Transtornos Alimentares
O que são, tipos, sintomas, diagnóstico e tratamento
Transtornos alimentares: anorexia, bulimia e TCAP explicados — critérios diagnósticos, complicações clínicas e tratamento baseado em evidências.
Os transtornos alimentares (TAs) são condições psiquiátricas graves caracterizadas por comportamentos alimentares disfuncionais, preocupação excessiva com peso e imagem corporal e repercussões físicas e psicossociais significativas. Afetam predominantemente adolescentes e adultos jovens, com maior prevalência no sexo feminino, mas ocorrem em todos os gêneros e faixas etárias. Estão entre os transtornos psiquiátricos com maior mortalidade.
O que são Transtornos Alimentares?
Os TAs são definidos pelo DSM-5 como perturbações persistentes no comportamento alimentar ou em comportamentos relacionados à alimentação que alteram o consumo ou absorção de alimentos e comprometem significativamente a saúde física ou o funcionamento psicossocial. Os principais quadros são:
Anorexia Nervosa (AN): restrição da ingestão calórica com peso significativamente baixo, medo intenso de ganhar peso e distorção da imagem corporal.
Bulimia Nervosa (BN): episódios recorrentes de compulsão alimentar seguidos de comportamentos compensatórios inapropriados (vômito autoinduzido, uso de laxantes, jejum ou exercício excessivo).
Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica (TCAP): episódios recorrentes de compulsão alimentar sem comportamentos compensatórios regulares.
Outros: transtorno alimentar restritivo/evitativo (ARFID), pica, transtorno de ruminação.

Fonte: Georges Gasne (his position being "chef the clinique de la Salpêtrière" at publication).
Causas e transmissão
Os TAs têm etiologia multifatorial, sem agente infeccioso envolvido. Os principais fatores de risco incluem:
Genéticos e neurobiológicos: herdabilidade estimada em 50–80% para AN e BN; disfunções em sistemas serotoninérgico e dopaminérgico.
Psicológicos: perfeccionismo, baixa autoestima, traços obsessivo-compulsivos, histórico de trauma ou abuso.
Socioculturais: pressão pela magreza, exposição a ideais de corpo veiculados pela mídia e redes sociais.
Familiares: dinâmicas familiares disfuncionais, superproteção, críticas frequentes sobre peso ou alimentação.
Comorbidades: transtornos de ansiedade, depressão, TOC e transtornos de personalidade são frequentemente associados.
Classificação e formas
Anorexia Nervosa
Subtipo restritivo: perda de peso apenas por dieta, jejum e/ou exercício excessivo.
Subtipo compulsão/purgação: episódios recorrentes de compulsão ou purgação durante o episódio de AN.
Gravidade pelo IMC (adultos): leve ≥ 17 kg/m², moderada 16–16,99, grave 15–15,99, extrema < 15.
Bulimia Nervosa
Compulsão + comportamento compensatório ao menos 1 vez/semana por ≥ 3 meses.
Gravidade: leve (1–3 ep/sem), moderada (4–7), grave (8–13), extrema (≥ 14).
TCAP
Compulsão ao menos 1 vez/semana por ≥ 3 meses, sem comportamento compensatório regular.
Frequentemente associado à obesidade.
Sintomas e manifestações clínicas
Anorexia Nervosa
Perda de peso acentuada, recusa alimentar, distorção grave da imagem corporal
Amenorreia (nas mulheres em idade fértil), intolerância ao frio, lanugo, queda de cabelo
Bradicardia, hipotensão, hipotermia, edema
Alterações laboratoriais: hipocalemia, hipoglicemia, anemia, leucopenia, alcalose metabólica (em purgadores)
Bulimia Nervosa
Episódios de ingestão rápida de grande quantidade de alimento com sensação de perda de controle
Vômitos autoinduzidos, uso abusivo de laxantes ou diuréticos
Sinal de Russell (calosidades no dorso das mãos por trauma dental durante purgação)
Hipertrofia de parótidas, erosão dentária, esofagite
Hipocalemia (risco de arritmias), alcalose metabólica hipoclorêmica
TCAP
Compulsões frequentes, comer rapidamente e além da saciedade, sensação de vergonha e culpa
Ausência de comportamentos compensatórios
Ganho de peso progressivo e comorbidades metabólicas
Diagnóstico
O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado nos critérios do DSM-5 após história detalhada e exame físico completo. Não há exame laboratorial específico confirmatório — os exames auxiliam na avaliação de complicações e diagnóstico diferencial.
