Resumos16 jul 20265 min de leitura

Transtornos de Ansiedade

O que são, classificação, sintomas, diagnóstico e tratamento

psiquiatria

Transtornos de Ansiedade: classificação, sintomas, critérios diagnósticos e tratamento farmacológico e psicoterápico. Guia para residência médica.

Os transtornos de ansiedade constituem o grupo de transtornos mentais mais prevalente na população geral e representam tema frequente nas provas de residência médica. Caracterizam-se por medo ou ansiedade excessivos, persistentes e clinicamente significativos, que causam sofrimento ou prejuízo funcional. Diferem da ansiedade fisiológica por sua intensidade desproporcional, duração prolongada e impacto na qualidade de vida.

O que são Transtornos de Ansiedade?

Transtornos de ansiedade são condições psiquiátricas nas quais a resposta de medo ou apreensão ocorre de forma exagerada em relação ao estímulo ou mesmo na ausência de ameaça real. O sistema nervoso autônomo e os circuitos do medo (amígdala, córtex pré-frontal, hipocampo) estão centralmente envolvidos na fisiopatologia. Segundo o DSM-5, o grupo inclui diversas entidades nosológicas distintas, cada uma com critérios próprios.

File:Ferramentas e escalas de avaliação clínica em psiquiatria.png -  Wikimedia Commons
Fonte: Pedu0303 / Wikimedia Commons (CC0)

Causas e transmissão

Os transtornos de ansiedade têm etiologia multifatorial:

  • Genética: herdabilidade moderada; polimorfismos em genes do sistema serotoninérgico e noradrenérgico
  • Neurobiológica: hiperatividade da amígdala, disfunção dos sistemas GABA, serotonina e noradrenalina
  • Psicológica: estilo cognitivo com viés de ameaça, experiências traumáticas precoces, apego inseguro
  • Ambiental: eventos estressores de vida, adversidades na infância, exposição a violência
  • Médica: doenças tireoidianas (hipertireoidismo), feocromocitoma, arritmias, uso ou abstinência de substâncias podem mimetizar ou precipitar quadros

Não há transmissão interpessoal — o conceito não se aplica a transtornos mentais primários.

Classificação e formas

O DSM-5 organiza os transtornos de ansiedade nas seguintes entidades principais:

Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG)

Ansiedade e preocupação excessivas, difusas e de difícil controle sobre múltiplos domínios, por pelo menos 6 meses.

Transtorno de Pânico

Crises recorrentes e inesperadas de pânico acompanhadas de preocupação persistente com novas crises ou mudança de comportamento relacionada a elas.

Agorafobia

Medo ou ansiedade intensos em situações como usar transporte público, estar em espaços abertos, filas ou multidões, associado a comportamento de esquiva.

Fobia Social (Transtorno de Ansiedade Social)

Medo acentuado de situações sociais nas quais o indivíduo pode ser avaliado negativamente, com duração mínima de 6 meses em adultos.

Fobias Específicas

Medo intenso e desproporcional circunscrito a objeto ou situação específica (animais, altura, sangue/injeções, aviões, etc.).

Transtorno de Ansiedade de Separação

Medo excessivo relacionado à separação de figuras de apego; pode ocorrer em adultos.

Mutismo Seletivo

Falha consistente em falar em situações sociais específicas, apesar de falar em outras.

Nota: Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) e Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) foram reclassificados pelo DSM-5 em capítulos próprios, separados dos transtornos de ansiedade.

Sintomas e manifestações clínicas

Os sintomas variam conforme o transtorno, mas compartilham núcleos comuns:

Sintomas psíquicos

  • Apreensão, preocupação excessiva ou medo intenso
  • Sensação de irrealidade (despersonalização/desrealização)
  • Medo de perder o controle, enlouquecer ou morrer
  • Hipervigilância e dificuldade de concentração
  • Irritabilidade

Sintomas somáticos (autonômicos)

  • Palpitações ou taquicardia
  • Sudorese, tremores, boca seca
  • Dispneia, sensação de sufocamento
  • Dor ou desconforto torácico
  • Náuseas, desconforto abdominal
  • Tontura, parestesias
  • Ondas de calor ou calafrios

Crise de pânico

Episódio agudo de medo intenso que atinge pico em minutos, com pelo menos 4 dos sintomas acima. Pode ser esperada (situacional) ou inesperada.

TAG: sintomas específicos

  • Tensão muscular
  • Fatigabilidade fácil
  • Perturbações do sono
  • Dificuldade de concentração
  • Irritabilidade
  • Pelo menos 3 dos 6 critérios somáticos devem estar presentes (em crianças, apenas 1)

Diagnóstico

O diagnóstico é clínico, baseado em critérios do DSM-5 ou CID-11. Não há exame laboratorial confirmatório para os transtornos de ansiedade primários.

