomponente
Sintomas e manifestações clínicas
As manifestações surgem tipicamente durante a transfusão ou nas primeiras horas após:
- Febre (elevação ≥ 1 °C) com ou sem calafrios
- Calafrios e tremores, por vezes intensos (rigidez)
- Cefaleia
- Mal-estar geral
- Náuseas (menos frequentes)
As reações costumam ser autolimitadas e de intensidade leve a moderada. A ausência de hipotensão grave, urticária disseminada, broncoespasmo ou hemoglobinúria ajuda a diferenciar a RFNH de reações mais graves (hemolítica aguda, anafilática, TRALI).
Diagnóstico
O diagnóstico de RFNH é de exclusão: antes de classificá-la como tal, é obrigatório afastar causas mais graves de febre transfusional.
Conduta imediata
- Interromper a transfusão assim que a febre for detectada.
- Manter acesso venoso com soro fisiológico.
- Notificar o banco de sangue e registrar o evento.
Investigação laboratorial
- Hemograma, haptoglobina sérica, LDH, bilirrubina indireta e pesquisa de hemoglobina livre no plasma e na urina — para excluir hemólise.
- Repetição da tipagem sanguínea e prova cruzada — para excluir incompatibilidade ABO.
- Hemocultura do paciente e do produto transfundido — para excluir contaminação bacteriana.
- Avaliação clínica de hipoxemia/infiltrado pulmonar bilateral — para excluir TRALI.
Se todos os exames forem negativos e a evolução for benigna e autolimitada, confirma-se o diagnóstico de RFNH.
Tratamento
O manejo é essencialmente sintomático:
- Interrupção imediata da transfusão ao detectar a reação.
- Antitérmicos: paracetamol (dipirona também é utilizada no Brasil) nas doses habituais — são a primeira linha para controle da febre e dos calafrios.
- Meperidina em baixa dose pode ser usada em casos de calafrios intensos refratários, embora seu uso seja cada vez mais restrito.
- Monitorização dos sinais vitais até estabilização.
- A transfusão pode ser retomada com cautela após controle dos sintomas, somente se as causas graves tiverem sido excluídas e o benefício clínico justificar — decisão médica individualizada.
- Não administrar AAS em pacientes trombocitopênicos.
Prevenção
As principais estratégias preventivas são:
- Leucorredução (desleucocitação): filtragem dos hemocomponentes para reduzir leucócitos residuais. É a medida mais efetiva e está recomendada para pacientes com RFNH de repetição; em muitos serviços, é adotada de forma universal.
- Uso de hemocomponentes mais frescos: reduz o acúmulo de citocinas, especialmente em plaquetas.
- Pré-medicação com paracetamol: indicada apenas para pacientes com história prévia de RFNH; não é recomendada de rotina para todos os receptores, pois pode mascarar outras reações.
- Registro adequado das reações para orientar transfusões futuras.
Perguntas frequentes
- O que é uma reação febril não hemolítica?
- É uma complicação transfusional caracterizada por febre (elevação ≥ 1 °C) durante ou após a transfusão, sem evidência de hemólise ou contaminação bacteriana. É a reação transfusional aguda mais comum e, em geral, autolimitada.
- Como diferenciar reação febril não hemolítica de hemólise aguda?
- Na hemólise aguda há queda de haptoglobina, elevação de LDH e bilirrubina indireta, hemoglobinúria e, frequentemente, lombalgia e instabilidade hemodinâmica. Na RFNH esses marcadores são normais e a evolução é benigna — por isso o diagnóstico é de exclusão.
- É necessário interromper a transfusão na reação febril não hemolítica?
- Sim. A transfusão deve ser interrompida imediatamente para investigar a causa da febre e excluir reações graves. Após afastar hemólise, contaminação bacteriana e TRALI, a retomada pode ser considerada individualmente pelo médico.
- Como prevenir reações febris não hemolíticas de repetição?
- A leucorredução (filtração do hemocomponente para remover leucócitos) é a estratégia mais efetiva. Em pacientes com histórico de RFNH, a pré-medicação com paracetamol pode ser utilizada, mas não substitui a leucorredução.