Resumos03 ago 20265 min de leitura

Síndrome Coronária Aguda

O que é, sintomas, diagnóstico e tratamento completo

cardiologia

Síndrome Coronária Aguda (SCA): entenda o que é, como reconhecer os sintomas, como o diagnóstico é feito e quais são as opções de tratamento.

A Síndrome Coronária Aguda (SCA) engloba um espectro de condições causadas pela redução aguda do fluxo sanguíneo coronariano. É uma das principais emergências cardiovasculares e causa relevante de morbimortalidade em todo o mundo. O reconhecimento precoce e a estratificação de risco são determinantes para o desfecho.

O que é Síndrome Coronária Aguda?

A SCA compreende três entidades clínicas que compartilham o mesmo substrato fisiopatológico — a rotura ou erosão de uma placa aterosclerótica com formação de trombo intraluminal:

  • Angina instável (AI): isquemia miocárdica sem necrose detectável (troponina negativa, sem supradesnivelamento de ST).
  • Infarto agudo do miocárdio sem supradesnivelamento de ST (IAMSSST): necrose miocárdica confirmada por elevação de troponina, sem supradesnivelamento persistente de ST.
  • Infarto agudo do miocárdio com supradesnivelamento de ST (IAMCSST): oclusão coronariana total, com supradesnivelamento de ST e necrose transmural em evolução — exige reperfusão imediata.

Causas e transmissão

A SCA não é transmissível; resulta da progressão da doença aterosclerótica coronariana, frequentemente precipitada por:

  • Rotura ou erosão de placa aterosclerótica instável
  • Trombose coronariana aguda sobre placa
  • Vasoespasmo coronariano (menos frequente; ex.: angina de Prinzmetal)
  • Causas não ateroscleróticas: dissecção espontânea de coronária, embolia coronariana, vasculite

Fatores de risco clássicos: hipertensão arterial, diabetes mellitus, dislipidemia, tabagismo, obesidade, história familiar de doença coronariana precoce, idade avançada e sexo masculino (ou mulheres pós-menopausa).

Classificação e formas

A classificação prática baseia-se no ECG inicial e na dosagem de troponina:

Por achado eletrocardiográfico

  • Com supradesnivelamento de ST (IAMCSST): supradesnível ≥ 1 mm em ≥ 2 derivações contíguas dos membros, ou ≥ 2 mm em precordiais; BRE novo ou presumivelmente novo também é equivalente.
  • Sem supradesnivelamento de ST (IAMSSST / AI): ECG normal, infradesnível de ST, inversão de onda T ou alterações inespecíficas.

Por troponina

  • Troponina elevada → IAMSSST (se sem supra de ST) ou IAMCSST (se com supra)
  • Troponina normal em série → Angina instável

Classificação de risco (IAMSSST/AI)

Escores como GRACE e TIMI estratificam pacientes em baixo, intermediário e alto risco, orientando a urgência da estratégia invasiva.

Sintomas e manifestações clínicas

O quadro clínico clássico inclui:

  • Dor torácica anginosa: precordialgia em aperto, pressão ou queimação, com duração > 20 minutos, podendo irradiar para membro superior esquerdo, mandíbula, dorso ou epigástrio
  • Dispneia associada ou isolada (equivalente anginoso, especialmente em diabéticos e idosos)
  • Diaforese, náuseas e vômitos
  • Síncope ou pré-síncope em casos com comprometimento hemodinâmico
  • Apresentações atípicas: dor epigástrica isolada, fadiga intensa, confusão mental — mais comuns em mulheres, idosos e diabéticos

Atenção: até 30% dos infartos podem ser oligossintomáticos ou silenciosos, especialmente em diabéticos.

Achados ao exame físico: podem ser normais; em casos graves, sinais de baixo débito (hipotensão, sudorese fria, extremidades frias), estertores pulmonares (congestão), B3, sopro de insuficiência mitral aguda (disfunção de músculo papilar).

Diagnóstico

O diagnóstico da SCA baseia-se na integração de clínica, ECG e biomarcadores.

ECG (deve ser realizado em até 10 minutos da chegada)

  • Supradesnivelamento de ST, BRE novo: IAMCSST — ativar protocolo de reperfusão imediata
  • Infradesnivelamento de ST, inversão de onda T: sugestivo de IAMSSST
  • ECG normal não exclui SCA

Biomarcadores

  • Troponina I ou T de alta sensibilidade (hs-cTn): marcador de escolha; dosagem na admissão e com 1–3 horas (protocolo 0h/1h ou 0h/2h) ou 0h/3h
  • Elevação progressiva (padrão de subida e descida) é característica de IAM; elevação estável pode indicar injúria miocárdica não isquêmica
  • CK-MB: útil para avaliar extensão e reinfarto; menos específica que a troponina

Imagem

  • Ecocardiograma: avalia função ventricular, alterações de contratilidade segmentar, complicações mecânicas
  • Coronariografia (cateterismo): padrão-ouro para anatomia coronariana; guia a revascularização

Diagnóstico diferencial

Dissecção aórtica, pericardite aguda, miocardite, TEP, espasmo esofágico, pneumotórax — devem ser excluídos antes de iniciar anticoagulação plena.

Fluxo de Abordagem da SCA
Fluxo de Abordagem da SCA

Tratamento

O tratamento varia conforme a apresentação, mas há medidas comuns a toda SCA.