Avaliação inicial obrigatória:
Peso, IMC, curva de crescimento (adolescentes)
Pressão arterial ortostática, frequência cardíaca
Hemograma, eletrólitos (K⁺, Na⁺, Mg²⁺, P), glicemia, função renal, hepática e tireoidiana
ECG (avaliar QTc prolongado, especialmente em hipocalemia)
Densitometria óssea na AN de longa data
Diagnóstico diferencial: doenças inflamatórias intestinais, hipertireoidismo, neoplasias, depressão com anorexia, esquizofrenia com comportamento alimentar bizarro.
Abordagem Inicial ao Transtorno Alimentar
Tratamento
O tratamento é multiprofissional e envolve psiquiatra, psicólogo, nutricionista e clínico/pediatra. A gravidade clínica determina o nível de cuidado.
Nível de cuidado
Ambulatorial: casos leves a moderados, sem comprometimento clínico grave
Hospital-dia / intensivo ambulatorial: casos moderados com necessidade de suporte nutricional intensivo
Internação hospitalar: indicada quando há IMC < 14 kg/m², instabilidade hemodinâmica, hipocalemia grave, risco de suicídio ou falha do tratamento ambulatorial
Reabilitação nutricional
Reintrodução calórica gradual para evitar síndrome de realimentação (hipofosforemia, hipocalemia, insuficiência cardíaca)
Monitorização rigorosa de eletrólitos nas primeiras semanas
Suplementação de tiamina antes da realimentação em casos graves
Psicoterapia
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): primeira linha para BN e TCAP; evidência robusta
Terapia Baseada em Família (FBT/Maudsley): primeira linha para AN em adolescentes
TCC aprimorada (TCC-E), terapia interpessoal e terapia dialético-comportamental têm evidência em TAs
Farmacoterapia
AN: nenhum fármaco aprovado com eficácia comprovada para o ganho de peso; olanzapina pode ser usada em casos com agitação intensa e recusa alimentar grave
BN: fluoxetina 60 mg/dia é o único fármaco aprovado pelo FDA para BN; reduz frequência de compulsões e purgações
TCAP: fluoxetina, sertralina e lisdexanfetamina (único aprovado pelo FDA para TCAP) reduzem episódios de compulsão
Evitar bupropiona em pacientes com comportamentos purgativos (redução do limiar convulsivo)
Prognóstico
A AN apresenta a maior mortalidade entre os transtornos psiquiátricos (mortalidade padronizada ~5–10 vezes maior que a população geral), por causas clínicas e suicídio.
A BN tem prognóstico relativamente melhor com tratamento adequado; cerca de 50–70% atingem remissão a longo prazo.
O TCAP responde bem ao tratamento combinado, embora recaídas sejam frequentes.
Fatores de mau prognóstico: longa duração, baixo peso extremo, comorbidades psiquiátricas graves, baixo suporte familiar.
Rastreamento de complicações ósseas, cardíacas e endócrinas deve ser contínuo.
Perguntas frequentes
- Quais são os tipos de transtornos alimentares?
- Os principais transtornos alimentares são a anorexia nervosa (restrição alimentar intensa com distorção da imagem corporal), a bulimia nervosa (compulsões seguidas de purgação) e o transtorno de compulsão alimentar periódica (compulsões sem comportamentos compensatórios). O DSM-5 inclui ainda ARFID, pica e transtorno de ruminação.
- Transtorno alimentar tem cura?
- Os transtornos alimentares não têm 'cura' no sentido tradicional, mas a remissão é possível e frequente com tratamento adequado. A bulimia nervosa e o TCAP têm prognóstico melhor; a anorexia nervosa é a mais grave, com alto risco de cronicidade e mortalidade. Tratamento multiprofissional precoce melhora significativamente as chances de recuperação.
- Como é feito o diagnóstico de transtorno alimentar?
- O diagnóstico é clínico, baseado nos critérios do DSM-5 após história clínica detalhada e exame físico. Exames laboratoriais (eletrólitos, ECG, hemograma) são solicitados para avaliar complicações e excluir causas orgânicas, mas não confirmam o diagnóstico.
- Quando internar um paciente com transtorno alimentar?
- A internação está indicada em casos de instabilidade hemodinâmica (bradicardia grave, hipotensão), IMC muito baixo (geralmente < 14 kg/m²), hipocalemia grave com risco de arritmia, risco de suicídio ou falha no tratamento ambulatorial. A síndrome de realimentação deve ser prevenida com monitorização rigorosa de eletrólitos.