Transtornos de Ansiedade
O que são, classificação, sintomas, diagnóstico e tratamento
Transtornos de Ansiedade: classificação, sintomas, critérios diagnósticos e tratamento farmacológico e psicoterápico. Guia para residência médica.
Os transtornos de ansiedade constituem o grupo de transtornos mentais mais prevalente na população geral e representam tema frequente nas provas de residência médica. Caracterizam-se por medo ou ansiedade excessivos, persistentes e clinicamente significativos, que causam sofrimento ou prejuízo funcional. Diferem da ansiedade fisiológica por sua intensidade desproporcional, duração prolongada e impacto na qualidade de vida.
O que são Transtornos de Ansiedade?
Transtornos de ansiedade são condições psiquiátricas nas quais a resposta de medo ou apreensão ocorre de forma exagerada em relação ao estímulo ou mesmo na ausência de ameaça real. O sistema nervoso autônomo e os circuitos do medo (amígdala, córtex pré-frontal, hipocampo) estão centralmente envolvidos na fisiopatologia. Segundo o DSM-5, o grupo inclui diversas entidades nosológicas distintas, cada uma com critérios próprios.

Causas e transmissão
Os transtornos de ansiedade têm etiologia multifatorial:
- Genética: herdabilidade moderada; polimorfismos em genes do sistema serotoninérgico e noradrenérgico
- Neurobiológica: hiperatividade da amígdala, disfunção dos sistemas GABA, serotonina e noradrenalina
- Psicológica: estilo cognitivo com viés de ameaça, experiências traumáticas precoces, apego inseguro
- Ambiental: eventos estressores de vida, adversidades na infância, exposição a violência
- Médica: doenças tireoidianas (hipertireoidismo), feocromocitoma, arritmias, uso ou abstinência de substâncias podem mimetizar ou precipitar quadros
Não há transmissão interpessoal — o conceito não se aplica a transtornos mentais primários.
Classificação e formas
O DSM-5 organiza os transtornos de ansiedade nas seguintes entidades principais:
Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG)
Ansiedade e preocupação excessivas, difusas e de difícil controle sobre múltiplos domínios, por pelo menos 6 meses.
Transtorno de Pânico
Crises recorrentes e inesperadas de pânico acompanhadas de preocupação persistente com novas crises ou mudança de comportamento relacionada a elas.
Agorafobia
Medo ou ansiedade intensos em situações como usar transporte público, estar em espaços abertos, filas ou multidões, associado a comportamento de esquiva.
Fobia Social (Transtorno de Ansiedade Social)
Medo acentuado de situações sociais nas quais o indivíduo pode ser avaliado negativamente, com duração mínima de 6 meses em adultos.
Fobias Específicas
Medo intenso e desproporcional circunscrito a objeto ou situação específica (animais, altura, sangue/injeções, aviões, etc.).
Transtorno de Ansiedade de Separação
Medo excessivo relacionado à separação de figuras de apego; pode ocorrer em adultos.
Mutismo Seletivo
Falha consistente em falar em situações sociais específicas, apesar de falar em outras.
Nota: Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) e Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) foram reclassificados pelo DSM-5 em capítulos próprios, separados dos transtornos de ansiedade.
Sintomas e manifestações clínicas
Os sintomas variam conforme o transtorno, mas compartilham núcleos comuns:
Sintomas psíquicos
- Apreensão, preocupação excessiva ou medo intenso
- Sensação de irrealidade (despersonalização/desrealização)
- Medo de perder o controle, enlouquecer ou morrer
- Hipervigilância e dificuldade de concentração
- Irritabilidade
Sintomas somáticos (autonômicos)
- Palpitações ou taquicardia
- Sudorese, tremores, boca seca
- Dispneia, sensação de sufocamento
- Dor ou desconforto torácico
- Náuseas, desconforto abdominal
- Tontura, parestesias
- Ondas de calor ou calafrios
Crise de pânico
Episódio agudo de medo intenso que atinge pico em minutos, com pelo menos 4 dos sintomas acima. Pode ser esperada (situacional) ou inesperada.
TAG: sintomas específicos
- Tensão muscular
- Fatigabilidade fácil
- Perturbações do sono
- Dificuldade de concentração
- Irritabilidade
- Pelo menos 3 dos 6 critérios somáticos devem estar presentes (em crianças, apenas 1)
Diagnóstico
O diagnóstico é clínico, baseado em critérios do DSM-5 ou CID-11. Não há exame laboratorial confirmatório para os transtornos de ansiedade primários.
