Resumos16 jul 20264 min de leitura

Transtornos Alimentares

O que são, tipos, sintomas, diagnóstico e tratamento

psiquiatria

Transtornos alimentares: anorexia, bulimia e TCAP explicados — critérios diagnósticos, complicações clínicas e tratamento baseado em evidências.

Os transtornos alimentares (TAs) são condições psiquiátricas graves caracterizadas por comportamentos alimentares disfuncionais, preocupação excessiva com peso e imagem corporal e repercussões físicas e psicossociais significativas. Afetam predominantemente adolescentes e adultos jovens, com maior prevalência no sexo feminino, mas ocorrem em todos os gêneros e faixas etárias. Estão entre os transtornos psiquiátricos com maior mortalidade.

O que são Transtornos Alimentares?

Os TAs são definidos pelo DSM-5 como perturbações persistentes no comportamento alimentar ou em comportamentos relacionados à alimentação que alteram o consumo ou absorção de alimentos e comprometem significativamente a saúde física ou o funcionamento psicossocial. Os principais quadros são:

  • Anorexia Nervosa (AN): restrição da ingestão calórica com peso significativamente baixo, medo intenso de ganhar peso e distorção da imagem corporal.

  • Bulimia Nervosa (BN): episódios recorrentes de compulsão alimentar seguidos de comportamentos compensatórios inapropriados (vômito autoinduzido, uso de laxantes, jejum ou exercício excessivo).

  • Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica (TCAP): episódios recorrentes de compulsão alimentar sem comportamentos compensatórios regulares.

  • Outros: transtorno alimentar restritivo/evitativo (ARFID), pica, transtorno de ruminação.

File:Anorexia case 1900.jpg - Wikimedia Commons

Fonte: Georges Gasne (his position being "chef the clinique de la Salpêtrière" at publication).

Causas e transmissão

Os TAs têm etiologia multifatorial, sem agente infeccioso envolvido. Os principais fatores de risco incluem:

  • Genéticos e neurobiológicos: herdabilidade estimada em 50–80% para AN e BN; disfunções em sistemas serotoninérgico e dopaminérgico.

  • Psicológicos: perfeccionismo, baixa autoestima, traços obsessivo-compulsivos, histórico de trauma ou abuso.

  • Socioculturais: pressão pela magreza, exposição a ideais de corpo veiculados pela mídia e redes sociais.

  • Familiares: dinâmicas familiares disfuncionais, superproteção, críticas frequentes sobre peso ou alimentação.

  • Comorbidades: transtornos de ansiedade, depressão, TOC e transtornos de personalidade são frequentemente associados.

Classificação e formas

Anorexia Nervosa

  • Subtipo restritivo: perda de peso apenas por dieta, jejum e/ou exercício excessivo.

  • Subtipo compulsão/purgação: episódios recorrentes de compulsão ou purgação durante o episódio de AN.

  • Gravidade pelo IMC (adultos): leve ≥ 17 kg/m², moderada 16–16,99, grave 15–15,99, extrema < 15.

Bulimia Nervosa

  • Compulsão + comportamento compensatório ao menos 1 vez/semana por ≥ 3 meses.

  • Gravidade: leve (1–3 ep/sem), moderada (4–7), grave (8–13), extrema (≥ 14).

TCAP

  • Compulsão ao menos 1 vez/semana por ≥ 3 meses, sem comportamento compensatório regular.

  • Frequentemente associado à obesidade.

Sintomas e manifestações clínicas

Anorexia Nervosa

  • Perda de peso acentuada, recusa alimentar, distorção grave da imagem corporal

  • Amenorreia (nas mulheres em idade fértil), intolerância ao frio, lanugo, queda de cabelo

  • Bradicardia, hipotensão, hipotermia, edema

  • Alterações laboratoriais: hipocalemia, hipoglicemia, anemia, leucopenia, alcalose metabólica (em purgadores)

Bulimia Nervosa

  • Episódios de ingestão rápida de grande quantidade de alimento com sensação de perda de controle

  • Vômitos autoinduzidos, uso abusivo de laxantes ou diuréticos

  • Sinal de Russell (calosidades no dorso das mãos por trauma dental durante purgação)

  • Hipertrofia de parótidas, erosão dentária, esofagite

  • Hipocalemia (risco de arritmias), alcalose metabólica hipoclorêmica

TCAP

  • Compulsões frequentes, comer rapidamente e além da saciedade, sensação de vergonha e culpa

  • Ausência de comportamentos compensatórios

  • Ganho de peso progressivo e comorbidades metabólicas

Diagnóstico

O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado nos critérios do DSM-5 após história detalhada e exame físico completo. Não há exame laboratorial específico confirmatório — os exames auxiliam na avaliação de complicações e diagnóstico diferencial.

