Resumos14 jul 20264 min de leitura

Secreção Papilar

O que é, causas, diagnóstico e tratamento

mastologia

Secreção papilar: causas (galactorreia, papiloma, carcinoma), quando investigar, exames e tratamento. Guia completo para residência médica.

A secreção papilar é a saída de líquido pelo mamilo e representa um dos motivos mais frequentes de consulta em mastologia. Embora a maioria dos casos tenha origem benigna, a investigação sistemática é indispensável para afastar causas malignas, especialmente quando a secreção é espontânea, unilateral e uniorificial.

O que é Secreção Papilar?

Secreção papilar é qualquer descarga de líquido através do mamilo, espontânea ou provocada por expressão. É classificada como fisiológica quando bilateral, multiductal, provocada e de aspecto leitoso ou claro — sem necessidade de investigação aprofundada na ausência de outros sinais. Considera-se patológica quando espontânea, persistente, unilateral, uniorificial, ou de aspecto sanguinolento, serossanguinolento ou seroso transparente.

Causas e transmissão

Não há transmissão — trata-se de um sinal clínico com múltiplas etiologias:

Causas benignas

  • Papiloma intraductal solitário: causa mais comum de secreção unilateral, serosa ou sanguinolenta, em mulheres na pré-menopausa
  • Ectasia ductal: secreção espessa, multicolorida, bilateral; frequente na perimenopausa
  • Mastopatia fibrocística: secreção clara ou levemente turva, associada à dor e nodularidade cíclica
  • Galactorreia: secreção leitosa bilateral por hiperprolactinemia (adenoma hipofisário, hipotireoidismo, uso de fármacos — domperidona, metoclopramida, antipsicóticos, metildopa, opioides)
  • Papilomatose ductal (múltiplos papilomas): associada a maior risco de atipia

Causas malignas

  • Carcinoma intraductal (DCIS): pode se manifestar como secreção sanguinolenta uniorificial
  • Carcinoma invasivo: menos frequentemente associado à secreção como sintoma isolado
  • Doença de Paget do mamilo: associada a alterações eczematoides do mamilo e secreção

Fatores de risco para malignidade na secreção papilar

  • Secreção espontânea, unilateral e uniorificial
  • Aspecto sanguinolento ou serossanguinolento
  • Idade acima de 50 anos
  • Massa palpável associada
  • Mamografia ou USG com achados suspeitos

Classificação e formas

Quanto à origem

  • Fisiológica: galactorreia puerperal, manipulação excessiva, uso de fármacos
  • Patológica: lesão ductal orgânica (papiloma, ectasia avançada, carcinoma)

Quanto ao aspecto macroscópico

  • Leitosa: galactorreia
  • Serosa/amarela: ectasia ductal, papiloma, cistos
  • Sanguinolenta/serossanguinolenta: papiloma, carcinoma intraductal ou invasivo — sempre investigar
  • Purulenta/esverdeada: infecção, ectasia ductal infectada

Quanto à lateralidade e número de ductos

  • Unilateral + uniorificial → alto risco para lesão ductal orgânica (papiloma ou neoplasia)
  • Bilateral + multiorificial → favorece causa sistêmica ou fisiológica

Sintomas e manifestações clínicas

  • Saída espontânea de líquido pelo mamilo (molha a roupa ou sutiã) — sinal mais relevante
  • Secreção desencadeada apenas à expressão — menos preocupante
  • Massa palpável retroareolar (papiloma volumoso ou carcinoma)
  • Dor ou desconforto localizado no ducto afetado
  • Alterações do mamilo: retração, espessamento, eritema peripapilar (suspeito)
  • Linfonodomegalia axilar (rara; sugere carcinoma avançado)

A galactorreia pode associar-se a cefaleia, distúrbios visuais e amenorreia quando a causa é adenoma hipofisário.

