Resumos03 ago 20265 min de leitura

Síndrome Coronariana Aguda

Fisiopatologia, diagnóstico e tratamento da SCA — do IAM ao angina instável

cardiologia

Síndrome Coronariana Aguda (SCA): fisiopatologia, classificação em IAMCSST, IAMSSST e angina instável, diagnóstico e tratamento baseado em evidências.

A síndrome coronariana aguda (SCA) engloba um espectro de manifestações isquêmicas miocárdicas agudas causadas, na maioria dos casos, pela ruptura ou erosão de uma placa aterosclerótica com formação de trombo coronariano. É uma das principais causas de morte e hospitalização no mundo e representa uma emergência cardiovascular com decisão tempo-dependente.

O que é Síndrome Coronariana Aguda?

A SCA é definida pela isquemia miocárdica aguda resultante de obstrução — total ou parcial — de uma artéria coronária. O espectro inclui três entidades clínicas distintas, diferenciadas pelo grau de obstrução, alterações eletrocardiográficas e presença de necrose miocárdica detectável pelos biomarcadores:

  • Angina instável (AI): isquemia sem elevação de troponina
  • IAM sem supradesnivelamento de ST (IAMSSST): isquemia com elevação de troponina, sem supra de ST no ECG
  • IAM com supradesnivelamento de ST (IAMCSST): oclusão coronariana total, com supra de ST persistente e elevação de troponina
Electrocardiography in myocardial infarction - Wikipedia
Fonte: WikiVolunteer / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Causas e transmissão

A SCA é quase sempre consequência da doença arterial coronariana aterosclerótica. O evento agudo é precipitado por:

  • Ruptura ou erosão de placa aterosclerótica instável com trombose local
  • Vasoespasmo coronariano (angina de Prinzmetal)
  • Dissecção espontânea de artéria coronária (SCAD), mais comum em mulheres jovens
  • Embolia coronariana (rara)
  • Demanda metabólica aumentada em coronárias fixamente obstruídas (SCA tipo 2)

Fatores de risco clássicos:

  • Hipertensão arterial sistêmica
  • Diabetes mellitus
  • Dislipidemia
  • Tabagismo
  • Idade avançada e sexo masculino (ou mulher pós-menopausa)
  • Histórico familiar de coronariopatia precoce
  • Obesidade e sedentarismo

Classificação e formas

A classificação prática divide-se conforme o ECG inicial e a troponina:

Por achado eletrocardiográfico

  • Com supradesnivelamento de ST (IAMCSST): supra ≥ 1 mm em duas derivações contíguas dos membros, ou ≥ 2 mm em precordiais; bloqueio de ramo esquerdo novo; padrão de De Winter. Requer reperfusão imediata.
  • Sem supradesnivelamento de ST (SCASST): inclui AI e IAMSSST; conduta guiada por estratificação de risco.

Por troponina

  • AI: troponina negativa (sem necrose)
  • IAMSSST: troponina positiva (há necrose, mas fluxo coronariano parcialmente preservado)

Sintomas e manifestações clínicas

O quadro clínico típico inclui:

  • Dor precordial em aperto, queimação ou pressão, de início geralmente em repouso ou com esforço mínimo
  • Irradiação para membro superior esquerdo, mandíbula, pescoço, dorso ou epigástrio
  • Duração superior a 20 minutos (diferencia da angina estável)
  • Diaforese, náuseas, vômitos e dispneia associados
  • Sensação de morte iminente

Apresentações atípicas — mais frequentes em mulheres, idosos e diabéticos:

  • Dor epigástrica isolada
  • Dispneia como sintoma predominante
  • Fadiga intensa ou síncope
  • Ausência de dor (IAM silencioso)

Achados ao exame físico podem incluir taquicardia, hipotensão, terceira bulha (B3), crepitações pulmonares (edema agudo) e sinais de baixo débito nos casos graves.

Diagnóstico

O diagnóstico baseia-se na tríade clínica + ECG + biomarcadores, devendo ser iniciado em até 10 minutos da chegada ao serviço de emergência.

Eletrocardiograma (ECG)

  • Deve ser realizado em até 10 minutos do primeiro contato médico
  • Avaliação de supradesnivelamento de ST, infradesnivelamento, inversão de onda T, bloqueios novos
  • ECG seriado (a cada 15–30 min) se o inicial for não diagnóstico e a suspeita persistir

Biomarcadores

  • Troponina de alta sensibilidade (TnI-as ou TnT-as): exame de escolha; elevação em 1–3 h do início da necrose
  • Protocolo rápido de exclusão: coleta na chegada (0 h) e repetição em 1–3 h conforme protocolo adotado (0/1 h, 0/2 h ou 0/3 h)
  • CK-MB e mioglobina: papel secundário, utilizados em centros sem troponina de alta sensibilidade

Estratificação de risco na SCASST

  • Escore GRACE (variáveis hemodinâmicas, laboratoriais e clínicas): estratifica em baixo, intermediário e alto risco
  • Escore TIMI para SCASST: simples, aplicável na beira do leito

Exames de imagem

  • Ecocardiograma: avalia função sistólica, alterações segmentares da contratilidade e complicações mecânicas
  • Cineangiocoronariografia (cateterismo): confirma a anatomia coronariana e orienta revascularização
Algoritmo de Manejo da SCA na Emergência
Algoritmo de Manejo da SCA na Emergência

Tratamento

A conduta varia conforme o tipo de SCA, mas o objetivo central é restaurar o fluxo coronariano e limitar o dano miocárdico.

