Resumos22 jul 20265 min de leitura

Sífilis na Gestação

O que é, diagnóstico, tratamento e prevenção da sífilis congênita

obstetricia

Sífilis na gestação: transmissão vertical, rastreamento obrigatório, tratamento com penicilina e prevenção da sífilis congênita. Guia completo para residên

A sífilis na gestação é uma das infecções sexualmente transmissíveis com maior impacto perinatal, sendo causa importante de abortamento, natimortalidade, prematuridade e sífilis congênita. O rastreamento universal no pré-natal é obrigatório no Brasil e constitui ponto frequente em provas de residência médica.

O que é Sífilis na Gestação?

A sífilis é uma infecção bacteriana sistêmica causada pelo Treponema pallidum, de evolução crônica e com múltiplos estágios. Na gestação, adquire relevância especial porque o agente atravessa a barreira placentária e pode infectar o concepto a partir do segundo trimestre, causando sífilis congênita. A transmissão vertical ocorre em qualquer fase da doença materna, mas o risco é maior nas fases primária e secundária (próximo de 100% sem tratamento) e menor na fase latente tardia e terciária.

Ficheiro:Secondary syphilis-palmar rash.PNG – Wikipédia, a enciclopédia  livre
Fonte: Centers for Disease Control and Prevention (CDC) / Wikimedia Commons (Public domain)

Causas e transmissão

  • Agente etiológico: Treponema pallidum subsp. pallidum
  • Transmissão materna: predominantemente sexual (contato direto com lesão ativa)
  • Transmissão vertical: transplacentária (hematogênica) em qualquer trimestre; risco mais elevado na sífilis recente (primária e secundária)
  • Risco de transmissão por fase:
    • Primária/secundária: ~70–100%
    • Latente recente: ~40%
    • Latente tardia/terciária: ~10%
  • Fatores de risco maternos: múltiplos parceiros, ausência de pré-natal, baixo nível socioeconômico, uso de drogas, coinfecção pelo HIV

Classificação e formas

A sífilis é classificada de acordo com o tempo de evolução e manifestações clínicas:

Sífilis primária

  • Cancro duro (úlcera indolor, base endurecida, bordas bem definidas) no local de inoculação
  • Adenopatia inguinal satélite, indolor
  • Duração de 3–8 semanas; resolve espontaneamente

Sífilis secundária

  • Surgimento 4–10 semanas após o cancro
  • Roséola sifilítica (exantema maculopapular, acomete palmas e plantas)
  • Condiloma plano (lesões úmidas e muito infectantes)
  • Alopecia em clareiras, madarose, placas mucosas, poliadenopatia

Sífilis latente

  • Recente: menos de 1 ano de evolução, assintomática, sorologia positiva
  • Tardia: mais de 1 ano (ou tempo indeterminado), assintomática

Sífilis terciária

  • Gomas sifilíticas (pele, mucosas, ossos)
  • Neurossífilis, sífilis cardiovascular
  • Rara na gestação, mas possível

Sintomas e manifestações clínicas

A maioria das gestantes com sífilis é assintomática (fase latente), sendo identificada apenas pelo rastreamento sorológico. Quando sintomática, as manifestações dependem da fase:

  • Primária: úlcera genital indolor, única, com base indurada
  • Secundária: exantema palmoplantar, condiloma plano, poliadenopatia generalizada, febre baixa, mal-estar
  • Terciária: manifestações neurológicas, cardiovasculares ou destruição tecidual por gomas

Na gestante, a preocupação central é o impacto fetal:

  • Abortamento espontâneo (2º trimestre)
  • Natimortalidade
  • Hidropisia fetal não imune
  • Prematuridade e baixo peso
  • Sífilis congênita precoce ou tardia

Diagnóstico

O rastreamento é realizado por sorologia em todos os trimestres do pré-natal e na admissão ao parto/curetagem.

Testes treponêmicos

  • Detectam anticorpos específicos anti-T. pallidum
  • FTA-Abs, TPHA, ELISA treponêmico, teste rápido (TR) treponêmico
  • Permanecem reagentes após tratamento (cicatriz sorológica); não servem para acompanhamento
  • Usados para confirmar o diagnóstico

Testes não treponêmicos

  • Detectam anticorpos anticardiolipina (reação cruzada)
  • VDRL e RPR
  • São quantitativos; usados para acompanhamento pós-tratamento
  • Podem ser falso-positivos (LES, gravidez, infecções virais, hanseníase)
  • Critério de cura: queda de 2 diluições (2 títulos) em 3 meses ou 4 diluições em 6 meses; negativação esperada em ~2 anos

Estratégia diagnóstica no Brasil (Ministério da Saúde)

Dois fluxos são aceitos:

  • Fluxo convencional: iniciar pelo teste não treponêmico (VDRL) + confirmar com teste treponêmico
  • Fluxo com teste rápido: iniciar pelo TR treponêmico → se reagente, realizar VDRL para estadiamento e acompanhamento

Diagnóstico de sífilis na gestação = qualquer sorologia reagente em gestante sem tratamento adequado prévio comprovado.

