Mastalgia
O que é, causas, diagnóstico e tratamento da dor mamária
Mastalgia é a dor nas mamas, um dos sintomas mamários mais comuns. Entenda causas, tipos, como diagnosticar e as opções de tratamento.
A mastalgia — dor mamária — é a queixa de mama mais frequente na prática clínica, acometendo a maioria das mulheres em algum momento da vida reprodutiva. Embora raramente associada a malignidade, é causa relevante de ansiedade e impacto na qualidade de vida, além de ser um dos principais motivos de busca por atendimento em mastologia.
O que é Mastalgia?
Mastalgia é o termo clínico para qualquer dor localizada ou difusa na mama. Pode ser unilateral ou bilateral, contínua ou intermitente, e sua intensidade varia de leve desconforto a dor intensa que interfere nas atividades diárias e na vida sexual. Corresponde a até 70% das consultas de mastologia em alguns serviços.
Causas e transmissão
A mastalgia não é transmissível; suas causas são multifatoriais e variam conforme o tipo clínico:
- Flutuação hormonal cíclica (estrogênio e progesterona): principal mecanismo da mastalgia cíclica, com sensibilização do tecido mamário na fase lútea
- Alterações fibrocísticas: conteúdo líquido em cistos e estroma denso contribuem para a dor
- Uso de hormônios exógenos: anticoncepcionais orais, terapia hormonal e moduladores hormonais (tamoxifeno, em menor grau)
- Ingurgitamento na lactação: muito comum no puerpério
- Causas extra-mamárias (dor referida): costocondrite (síndrome de Tietze), dor musculoesquelética torácica, radiculopatia, esofagite e angina devem ser excluídas
- Mastite e abscessos: dor associada a processo inflamatório/infeccioso, geralmente com sinais flogísticos locais
- Ectasia ductal: dilatação de ductos subareolares, comum no climatério
- Neoplasia maligna: causa rara de mastalgia isolada (< 3–7% dos cânceres se apresentam apenas com dor), mas deve sempre ser considerada no raciocínio diagnóstico
- Fatores psicossociais: estresse e ansiedade modulam a percepção dolorosa
Classificação e formas
A classificação clássica divide a mastalgia em três categorias:
Mastalgia cíclica
- A mais prevalente (60–70% dos casos)
- Dor bilateral, predominantemente no quadrante superior externo e na axila
- Piora nos 7–10 dias que precedem a menstruação e alivia após o fluxo
- Acomete principalmente mulheres entre 20 e 40 anos
- Forte associação com flutuação hormonal
Mastalgia não cíclica
- Sem relação com o ciclo menstrual; pode ser constante ou intermitente
- Costuma ser unilateral e mais bem localizada
- Acomete com maior frequência mulheres na peri e pós-menopausa
- Causas: ectasia ductal, cistos, alterações fibrocísticas, trauma, pós-operatório
Dor extra-mamária (pseudomastalgia)
- Origem musculoesquelética, pleural, cardíaca ou esofágica com irradiação para a mama
- O exame físico localiza a origem fora do tecido mamário (ponto-gatilho costal, por exemplo)
Sintomas e manifestações clínicas
- Dor em queimação, peso ou pontada nas mamas
- Sensação de ingurgitamento ou tensão mamária
- Hipersensibilidade ao toque e ao movimento (uso de sutiã, atividade física)
- Na mastalgia cíclica: piora pré-menstrual e alívio espontâneo após a menstruação
- Na mastalgia não cíclica: dor contínua ou em crises, sem padrão menstrual claro
- Nódulo, descarga papilar, eritema ou calor local sugerem diagnóstico diferencial (mastite, tumor)
Diagnóstico
O diagnóstico de mastalgia é essencialmente clínico, mas o raciocínio deve sempre excluir causas secundárias e malignidade.
Anamnese
- Caracterização da dor (tipo, localização, intensidade — escala visual analógica —, duração, relação com o ciclo menstrual)
- Uso de medicamentos hormonais
- Histórico de trauma, cirurgia mamária ou gestação/lactação
- Fatores de risco para câncer de mama
Exame físico
- Palpação cuidadosa das mamas e axilas para identificar nódulos, espessamentos ou descarga
- Palpação da parede torácica para afastar costocondrite (dor reproduzível à palpação costal)
Exames de imagem
- Ultrassonografia mamária: indicada em mulheres < 35–40 anos ou quando há achado focal; avalia cistos, nódulos e alterações fibrocísticas
- Mamografia: indicada na faixa etária de rastreamento ou na suspeita de lesão; raramente altera a conduta na mastalgia pura sem nódulo
- Ressonância magnética: não é indicação rotineira para mastalgia
Quando investigar malignidade
- Dor localizada persistente, unilateral, progressiva
- Nódulo palpável ou imagem suspeita associada
- Descarga papilar sanguinolenta
- Linfadenopatia axilar ipsilateral
Tratamento
A maioria das mulheres com mastalgia cíclica melhora com medidas conservadoras; o tratamento medicamentoso é reservado para casos moderados a graves.