Medidas gerais imediatas (todos os tipos)

  • Monitorização contínua, acesso venoso, oxigênio suplementar apenas se SpO₂ < 90%
  • Alívio da dor: morfina IV (uso criterioso, evitar no IAMSSST por possível interferência com antiplaquetários)
  • AAS 300 mg VO em dose de ataque (mastigado)
  • Segundo antiplaquetário (ticagrelor ou clopidogrel) conforme estratégia e contraindicações
  • Anticoagulação: heparina não fracionada (HNF) ou enoxaparina conforme protocolo
  • Nitratos sublinguais para alívio da dor (contraindicado se hipotensão, uso de inibidor de PDE-5 ou infarto de VD)

IAMCSST — estratégia de reperfusão

  • ICP primária (angioplastia): tratamento de escolha quando disponível em até 120 minutos do diagnóstico (idealmente ≤ 90 min porta-balão)
  • Fibrinólise: indicada quando a ICP primária não puder ser realizada em tempo hábil; janela de até 12 h do início dos sintomas; seguida de cineangiocoronariografia em 3–24 h (estratégia fármaco-invasiva)

SCASST — estratégia invasiva

  • Alto risco (instabilidade hemodinâmica, troponina elevada, GRACE > 140, arritmias): cateterismo em < 2 h (urgente) ou < 24 h
  • Risco intermediário (GRACE 109–140): cateterismo em < 72 h
  • Baixo risco: investigação não invasiva ou cateterismo eletivo

Terapias adjuvantes

  • Betabloqueadores: iniciar nas primeiras 24 h se não houver contraindicação (disfunção grave, bradicardia, bloqueio AV, broncospasmo)
  • Inibidores da ECA (ou BRA): indicados especialmente com FEVE reduzida, hipertensão ou diabetes
  • Estatina de alta intensidade (atorvastatina 40–80 mg ou rosuvastatina 20–40 mg): iniciar o mais precocemente possível
  • Antagonistas da aldosterona: considerar em IAM com FEVE ≤ 40% e sintomas de IC ou diabetes

Prognóstico

  • A mortalidade intra-hospitalar do IAMCSST caiu significativamente com a ampliação da ICP primária e dos protocolos de reperfusão oportuna
  • Fatores de mau prognóstico: choque cardiogênico, FEVE muito reduzida, idade avançada, multiarterial, apresentação tardia
  • Complicações agudas incluem arritmias (fibrilação ventricular, BAV), insuficiência cardíaca aguda, choque cardiogênico e complicações mecânicas (ruptura de parede livre, CIV pós-IAM, regurgitação mitral aguda)
  • Acompanhamento ambulatorial com dupla antiagregação por 6–12 meses, reabilitação cardíaca e otimização dos fatores de risco são fundamentais para redução de eventos futuros

Perguntas frequentes

Quais são os principais sintomas de síndrome coronariana aguda?
O sintoma cardinal é a dor precordial em aperto ou pressão, geralmente com duração superior a 20 minutos, que pode irradiar para o braço esquerdo, mandíbula ou epigástrio. Náuseas, diaforese e dispneia são comuns. Apresentações atípicas — como dor epigástrica isolada ou fadiga intensa — ocorrem mais em mulheres, idosos e diabéticos.
Qual a diferença entre angina instável e infarto?
Na angina instável há isquemia miocárdica sem necrose detectável, ou seja, a troponina permanece negativa. No infarto (IAMSSST ou IAMCSST), ocorre necrose de células miocárdicas com elevação de troponina. O IAMCSST ainda apresenta supradesnivelamento de ST no ECG e indica oclusão coronariana total, exigindo reperfusão imediata.
Síndrome coronariana aguda tem cura?
A SCA é um evento agudo tratável, e a maioria dos pacientes sobrevive quando tratada com reperfusão oportuna e terapias adjuvantes. Contudo, a doença arterial coronariana subjacente é crônica e exige controle contínuo de fatores de risco, dupla antiagregação prolongada e reabilitação para prevenir novos eventos.
Qual o tempo-alvo para abrir a artéria no infarto com supra de ST?
O objetivo é a realização da angioplastia primária (ICP) em até 90 minutos do primeiro contato médico — denominado tempo porta-balão — ou em até 120 minutos em centros que necessitam de transferência. Quando a ICP não é viável nesse prazo, a fibrinólise deve ser realizada o mais precocemente possível, dentro de 12 horas do início dos sintomas.

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