Avaliação clínica
- Anamnese detalhada: padrão, gatilhos, duração, prejuízo funcional
- Exclusão de causas orgânicas: TSH, glicemia, ECG, hemograma quando indicados
- Exclusão de uso/abstinência de substâncias (cafeína, álcool, benzodiazepínicos, estimulantes)
- Escalas validadas como auxílio: GAD-7 (TAG), PHQ-A, Inventário de Ansiedade de Beck (BAI), Escala de Ansiedade de Hamilton (HAM-A)
Critérios-chave por diagnóstico (DSM-5)
TAG:
- Ansiedade excessiva ≥ 6 meses
- Dificuldade de controlar a preocupação
- ≥ 3 sintomas somáticos (adultos)
- Sofrimento ou prejuízo funcional significativo
- Não atribuível a substância ou outra condição médica
Transtorno de Pânico:
- Crises inesperadas recorrentes (≥ 4 sintomas)
- ≥ 1 mês de preocupação persistente ou mudança de comportamento
Diagnóstico diferencial: transtornos depressivos, TOC, TEPT, transtornos somáticos, transtornos da personalidade (cluster C), bipolaridade e condições médicas gerais.
Tratamento
O tratamento combina abordagem farmacológica e psicoterapêutica, sendo a associação mais eficaz do que cada modalidade isolada.
Psicoterapia
- Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): primeira linha para todos os transtornos de ansiedade; inclui reestruturação cognitiva e exposição gradual
- Técnicas de relaxamento e mindfulness como adjuvantes
Farmacoterapia
Primeira linha:
- ISRS (sertralina, escitalopram, paroxetina, fluoxetina): indicados para TAG, pânico, fobia social e fobias específicas graves; início de ação em 2–4 semanas; manutenção por pelo menos 12 meses após remissão
- IRSN (venlafaxina, duloxetina): primeira linha especialmente para TAG e transtorno de pânico
Segunda linha / adjuvantes:
- Buspirona: útil no TAG, sem potencial de dependência; latência de resposta de 2–4 semanas
- Pregabalina: aprovada para TAG; útil quando há contraindicação a antidepressivos
- Hidroxizina: opção para ansiedade aguda e TAG, sem dependência
- Antidepressivos tricíclicos (imipramina, clomipramina): eficazes, mas com pior tolerabilidade
Benzodiazepínicos:
- Uso de curto prazo para alívio imediato ou na fase de latência dos ISRS
- Evitar uso crônico pelo risco de dependência, tolerância e prejuízo cognitivo
- Contraindicados ou usar com extrema cautela em pacientes com histórico de uso de substâncias
Transtorno de Pânico — ponto de prova:
- ISRS/IRSN são a base do tratamento
- TCC com exposição interoceptiva é altamente eficaz
- Iniciar ISRS com dose baixa para evitar piora inicial da ansiedade (efeito ativador)
Fobia Social:
- ISRS, IRSN e TCC; betabloqueadores (propranolol) para ansiedade de desempenho situacional
Prognóstico
- Transtornos de ansiedade tendem a curso crônico com flutuações, especialmente sem tratamento adequado
- A resposta ao tratamento combinado (TCC + farmacoterapia) é favorável na maioria dos pacientes
- Comorbidades psiquiátricas (depressão maior, outros transtornos de ansiedade, uso de substâncias) pioram o prognóstico e são frequentes
- A recaída após suspensão do tratamento é comum; manutenção prolongada deve ser considerada em casos recorrentes ou com prejuízo funcional importante
- Suicidabilidade: embora menor do que nos transtornos depressivos, deve ser avaliada sistematicamente, pois comorbidade com depressão é prevalente
Perguntas frequentes
- Quais são os sintomas dos transtornos de ansiedade?
- Os sintomas incluem preocupação excessiva, medo intenso, hipervigilância, palpitações, sudorese, tremores, dispneia e tensão muscular. A intensidade e o padrão variam conforme o tipo de transtorno (generalizado, pânico, fobia social, etc.).
- Transtorno de ansiedade tem cura?
- Os transtornos de ansiedade não têm 'cura' no sentido de erradicação definitiva, mas a maioria dos pacientes alcança remissão completa dos sintomas com tratamento adequado. A combinação de TCC e farmacoterapia é a abordagem mais eficaz, embora recaídas sejam possíveis após a suspensão do tratamento.
- Qual o melhor remédio para ansiedade?
- Os ISRS (como sertralina e escitalopram) e os IRSN (como venlafaxina) são considerados primeira linha farmacológica para a maioria dos transtornos de ansiedade. Benzodiazepínicos podem ser usados por curto prazo para alívio imediato, mas não são recomendados para uso crônico pelo risco de dependência.
- Qual a diferença entre TAG e transtorno de pânico?
- No TAG, a ansiedade é difusa, persistente (≥ 6 meses) e associada a preocupações sobre múltiplos temas do cotidiano. No transtorno de pânico, predominam crises agudas e intensas de medo (crises de pânico) que atingem pico em minutos, geralmente inesperadas, seguidas de preocupação com novas crises ou mudança de comportamento.