Resumos03 ago 20264 min de leitura

Doença Mão-Pé-Boca e Herpangina

O que é, sintomas, diagnóstico e tratamento em crianças

pediatria

Doença mão-pé-boca e herpangina: causas, sintomas, diagnóstico e tratamento. Guia completo para estudantes de medicina e residência.

Doença mão-pé-boca e herpangina são infecções virais agudas, predominantemente pediátricas, causadas por enterovírus do gênero Enterovirus. Ambas têm caráter autolimitado, mas merecem atenção clínica pela elevada transmissibilidade e, em casos raros, pela possibilidade de complicações neurológicas graves.

O que é doença mão-pé-boca e herpangina?

Doença mão-pé-boca (DMPB) e herpangina são síndromes clínicas distintas causadas pelos mesmos agentes virais, diferindo principalmente na distribuição e morfologia das lesões.

  • Doença mão-pé-boca: síndrome febril aguda caracterizada por lesões vesiculosas na mucosa oral, palmas das mãos, plantas dos pés e, eventualmente, nádegas e genitais. O nome descreve exatamente a distribuição das lesões.

  • Herpangina: enantema vesiculoso e ulcerativo restrito à orofaringe posterior (palato mole, úvula, pilares amigdalianos), acompanhado de febre e odinofagia intensa. Apesar do nome, não é causada pelo vírus herpes.

Ambas afetam principalmente crianças menores de 10 anos, com pico em lactentes e pré-escolares. Epidemias ocorrem sobretudo no verão e outono em países temperados; no Brasil, casos ocorrem ao longo do ano com aumento no período chuvoso.

Causas e transmissão

Agentes etiológicos

  • Doença mão-pé-boca: Coxsackievirus A16 é o sorotipo clássico; Enterovirus A71 (EV-A71) está associado a formas graves com complicações neurológicas. Outros sorotipos (A6, A10) também causam a doença.

  • Herpangina: Coxsackievirus grupo A (sorotipos A1–A6, A8, A10, A22), Coxsackievirus B e Echovírus.

Transmissão

  • Fecal-oral (principal via): contato com fezes contaminadas, superfícies e fômites.

  • Contato direto com secreções de lesões vesiculosas e gotículas respiratórias.

  • Período de incubação: 3 a 7 dias.

  • Período de transmissibilidade maior na primeira semana de doença; o vírus pode ser excretado nas fezes por semanas após a resolução clínica.

Classificação e formas

Doença mão-pé-boca

  • Forma típica: lesões vesiculosas em boca, mãos e pés, febre baixa, evolução benigna em 7–10 dias.

  • Forma atípica/grave: associada ao EV-A71; pode cursar com exantema extenso (inclusive tronco), e evolução para complicações neurológicas (encefalite rombencefálica, meningite asséptica, paralisia flácida aguda) e edema pulmonar neurogênico.

  • Onicopatia pós-viral (síndrome de Beau): queda de unhas (onicomadese) semanas após a infecção — achado benigno, sem necessidade de tratamento.

Herpangina

  • Apresentação uniforme: febre alta súbita + úlceras na orofaringe posterior. Complicações graves são raras.

Sintomas e manifestações clínicas

Doença mão-pé-boca

  • Pródromo de 1–2 dias: febre (geralmente 38–39 °C), mal-estar, anorexia e dor de garganta.

  • Lesões orais: vesículas e úlceras dolorosas na mucosa jugal, língua, palato e gengivas — causam recusa alimentar e sialorreia.

  • Lesões cutâneas: pápulas e vesículas elípticas, não pruriginosas, nas palmas, plantas, dedos das mãos e pés; podem surgir nas nádegas e região genital.

  • Resolução espontânea em 7–10 dias.

  • Sinal de alerta para forma grave (EV-A71): febre alta persistente (> 3 dias), vômitos, letargia, mioclonias, tremores, ataxia, taquicardia ou taquipneia desproporcional.

Herpangina

  • Febre de início abrupto, frequentemente alta (39–40 °C).

  • Odinofagia intensa, disfagia, recusa alimentar, sialorreia.

  • Lesões características: 2–12 vesículas pequenas que evoluem para úlceras com halo eritematoso na orofaringe posterior (palato mole, úvula, pilares amigdalianos). NÃO há lesões em palmas e plantas.

  • Resolução em 5–7 dias.

Diagnóstico

O diagnóstico de ambas as condições é essencialmente clínico, baseado no padrão das lesões e na epidemiologia.

Critérios clínicos

  • DMPB: febre + vesículas em boca + lesões nas extremidades (mãos e pés).

