Sífilis na Gestação
O que é, diagnóstico, tratamento e prevenção da sífilis congênita
Sífilis na gestação: transmissão vertical, rastreamento obrigatório, tratamento com penicilina e prevenção da sífilis congênita. Guia completo para residên
A sífilis na gestação é uma das infecções sexualmente transmissíveis com maior impacto perinatal, sendo causa importante de abortamento, natimortalidade, prematuridade e sífilis congênita. O rastreamento universal no pré-natal é obrigatório no Brasil e constitui ponto frequente em provas de residência médica.
O que é Sífilis na Gestação?
A sífilis é uma infecção bacteriana sistêmica causada pelo Treponema pallidum, de evolução crônica e com múltiplos estágios. Na gestação, adquire relevância especial porque o agente atravessa a barreira placentária e pode infectar o concepto a partir do segundo trimestre, causando sífilis congênita. A transmissão vertical ocorre em qualquer fase da doença materna, mas o risco é maior nas fases primária e secundária (próximo de 100% sem tratamento) e menor na fase latente tardia e terciária.

Causas e transmissão
- Agente etiológico: Treponema pallidum subsp. pallidum
- Transmissão materna: predominantemente sexual (contato direto com lesão ativa)
- Transmissão vertical: transplacentária (hematogênica) em qualquer trimestre; risco mais elevado na sífilis recente (primária e secundária)
- Risco de transmissão por fase:
- Primária/secundária: ~70–100%
- Latente recente: ~40%
- Latente tardia/terciária: ~10%
- Fatores de risco maternos: múltiplos parceiros, ausência de pré-natal, baixo nível socioeconômico, uso de drogas, coinfecção pelo HIV
Classificação e formas
A sífilis é classificada de acordo com o tempo de evolução e manifestações clínicas:
Sífilis primária
- Cancro duro (úlcera indolor, base endurecida, bordas bem definidas) no local de inoculação
- Adenopatia inguinal satélite, indolor
- Duração de 3–8 semanas; resolve espontaneamente
Sífilis secundária
- Surgimento 4–10 semanas após o cancro
- Roséola sifilítica (exantema maculopapular, acomete palmas e plantas)
- Condiloma plano (lesões úmidas e muito infectantes)
- Alopecia em clareiras, madarose, placas mucosas, poliadenopatia
Sífilis latente
- Recente: menos de 1 ano de evolução, assintomática, sorologia positiva
- Tardia: mais de 1 ano (ou tempo indeterminado), assintomática
Sífilis terciária
- Gomas sifilíticas (pele, mucosas, ossos)
- Neurossífilis, sífilis cardiovascular
- Rara na gestação, mas possível
Sintomas e manifestações clínicas
A maioria das gestantes com sífilis é assintomática (fase latente), sendo identificada apenas pelo rastreamento sorológico. Quando sintomática, as manifestações dependem da fase:
- Primária: úlcera genital indolor, única, com base indurada
- Secundária: exantema palmoplantar, condiloma plano, poliadenopatia generalizada, febre baixa, mal-estar
- Terciária: manifestações neurológicas, cardiovasculares ou destruição tecidual por gomas
Na gestante, a preocupação central é o impacto fetal:
- Abortamento espontâneo (2º trimestre)
- Natimortalidade
- Hidropisia fetal não imune
- Prematuridade e baixo peso
- Sífilis congênita precoce ou tardia
Diagnóstico
O rastreamento é realizado por sorologia em todos os trimestres do pré-natal e na admissão ao parto/curetagem.
Testes treponêmicos
- Detectam anticorpos específicos anti-T. pallidum
- FTA-Abs, TPHA, ELISA treponêmico, teste rápido (TR) treponêmico
- Permanecem reagentes após tratamento (cicatriz sorológica); não servem para acompanhamento
- Usados para confirmar o diagnóstico
Testes não treponêmicos
- Detectam anticorpos anticardiolipina (reação cruzada)
- VDRL e RPR
- São quantitativos; usados para acompanhamento pós-tratamento
- Podem ser falso-positivos (LES, gravidez, infecções virais, hanseníase)
- Critério de cura: queda de 2 diluições (2 títulos) em 3 meses ou 4 diluições em 6 meses; negativação esperada em ~2 anos
Estratégia diagnóstica no Brasil (Ministério da Saúde)
Dois fluxos são aceitos:
- Fluxo convencional: iniciar pelo teste não treponêmico (VDRL) + confirmar com teste treponêmico
- Fluxo com teste rápido: iniciar pelo TR treponêmico → se reagente, realizar VDRL para estadiamento e acompanhamento
Diagnóstico de sífilis na gestação = qualquer sorologia reagente em gestante sem tratamento adequado prévio comprovado.
