Transtornos por Abuso de Álcool
O que é, critérios diagnósticos, manifestações clínicas e tratamento
Transtornos por Abuso de Álcool: critérios diagnósticos (DSM-5), sintomas de intoxicação e abstinência, complicações e tratamento farmacológico e psicoterá
Os transtornos por uso de álcool (TUA) constituem um dos problemas de saúde pública mais prevalentes no mundo e no Brasil, com impacto significativo na morbimortalidade geral. Compreendem um espectro contínuo que vai do uso de risco até a dependência grave, frequentemente associado a comorbidades psiquiátricas e clínicas.
O que é Transtorno por Uso de Álcool?
O TUA é definido pelo DSM-5 como um padrão problemático de uso de álcool que leva a sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo funcional, manifestado por ao menos 2 dos 11 critérios dentro de um período de 12 meses. O diagnóstico substitui as categorias anteriores de abuso e dependência do DSM-IV, unificando-as em um único espectro de gravidade:
- Leve: 2–3 critérios
- Moderado: 4–5 critérios
- Grave: 6 ou mais critérios
Os 11 critérios do DSM-5 abrangem: uso em quantidade maior ou por período mais longo do que o pretendido; desejo persistente ou fracasso em reduzir o uso; tempo excessivo dedicado a obter, usar ou se recuperar do álcool; craving (fissura); fracasso em cumprir obrigações; uso continuado apesar de problemas sociais; abandono de atividades importantes; uso em situações de risco físico; uso continuado apesar de problemas de saúde conhecidos; tolerância; e abstinência.
Causas e transmissão
O TUA resulta da interação entre fatores genéticos, neurobiológicos, psicológicos e socioambientais:
- Fatores genéticos: herdabilidade estimada em 40–60%; variantes em genes de metabolismo do álcool (ADH1B, ALDH2) e de receptores GABA/glutamato
- Neurobiológicos: o álcool potencializa GABA (inibitório) e bloqueia NMDA-glutamato (excitatório); com o uso crônico há neuroadaptação oposta, explicando a abstinência
- Psicológicos: transtornos de ansiedade, depressão, TEPT e transtorno da personalidade antissocial são comorbidades frequentes
- Socioambientais: exposição precoce, ambiente familiar, acesso, pressão de pares e estressores crônicos
O álcool não é transmissível; o risco familiar reflete componentes genéticos e de aprendizado social.
Classificação e formas
Padrões de uso
- Uso de baixo risco: consumo moderado sem critérios de TUA
- Uso de risco (binge drinking): ≥ 4 doses em uma única ocasião para mulheres ou ≥ 5 para homens, elevando o bêbado à alcoolemia ≥ 0,08 g/dL
- TUA leve, moderado e grave: conforme critérios DSM-5 acima
Subtipos históricos (Cloninger)
- Tipo I (milieu-limited): início tardio, dependência psicológica predominante, menos agressividade
- Tipo II (male-limited): início precoce, associação com comportamento antissocial, maior componente genético
Síndrome de Abstinência Alcoólica (SAA)
Classificada em 4 graus de gravidade pela escala CIWA-Ar:
- Grau I: tremores, ansiedade, diaforese, taquicardia leve
- Grau II: sintomas intensificados, possível alucinose
- Grau III: confusão, desorientação, alucinações
- Grau IV (delirium tremens): delirium, convulsões, instabilidade autonômica grave — mortalidade de até 5% com tratamento adequado
Sintomas e manifestações clínicas
Intoxicação aguda
- Desinibição, fala arrastada, ataxia, lentificação psicomotora
- Em níveis elevados: estupor, coma, depressão respiratória
Uso crônico
- Neurológicas: neuropatia periférica, encefalopatia de Wernicke (tríade: oftalmoplegia, ataxia, confusão), Síndrome de Korsakoff (amnésia anterógrada + confabulação), degeneração cerebelar
- Psiquiátricas: depressão, ansiedade, transtorno do sono, psicose alcoólica
- Gastrointestinais: gastrite, esofagite, pancreatite aguda e crônica, doença hepática alcoólica (esteatose → hepatite → cirrose)
- Cardiovasculares: cardiomiopatia alcoólica, arritmias ("holiday heart syndrome"), hipertensão
- Hematológicas: anemia macrocítica (deficiência de folato + efeito direto no medula)
- Metabólicas: hipoglicemia, hipomagnesemia, hipofosfatemia
Síndrome de abstinência
- Início: 6–24 h após a última dose
- Pico: 24–72 h
- Convulsões: geralmente entre 12–48 h (tônico-clônicas generalizadas)
- Delirium tremens: 48–96 h (pode surgir até 5–7 dias)
Diagnóstico
O diagnóstico é clínico, baseado nos critérios do DSM-5. Exames complementares auxiliam na avaliação de complicações e gravidade:
- Marcadores de uso crônico: GGT (mais sensível), VCM (macrocitose), transaminases (AST:ALT > 2:1 sugere hepatopatia alcoólica), CDT (transferrina deficiente em carboidratos — alta especificidade)
- Rastreamento: AUDIT (Alcohol Use Disorders Identification Test) — escore ≥ 8 sugere uso de risco; CAGE (≥ 2 respostas positivas — alta especificidade para dependência)
- Avaliação de abstinência: escala CIWA-Ar (Clinical Institute Withdrawal Assessment for Alcohol) — guia a intensidade do tratamento
- Neuroimagem: indicada quando há suspeita de encefalopatia de Wernicke ou hemorragia
- Avaliação laboratorial ampla: hemograma, função hepática, eletrólitos (Mg, P, K), glicemia, coagulograma
Tratamento
Síndrome de Abstinência Alcoólica
Farmacológico:
- Benzodiazepínicos: tratamento de primeira linha; reduzem convulsões e delirium tremens
- Diazepam ou clordiazepóxido (longa ação): preferidos em pacientes sem hepatopatia grave
- Lorazepam ou oxazepam (curta ação, conjugação direta): preferidos em hepatopatia grave ou idosos
- Protocolo de dose fixa ou guiado por sintomas (CIWA-Ar ≥ 8–10 = medicar)
- Tiamina (vitamina B1): 100–500 mg IV/IM antes de qualquer glicose — previne e trata encefalopatia de Wernicke
- Adjuvantes: haloperidol para alucinações persistentes; betabloqueadores ou clonidina para sintomas autonômicos refratários (nunca como monoterapia para abstinência)
- Anticonvulsivantes: carbamazepina ou valproato podem ser usados como alternativa em casos leves a moderados; não substituem BZD em graus graves
Manutenção da abstinência (farmacológico)
- Naltrexona: antagonista opioide; reduz craving e recaída; 50 mg/dia VO ou formulação depot mensal
- Acamprosato: modula GABA/glutamato; reduz desconforto da abstinência prolongada; 666 mg 3×/dia (evitar em insuficiência renal grave)
- Dissulfiram: inibe ALDH2 → acúmulo de acetaldeído → reação aversiva; exige adesão supervisionada; contraindicado em cardiopatia grave, psicose ativa e hepatopatia grave
- Topiramato: evidência crescente para redução do consumo; uso off-label
Abordagens psicossociais
- Entrevista motivacional
- Terapia cognitivo-comportamental (TCC)
- Grupos de mútua ajuda (AA, SMART Recovery)
- Prevenção de recaída
Quando internar
- SAA grau III ou IV (delirium tremens)
- Convulsões
- Comorbidades clínicas graves (hepatite alcoólica, pancreatite)
- Falha ambulatorial repetida
- Risco de suicídio
Prognóstico
O TUA é uma doença crônica recidivante, e a recaída não representa falha do tratamento, mas sim parte do curso natural da doença. Fatores de melhor prognóstico incluem suporte social, ausência de comorbidades psiquiátricas graves, vínculo terapêutico e engajamento em tratamento multimodal. O delirium tremens não tratado apresenta mortalidade elevada; com tratamento adequado, cai para menos de 5%. A encefalopatia de Wernicke tratada precocemente pode reverter; a síndrome de Korsakoff tende a ser permanente.
Perguntas frequentes
- Quais são os critérios do DSM-5 para transtorno por uso de álcool?
- O DSM-5 exige ao menos 2 dos 11 critérios em 12 meses, incluindo uso maior que o planejado, craving, tolerância, abstinência, prejuízo funcional e uso continuado apesar de consequências. A gravidade é leve (2–3), moderada (4–5) ou grave (≥ 6 critérios).
- Quais são os sintomas da síndrome de abstinência alcoólica?
- A abstinência começa 6–24 h após a última dose e pode incluir tremores, ansiedade, diaforese e taquicardia. Nos casos graves surgem alucinações, convulsões (12–48 h) e delirium tremens (48–96 h), que pode ser fatal se não tratado.
- Qual o tratamento de primeira linha para a abstinência alcoólica?
- Benzodiazepínicos são o tratamento de primeira linha, pois previnem convulsões e delirium tremens. Diazepam é preferido em pacientes sem hepatopatia grave; lorazepam ou oxazepam são usados em hepatopatia ou idosos. Tiamina IV deve ser administrada antes de qualquer glicose para prevenir encefalopatia de Wernicke.
- O transtorno por uso de álcool tem cura?
- O TUA é considerado uma doença crônica e recidivante, sem 'cura' no sentido convencional, mas com possibilidade de remissão sustentada com tratamento adequado. Combinações de farmacoterapia (naltrexona, acamprosato) e abordagens psicossociais aumentam significativamente as taxas de abstinência e redução do consumo.