Medidas gerais imediatas ("MONAB" adaptado)

  • Monitorização contínua de ECG, PA e SpO₂
  • Oxigênio suplementar apenas se SpO₂ < 90% (não há benefício rotineiro)
  • Acesso venoso e coleta de exames
  • AAS (ácido acetilsalicílico): 200–300 mg VO em dose de ataque, seguido de 75–100 mg/dia
  • Segundo antiagregante (inibidor de P2Y12): ticagrelor 180 mg VO (preferido) ou clopidogrel 300–600 mg VO
  • Nitrato: sublingual ou EV para alívio da dor — contraindicado se hipotensão ou uso de inibidor de PDE-5 nas últimas 24–48h
  • Morfina: uso criterioso (pode reduzir absorção de antiagregantes orais); reservar para dor refratária
  • Betabloqueador: iniciar VO nas primeiras 24h se sem contraindicações (bradicardia, BAV, broncoespasmo, choque)

Anticoagulação

  • Heparina não fracionada (HNF): EV em bolus + infusão contínua; amplamente usada no IAMCSST e peri-ICP
  • Enoxaparina: 1 mg/kg SC 12/12h (ajuste por função renal); opção no IAMSSST
  • Fondaparinux: 2,5 mg/dia SC — opção no IAMSSST/AI de baixo-médio risco
  • Bivalirudina: alternativa à HNF durante ICP primário em casos selecionados

Estratégia de reperfusão no IAMCSST

  • ICP primária (intervenção coronária percutânea): tratamento de escolha quando disponível em até 120 minutos do primeiro contato médico (meta porta-balão ≤ 90 min)
  • Trombólise fibrinolítica: indicada quando ICP primária não puder ser realizada em tempo hábil (< 3h de sintomas, sem contraindicações); agentes: alteplase, tenecteplase; realizar ICP de resgate se falha fibrinolítica
  • Após fibrinólise com sucesso, ICP farmacoinvasiva em 3–24h

Estratégia invasiva no IAMSSST/AI

  • Alto risco (GRACE > 140, troponina elevada, instabilidade hemodinâmica, arritmias): coronariografia em < 2h (estratégia muito precoce) ou < 24h
  • Risco intermediário: coronariografia em < 72h
  • Baixo risco: estratégia conservadora com teste de isquemia; invasiva se isquemia documentada

Revascularização

  • ICP com stent: tratamento da artéria culpada na maioria dos casos
  • Cirurgia de revascularização miocárdica (CRM): indicada em doença de tronco de coronária esquerda, doença triarterial com disfunção ventricular, anatomia não favorável à ICP

Tratamento clínico adjunto e pós-SCA

  • Estatina de alta intensidade: atorvastatina 40–80 mg ou rosuvastatina 20–40 mg — iniciar na admissão
  • IECA ou BRA: indicados após IAM, especialmente com FE reduzida, HAS ou diabetes
  • Betabloqueador: manutenção a longo prazo após IAM, especialmente com FE < 40%
  • Antagonista de aldosterona (eplerenona/espironolactona): em pós-IAM com FE ≤ 40% e ICC ou diabetes
  • Dupla antiagregação (DAPT): manutenção por 12 meses após SCA, salvo alto risco de sangramento

Prognóstico

O prognóstico da SCA depende fundamentalmente da extensão da necrose miocárdica, da função ventricular residual, da completude da revascularização e da adesão ao tratamento clínico:

  • Mortalidade intra-hospitalar do IAMCSST tratado com ICP primária é de aproximadamente 3–5% em centros experientes
  • Complicações precoces incluem: arritmias (FV, BAV), choque cardiogênico, insuficiência cardíaca aguda, complicações mecânicas (rotura de parede livre, CIV aguda, insuficiência mitral aguda)
  • Adesão à farmacoterapia pós-alta (betabloqueador, IECA, estatina, antiagregação) reduz significativamente a mortalidade em longo prazo
  • Reabilitação cardíaca e modificação de fatores de risco são recomendadas para todos os sobreviventes

Perguntas frequentes

Quais são os primeiros sintomas de uma síndrome coronária aguda?
O sintoma mais característico é a dor torácica em aperto ou pressão com duração superior a 20 minutos, podendo irradiar para o braço esquerdo, mandíbula ou dorso. Podem ocorrer também dispneia, diaforese e náuseas. Em idosos, diabéticos e mulheres, a apresentação pode ser atípica, com dor epigástrica ou fadiga intensa.
Qual a diferença entre angina instável e infarto do miocárdio?
Angina instável e infarto fazem parte do mesmo espectro (SCA), mas diferem pela presença de necrose miocárdica. No infarto, a troponina está elevada, indicando morte de células do músculo cardíaco. Na angina instável, a troponina é normal, pois há isquemia sem necrose detectável.
Como é feito o diagnóstico da SCA no pronto-socorro?
O diagnóstico baseia-se em três pilares: quadro clínico (dor torácica típica ou equivalente), ECG de 12 derivações realizado em até 10 minutos da chegada e dosagem de troponina de alta sensibilidade. O ECG identifica imediatamente o IAMCSST, que exige reperfusão urgente. A troponina em série confirma ou exclui necrose miocárdica.
SCA tem cura? Qual o tratamento?
A SCA é uma emergência tratável com altas chances de recuperação quando atendida rapidamente. O tratamento inclui antiagregantes plaquetários, anticoagulação, betabloqueadores e estatinas, além de reperfusão coronariana por cateterismo (ICP) ou trombólise no infarto com supra de ST. Após a fase aguda, o tratamento clínico contínuo reduz significativamente o risco de novos eventos.

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