Medidas conservadoras (primeira linha)
- Suporte mecânico adequado: sutiã com bom suporte, inclusive durante atividades físicas e à noite — reduz a mobilização do parênquima e alivia a dor em muitas pacientes
- Orientação e reaseguramento: explicar a natureza benigna da mastalgia tem impacto terapêutico significativo; estudos mostram resolução espontânea em até 85% das mastalgia cíclicas em 3 meses com apenas orientação
- Diário de dor: auxilia na confirmação do padrão cíclico e no monitoramento da resposta ao tratamento
- Modificações de estilo de vida: redução do consumo de cafeína e gorduras saturadas (evidência limitada, mas sem risco)
- Anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) tópicos: diclofenaco gel tópico tem evidência consistente para alívio local com mínimos efeitos sistêmicos — opção eficaz e segura
- AINEs orais: úteis em crises, por período limitado
Tratamento medicamentoso (segunda linha)
- Danazol: androgênio sintético com maior nível de evidência; eficaz na mastalgia cíclica e não cíclica grave. Efeitos adversos androgênicos (acne, irregularidade menstrual, ganho de peso) limitam o uso prolongado. Geralmente utilizado em ciclos curtos
- Bromocriptina: agonista dopaminérgico que reduz a prolactina; eficácia modesta, com perfil de efeitos adversos (náuseas, hipotensão) que frequentemente limita a adesão
- Tamoxifeno tópico ou oral: modulador seletivo do receptor de estrogênio; evidências favoráveis para a forma cíclica; uso oral restrito a casos refratários pelo perfil de risco
- Ácido graxo gama-linolênico (óleo de prímula): evidências fracas; pode ser considerado como adjuvante
Situações específicas
- Mastalgia na lactação: ordenha regular, suporte mamário, AINEs; se mastite confirmada, antibiótico (cefalexina como primeira escolha)
- Mastalgia por anticoncepcionais: avaliar troca de formulação ou método contraceptivo
- Dor extra-mamária: tratar a causa de base (fisioterapia, AINE, bloqueio anestésico local na costocondrite refratária)
Prognóstico
- A mastalgia cíclica tem resolução espontânea em proporção relevante dos casos, especialmente com o suporte adequado
- Recorrências são comuns, mas a condição não aumenta o risco de câncer de mama
- A mastalgia não cíclica tende a ser mais persistente e de resposta mais variável ao tratamento
- A exclusão de malignidade tem papel fundamental no prognóstico subjetivo da paciente: o diagnóstico de benignidade, comunicado com clareza, frequentemente resulta em melhora significativa da percepção dolorosa
Perguntas frequentes
- Mastalgia tem cura?
- A mastalgia cíclica resolve espontaneamente em grande parte das pacientes, especialmente com suporte mecânico adequado e orientação. Casos recorrentes podem necessitar de tratamento medicamentoso, mas a condição é benigna e não aumenta o risco de câncer de mama.
- Dor na mama pode ser sinal de câncer?
- Mastalgia isolada raramente é a manifestação inicial de câncer de mama — menos de 7% dos tumores se apresentam apenas com dor. No entanto, dor unilateral localizada, progressiva, associada a nódulo, descarga papilar ou linfadenopatia axlar requer investigação com imagem e avaliação especializada.
- Qual o melhor remédio para mastalgia?
- Medidas conservadoras — sutiã com bom suporte e AINEs tópicos (diclofenaco gel) — são a primeira linha. Em casos graves ou refratários, o danazol é o medicamento com maior evidência de eficácia, mas seus efeitos adversos androgênicos limitam o uso prolongado.
- Mastalgia piora antes da menstruação?
- Sim, a forma mais comum é a mastalgia cíclica, que se intensifica nos 7 a 10 dias que antecedem o fluxo menstrual e alivia logo após o início da menstruação, em razão da flutuação hormonal (estrogênio e progesterona) ao longo do ciclo.