Avaliação clínica

  • Anamnese detalhada: padrão, gatilhos, duração, prejuízo funcional
  • Exclusão de causas orgânicas: TSH, glicemia, ECG, hemograma quando indicados
  • Exclusão de uso/abstinência de substâncias (cafeína, álcool, benzodiazepínicos, estimulantes)
  • Escalas validadas como auxílio: GAD-7 (TAG), PHQ-A, Inventário de Ansiedade de Beck (BAI), Escala de Ansiedade de Hamilton (HAM-A)

Critérios-chave por diagnóstico (DSM-5)

TAG:

  • Ansiedade excessiva ≥ 6 meses
  • Dificuldade de controlar a preocupação
  • ≥ 3 sintomas somáticos (adultos)
  • Sofrimento ou prejuízo funcional significativo
  • Não atribuível a substância ou outra condição médica

Transtorno de Pânico:

  • Crises inesperadas recorrentes (≥ 4 sintomas)
  • ≥ 1 mês de preocupação persistente ou mudança de comportamento

Diagnóstico diferencial: transtornos depressivos, TOC, TEPT, transtornos somáticos, transtornos da personalidade (cluster C), bipolaridade e condições médicas gerais.

Abordagem Diagnóstica e Terapêutica dos Transtornos de Ansiedade
Abordagem Diagnóstica e Terapêutica dos Transtornos de Ansiedade

Tratamento

O tratamento combina abordagem farmacológica e psicoterapêutica, sendo a associação mais eficaz do que cada modalidade isolada.

Psicoterapia

  • Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): primeira linha para todos os transtornos de ansiedade; inclui reestruturação cognitiva e exposição gradual
  • Técnicas de relaxamento e mindfulness como adjuvantes

Farmacoterapia

Primeira linha:

  • ISRS (sertralina, escitalopram, paroxetina, fluoxetina): indicados para TAG, pânico, fobia social e fobias específicas graves; início de ação em 2–4 semanas; manutenção por pelo menos 12 meses após remissão
  • IRSN (venlafaxina, duloxetina): primeira linha especialmente para TAG e transtorno de pânico

Segunda linha / adjuvantes:

  • Buspirona: útil no TAG, sem potencial de dependência; latência de resposta de 2–4 semanas
  • Pregabalina: aprovada para TAG; útil quando há contraindicação a antidepressivos
  • Hidroxizina: opção para ansiedade aguda e TAG, sem dependência
  • Antidepressivos tricíclicos (imipramina, clomipramina): eficazes, mas com pior tolerabilidade

Benzodiazepínicos:

  • Uso de curto prazo para alívio imediato ou na fase de latência dos ISRS
  • Evitar uso crônico pelo risco de dependência, tolerância e prejuízo cognitivo
  • Contraindicados ou usar com extrema cautela em pacientes com histórico de uso de substâncias

Transtorno de Pânico — ponto de prova:

  • ISRS/IRSN são a base do tratamento
  • TCC com exposição interoceptiva é altamente eficaz
  • Iniciar ISRS com dose baixa para evitar piora inicial da ansiedade (efeito ativador)

Fobia Social:

  • ISRS, IRSN e TCC; betabloqueadores (propranolol) para ansiedade de desempenho situacional

Prognóstico

  • Transtornos de ansiedade tendem a curso crônico com flutuações, especialmente sem tratamento adequado
  • A resposta ao tratamento combinado (TCC + farmacoterapia) é favorável na maioria dos pacientes
  • Comorbidades psiquiátricas (depressão maior, outros transtornos de ansiedade, uso de substâncias) pioram o prognóstico e são frequentes
  • A recaída após suspensão do tratamento é comum; manutenção prolongada deve ser considerada em casos recorrentes ou com prejuízo funcional importante
  • Suicidabilidade: embora menor do que nos transtornos depressivos, deve ser avaliada sistematicamente, pois comorbidade com depressão é prevalente

Perguntas frequentes

Quais são os sintomas dos transtornos de ansiedade?
Os sintomas incluem preocupação excessiva, medo intenso, hipervigilância, palpitações, sudorese, tremores, dispneia e tensão muscular. A intensidade e o padrão variam conforme o tipo de transtorno (generalizado, pânico, fobia social, etc.).
Transtorno de ansiedade tem cura?
Os transtornos de ansiedade não têm 'cura' no sentido de erradicação definitiva, mas a maioria dos pacientes alcança remissão completa dos sintomas com tratamento adequado. A combinação de TCC e farmacoterapia é a abordagem mais eficaz, embora recaídas sejam possíveis após a suspensão do tratamento.
Qual o melhor remédio para ansiedade?
Os ISRS (como sertralina e escitalopram) e os IRSN (como venlafaxina) são considerados primeira linha farmacológica para a maioria dos transtornos de ansiedade. Benzodiazepínicos podem ser usados por curto prazo para alívio imediato, mas não são recomendados para uso crônico pelo risco de dependência.
Qual a diferença entre TAG e transtorno de pânico?
No TAG, a ansiedade é difusa, persistente (≥ 6 meses) e associada a preocupações sobre múltiplos temas do cotidiano. No transtorno de pânico, predominam crises agudas e intensas de medo (crises de pânico) que atingem pico em minutos, geralmente inesperadas, seguidas de preocupação com novas crises ou mudança de comportamento.

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