Avaliação inicial obrigatória:

  • Peso, IMC, curva de crescimento (adolescentes)

  • Pressão arterial ortostática, frequência cardíaca

  • Hemograma, eletrólitos (K⁺, Na⁺, Mg²⁺, P), glicemia, função renal, hepática e tireoidiana

  • ECG (avaliar QTc prolongado, especialmente em hipocalemia)

  • Densitometria óssea na AN de longa data

Diagnóstico diferencial: doenças inflamatórias intestinais, hipertireoidismo, neoplasias, depressão com anorexia, esquizofrenia com comportamento alimentar bizarro.

Abordagem Inicial ao Transtorno Alimentar

Abordagem Inicial ao Transtorno Alimentar

Tratamento

O tratamento é multiprofissional e envolve psiquiatra, psicólogo, nutricionista e clínico/pediatra. A gravidade clínica determina o nível de cuidado.

Nível de cuidado

  • Ambulatorial: casos leves a moderados, sem comprometimento clínico grave

  • Hospital-dia / intensivo ambulatorial: casos moderados com necessidade de suporte nutricional intensivo

  • Internação hospitalar: indicada quando há IMC < 14 kg/m², instabilidade hemodinâmica, hipocalemia grave, risco de suicídio ou falha do tratamento ambulatorial

Reabilitação nutricional

  • Reintrodução calórica gradual para evitar síndrome de realimentação (hipofosforemia, hipocalemia, insuficiência cardíaca)

  • Monitorização rigorosa de eletrólitos nas primeiras semanas

  • Suplementação de tiamina antes da realimentação em casos graves

Psicoterapia

  • Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): primeira linha para BN e TCAP; evidência robusta

  • Terapia Baseada em Família (FBT/Maudsley): primeira linha para AN em adolescentes

  • TCC aprimorada (TCC-E), terapia interpessoal e terapia dialético-comportamental têm evidência em TAs

Farmacoterapia

  • AN: nenhum fármaco aprovado com eficácia comprovada para o ganho de peso; olanzapina pode ser usada em casos com agitação intensa e recusa alimentar grave

  • BN: fluoxetina 60 mg/dia é o único fármaco aprovado pelo FDA para BN; reduz frequência de compulsões e purgações

  • TCAP: fluoxetina, sertralina e lisdexanfetamina (único aprovado pelo FDA para TCAP) reduzem episódios de compulsão

  • Evitar bupropiona em pacientes com comportamentos purgativos (redução do limiar convulsivo)

Prognóstico

  • A AN apresenta a maior mortalidade entre os transtornos psiquiátricos (mortalidade padronizada ~5–10 vezes maior que a população geral), por causas clínicas e suicídio.

  • A BN tem prognóstico relativamente melhor com tratamento adequado; cerca de 50–70% atingem remissão a longo prazo.

  • O TCAP responde bem ao tratamento combinado, embora recaídas sejam frequentes.

  • Fatores de mau prognóstico: longa duração, baixo peso extremo, comorbidades psiquiátricas graves, baixo suporte familiar.

  • Rastreamento de complicações ósseas, cardíacas e endócrinas deve ser contínuo.

Perguntas frequentes

Quais são os tipos de transtornos alimentares?
Os principais transtornos alimentares são a anorexia nervosa (restrição alimentar intensa com distorção da imagem corporal), a bulimia nervosa (compulsões seguidas de purgação) e o transtorno de compulsão alimentar periódica (compulsões sem comportamentos compensatórios). O DSM-5 inclui ainda ARFID, pica e transtorno de ruminação.
Transtorno alimentar tem cura?
Os transtornos alimentares não têm 'cura' no sentido tradicional, mas a remissão é possível e frequente com tratamento adequado. A bulimia nervosa e o TCAP têm prognóstico melhor; a anorexia nervosa é a mais grave, com alto risco de cronicidade e mortalidade. Tratamento multiprofissional precoce melhora significativamente as chances de recuperação.
Como é feito o diagnóstico de transtorno alimentar?
O diagnóstico é clínico, baseado nos critérios do DSM-5 após história clínica detalhada e exame físico. Exames laboratoriais (eletrólitos, ECG, hemograma) são solicitados para avaliar complicações e excluir causas orgânicas, mas não confirmam o diagnóstico.
Quando internar um paciente com transtorno alimentar?
A internação está indicada em casos de instabilidade hemodinâmica (bradicardia grave, hipotensão), IMC muito baixo (geralmente < 14 kg/m²), hipocalemia grave com risco de arritmia, risco de suicídio ou falha no tratamento ambulatorial. A síndrome de realimentação deve ser prevenida com monitorização rigorosa de eletrólitos.

Ler é metade do caminho.

A outra metade é praticar: transforme o que você acabou de ler em questões, flashcards e resumos com a IA do Chagas — a partir do seu próprio material.

Quero sair na frente

Mais em Resumos