Investigação complementar
- Parceiro sexual: sorologia obrigatória
- Rastreamento de outras ISTs (HIV, hepatites B e C)
- Ultrassonografia obstétrica: avaliar sinais de acometimento fetal (hepatomegalia, ascite, hidropisia, espessamento placentário)
- Punção lombar para LCR: considerar em sintomas neurológicos ou oftalmológicos
Tratamento
Penicilina benzatina é o único antibiótico comprovadamente eficaz para prevenção da transmissão vertical. Nenhum outro esquema é aceito para essa finalidade.
Esquema por fase
Sífilis primária, secundária e latente recente (< 1 ano): Penicilina benzatina 2,4 milhões UI IM, dose única (1,2 milhão UI em cada nádega)
Sífilis latente tardia (> 1 ano ou indeterminada) e terciária: Penicilina benzatina 2,4 milhões UI IM, semanal, por 3 semanas (total: 7,2 milhões UI)
Neurossífilis: Penicilina cristalina 3–4 milhões UI IV a cada 4 horas, por 10–14 dias
Pontos críticos para a prova
- Gestante alérgica à penicilina deve ser dessensibilizada e tratada com penicilina — não há alternativa válida para proteção fetal
- O parceiro sexual deve ser tratado simultaneamente
- O tratamento materno é considerado adequado quando: realizado com penicilina benzatina, na dose correta para a fase, com pelo menos 30 dias antes do parto
- Tratamento inadequado ou não documentado → RN tratado como sífilis congênita
- Reação de Jarisch-Herxheimer: febre, calafrios e mal-estar transitórios nas primeiras horas após a penicilina; não contraindica o tratamento; monitorar vitalidade fetal
Acompanhamento pós-tratamento
- VDRL mensal até o parto
- Meta: queda de ≥ 2 diluições em 3 meses
- Títulos estáveis ou ascendentes = reinfecção ou falha → reinvestigar e retretar
Prevenção
- Rastreamento sorológico universal no 1º, 2º e 3º trimestres e na admissão para o parto
- Uso de preservativo e redução de comportamentos de risco
- Tratamento simultâneo do(s) parceiro(s) sexual(is)
- Notificação compulsória da sífilis em gestante e da sífilis congênita ao SINAN
- Aconselhamento e testagem para outras ISTs (HIV, hepatites)
- Seguimento do recém-nascido exposto: VDRL de sangue periférico, raio X de ossos longos, LCR, hemograma e acompanhamento ambulatorial conforme protocolo do MS
Prognóstico
Com tratamento materno adequado e oportuno, a transmissão vertical é evitável na maioria dos casos. O prognóstico é excelente quando a penicilina é administrada na dose e fase corretas, com pelo menos 30 dias de antecedência ao parto. Casos tratados tardiamente ou inadequadamente mantêm risco de sífilis congênita, com suas potenciais sequelas neurológicas, auditivas, oftalmológicas e ósseas no recém-nascido.
Perguntas frequentes
- Qual o tratamento da sífilis na gestação?
- O tratamento é feito com penicilina benzatina intramuscular. A dose e o número de aplicações dependem da fase da doença: dose única para sífilis primária, secundária ou latente recente, e três doses semanais para latente tardia ou terciária. Gestantes alérgicas à penicilina devem ser dessensibilizadas — não há alternativa válida para proteger o feto.
- Sífilis na gravidez tem cura?
- Sim. Com tratamento adequado com penicilina benzatina, a sífilis materna é curável e a transmissão vertical é praticamente evitável. O critério de cura sorológica é a queda de pelo menos duas diluições no VDRL em três meses após o tratamento.
- Como a sífilis é transmitida para o bebê?
- A transmissão ocorre por via transplacentária (hematogênica), quando o *Treponema pallidum* atravessa a placenta e infecta o feto. Pode acontecer em qualquer trimestre, mas o risco é maior nas fases primária e secundária da infecção materna. O contato com lesão ativa no canal de parto também pode transmitir, mas é menos frequente.
- Quantas vezes a sorologia para sífilis deve ser feita no pré-natal?
- O Ministério da Saúde recomenda sorologia em cada trimestre da gestação (1º, 2º e 3º) e na admissão para o parto ou curetagem, totalizando ao menos quatro testagens. O objetivo é identificar infecções adquiridas ao longo da gravidez, mesmo em mulheres com resultado negativo inicial.