Diagnóstico

Anamnese e exame físico

  • Caracterizar: espontânea ou provocada, uni/bilateral, número de orifícios, aspecto, duração
  • Pesquisar uso de fármacos e histórico hormonal
  • Expressão quadrante por quadrante para localizar o ducto emissor
  • Palpação de nódulo retroareolar

Exames laboratoriais

  • Prolactina sérica e TSH: obrigatórios em galactorreia bilateral
  • Citologia do líquido: sensibilidade limitada para malignidade; valor negativo não exclui câncer — auxiliar, não decisivo
  • Pesquisa de sangue oculto (Hemastix®): triagem rápida em consultório

Imagem

  • Mamografia: exame inicial em mulheres ≥ 35–40 anos; identifica microcalcificações, massas retroareolares
  • Ultrassonografia mamária: avalia ductos dilatados, papiloma intraductal, lesões sólidas; preferida em mulheres jovens
  • Ductografia (galactografia): mapeamento do ducto emissor — útil no planejamento cirúrgico; uso seletivo
  • Ressonância magnética das mamas: indicada em casos de imagem inconclusiva, múltiplos ductos ou planejamento pré-operatório complexo

Procedimentos

  • Core biopsy (biópsia percutânea guiada por USG): quando há lesão visível ao US
  • Microdochectomia diagnóstico-terapêutica: ressecção do ducto ou segmento ductal afetado — padrão-ouro quando não há lesão visível e secreção é patológica persistente
  • Ductoscopia: disponível em centros especializados; permite visualização direta e biópsia intraluminal
Abordagem da Secreção Papilar
Abordagem da Secreção Papilar

Tratamento

O tratamento depende da causa identificada:

Galactorreia por hiperprolactinemia

  • Suspender o fármaco causador quando possível
  • Tratar hipotireoidismo se identificado
  • Adenoma hipofisário microprolactinoma: agonistas dopaminérgicos (cabergolina, bromocriptina) — cabergolina é preferida pela melhor tolerabilidade
  • Macroadenoma ou falha clínica: avaliação neurocirúrgica

Ectasia ductal

  • Conduta expectante em casos assintomáticos
  • Antibióticos se houver componente inflamatório/infeccioso
  • Cirurgia (microdochectomia ou ducto excisão central) se refratário ou com secreção intensa

Papiloma intraductal

  • Ressecção cirúrgica (microdochectomia) é o tratamento padrão — confirma diagnóstico e é curativo
  • Core biopsy com diagnóstico de papiloma sem atipia: conduta cirúrgica ou seguimento rigoroso conforme protocolo institucional
  • Papiloma com atipia ou carcinoma in situ associado: ressecção com margem adequada

Carcinoma

  • Seguir protocolo oncológico específico (cirurgia, radioterapia, hormonioterapia, quimioterapia conforme estadiamento e biologia tumoral)

Prognóstico

A grande maioria das secreções papilares tem causa benigna e excelente prognóstico após tratamento adequado. O papiloma intraductal solitário sem atipia não confere risco aumentado significativo de carcinoma. Papilomatose múltipla com atipia associada eleva moderadamente o risco e requer seguimento prolongado. Quando a secreção é sinal de carcinoma intraductal ou invasivo, o prognóstico segue o do tumor de base — geralmente favorável quando diagnosticado precocemente.

Perguntas frequentes

Secreção papilar sanguinolenta é sempre câncer?
Não necessariamente, mas é o tipo de maior preocupação e deve ser sempre investigado. A causa mais comum de secreção sanguinolenta unilateral e uniorificial é o papiloma intraductal benigno; o carcinoma intraductal (DCIS) é responsável por uma minoria dos casos. A investigação com imagem e, quando indicado, biópsia ou microdochectomia é mandatória para diferenciar.
O que causa secreção leitosa pelo mamilo fora da gravidez?
Secreção leitosa bilateral fora do período gestacional e puerperal chama-se galactorreia e é causada principalmente por hiperprolactinemia. As causas mais comuns incluem uso de fármacos (antipsicóticos, metoclopramida, domperidona, metildopa), adenoma hipofisário produtor de prolactina e hipotireoidismo. A investigação começa com dosagem de prolactina sérica e TSH.
Quando a secreção papilar precisa de cirurgia?
A cirurgia (microdochectomia) é indicada nas secreções patológicas persistentes — espontâneas, uniorioficiais e unilatrerais — especialmente quando sanguinolentas ou quando há lesão intraductal identificada (papiloma). Serve tanto para confirmar o diagnóstico histológico quanto para tratar definitivamente a lesão ductal. Secreções fisiológicas ou por causa sistêmica tratável não requerem cirurgia.
Como se investiga a secreção papilar no consultório?
O primeiro passo é caracterizar a secreção: espontânea ou provocada, unilateral ou bilateral, número de orifícios e aspecto macroscópico. O teste de sangue oculto (Hemastix®) é rápido e útil. Em seguida solicitam-se mamografia e/ou ultrassonografia mamária conforme a faixa etária. Prolactina e TSH são obrigatórios na suspeita de galactorreia. A ductografia e a ressonância são reservadas para casos selecionados.

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