Investigação complementar

  • Parceiro sexual: sorologia obrigatória
  • Rastreamento de outras ISTs (HIV, hepatites B e C)
  • Ultrassonografia obstétrica: avaliar sinais de acometimento fetal (hepatomegalia, ascite, hidropisia, espessamento placentário)
  • Punção lombar para LCR: considerar em sintomas neurológicos ou oftalmológicos
Fluxo de rastreamento e conduta na sífilis na gestação
Fluxo de rastreamento e conduta na sífilis na gestação

Tratamento

Penicilina benzatina é o único antibiótico comprovadamente eficaz para prevenção da transmissão vertical. Nenhum outro esquema é aceito para essa finalidade.

Esquema por fase

  • Sífilis primária, secundária e latente recente (< 1 ano): Penicilina benzatina 2,4 milhões UI IM, dose única (1,2 milhão UI em cada nádega)

  • Sífilis latente tardia (> 1 ano ou indeterminada) e terciária: Penicilina benzatina 2,4 milhões UI IM, semanal, por 3 semanas (total: 7,2 milhões UI)

  • Neurossífilis: Penicilina cristalina 3–4 milhões UI IV a cada 4 horas, por 10–14 dias

Pontos críticos para a prova

  • Gestante alérgica à penicilina deve ser dessensibilizada e tratada com penicilina — não há alternativa válida para proteção fetal
  • O parceiro sexual deve ser tratado simultaneamente
  • O tratamento materno é considerado adequado quando: realizado com penicilina benzatina, na dose correta para a fase, com pelo menos 30 dias antes do parto
  • Tratamento inadequado ou não documentado → RN tratado como sífilis congênita
  • Reação de Jarisch-Herxheimer: febre, calafrios e mal-estar transitórios nas primeiras horas após a penicilina; não contraindica o tratamento; monitorar vitalidade fetal

Acompanhamento pós-tratamento

  • VDRL mensal até o parto
  • Meta: queda de ≥ 2 diluições em 3 meses
  • Títulos estáveis ou ascendentes = reinfecção ou falha → reinvestigar e retretar

Prevenção

  • Rastreamento sorológico universal no 1º, 2º e 3º trimestres e na admissão para o parto
  • Uso de preservativo e redução de comportamentos de risco
  • Tratamento simultâneo do(s) parceiro(s) sexual(is)
  • Notificação compulsória da sífilis em gestante e da sífilis congênita ao SINAN
  • Aconselhamento e testagem para outras ISTs (HIV, hepatites)
  • Seguimento do recém-nascido exposto: VDRL de sangue periférico, raio X de ossos longos, LCR, hemograma e acompanhamento ambulatorial conforme protocolo do MS

Prognóstico

Com tratamento materno adequado e oportuno, a transmissão vertical é evitável na maioria dos casos. O prognóstico é excelente quando a penicilina é administrada na dose e fase corretas, com pelo menos 30 dias de antecedência ao parto. Casos tratados tardiamente ou inadequadamente mantêm risco de sífilis congênita, com suas potenciais sequelas neurológicas, auditivas, oftalmológicas e ósseas no recém-nascido.

Perguntas frequentes

Qual o tratamento da sífilis na gestação?
O tratamento é feito com penicilina benzatina intramuscular. A dose e o número de aplicações dependem da fase da doença: dose única para sífilis primária, secundária ou latente recente, e três doses semanais para latente tardia ou terciária. Gestantes alérgicas à penicilina devem ser dessensibilizadas — não há alternativa válida para proteger o feto.
Sífilis na gravidez tem cura?
Sim. Com tratamento adequado com penicilina benzatina, a sífilis materna é curável e a transmissão vertical é praticamente evitável. O critério de cura sorológica é a queda de pelo menos duas diluições no VDRL em três meses após o tratamento.
Como a sífilis é transmitida para o bebê?
A transmissão ocorre por via transplacentária (hematogênica), quando o *Treponema pallidum* atravessa a placenta e infecta o feto. Pode acontecer em qualquer trimestre, mas o risco é maior nas fases primária e secundária da infecção materna. O contato com lesão ativa no canal de parto também pode transmitir, mas é menos frequente.
Quantas vezes a sorologia para sífilis deve ser feita no pré-natal?
O Ministério da Saúde recomenda sorologia em cada trimestre da gestação (1º, 2º e 3º) e na admissão para o parto ou curetagem, totalizando ao menos quatro testagens. O objetivo é identificar infecções adquiridas ao longo da gravidez, mesmo em mulheres com resultado negativo inicial.

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