  • Herpangina: febre + vesículas/úlceras exclusivamente na orofaringe posterior.

Diagnóstico laboratorial (quando indicado)

  • Reservado a casos graves, atípicos ou com suspeita de complicação neurológica.

  • PCR para enterovírus em swab de vesícula, fezes, liquor ou sangue.

  • Cultura viral (menor disponibilidade, resultado tardio).

  • Hemograma: geralmente inespecífico; leucocitose leve pode ocorrer.

  • LCR (punção lombar): indicada se sinais de meningite/encefalite — pleocitose linfocítica, proteína levemente elevada, glicose normal (padrão de meningite viral).

  • Neuroimagem (RM): se suspeita de encefalite — pode evidenciar acometimento do tronco encefálico (encefalite rombencefálica) nos casos por EV-A71.

Diagnóstico diferencial

  • DMPB: varicela (vesículas em diferentes estágios, distribuição centrípeta), herpes simples (lesões gengivobucais, sem lesões em extremidades).

  • Herpangina: faringoamigdalite estreptocócica (exsudato, sem vesículas), estomatite herpética primária (lesões anteriores na boca, gengivite).

Avaliação e conduta na doença mão-pé-boca

Avaliação e conduta na doença mão-pé-boca

Tratamento

Não existe antiviral específico aprovado para enterovírus em crianças imunocompetentes. O tratamento é sintomático e de suporte.

Medidas gerais

  • Hidratação oral adequada — oferecer líquidos frios, alimentos pastosos e frios para aliviar a dor oral.

  • Analgesia/antipirexia: paracetamol (10–15 mg/kg/dose a cada 4–6 h) ou ibuprofeno (5–10 mg/kg/dose a cada 6–8 h).

  • Não usar ácido acetilsalicílico em crianças (risco de síndrome de Reye).

  • Anti-histamínicos e anestésicos tópicos orais podem ser usados com cautela para alívio da dor nas úlceras.

Critérios de hospitalização

  • Desidratação por recusa alimentar intensa.

  • Febre alta persistente (> 3 dias) ou piora clínica após melhora inicial.

  • Sinais neurológicos: letargia, convulsões, ataxia, mioclonias, paralisia.

  • Insuficiência respiratória ou instabilidade hemodinâmica (edema pulmonar neurogênico — raro, associado a EV-A71).

Forma grave (EV-A71 com complicações)

  • Suporte intensivo em UTI pediátrica.

  • Imunoglobulina intravenosa (IVIG) tem sido utilizada em casos de encefalite grave, embora a evidência seja limitada.

  • Não há antiviral de eficácia comprovada; estudos com pleconaril e fluoxetina (atividade antiviral in vitro) não resultaram em aprovação formal.

Prevenção

  • Medidas de higiene: lavagem rigorosa das mãos com água e sabão (o álcool gel tem eficácia limitada contra enterovírus não envelopados), especialmente após troca de fraldas e antes de preparar alimentos.

  • Isolamento domiciliar: crianças sintomáticas devem ser afastadas de creches e escolas até resolução da febre e das lesões abertas (geralmente 5–7 dias).

  • Desinfecção de superfícies: hipoclorito de sódio é eficaz contra enterovírus.

  • Vacina: uma vacina inativada contra EV-A71 está disponível na China desde 2016 e tem demonstrado eficácia na prevenção de formas graves; ainda não disponível no Brasil.

  • Não há imunidade cruzada entre sorotipos, portanto reinfecções por vírus diferentes são possíveis.

Perguntas frequentes

Doença mão-pé-boca tem cura? Quanto tempo dura?
Sim, a doença mão-pé-boca tem resolução espontânea na grande maioria dos casos. As lesões e a febre regridem em 7 a 10 dias sem necessidade de antiviral. O tratamento é sintomático, com analgésicos e hidratação.
Qual a diferença entre doença mão-pé-boca e herpangina?
Ambas são causadas por enterovírus, mas diferem na distribuição das lesões. Na doença mão-pé-boca, as vesículas aparecem na boca, palmas das mãos e plantas dos pés. Na herpangina, as lesões ficam restritas à orofaringe posterior (palato mole e úvula), sem envolver extremidades.
Criança com mão-pé-boca pode ir para a escola?
Não durante a fase aguda. A criança deve ser afastada de creches e escolas até a resolução da febre e das lesões abertas, o que geralmente ocorre em 5 a 7 dias. O vírus continua sendo excretado nas fezes por semanas, por isso a higiene das mãos permanece importante após a recuperação.
Quando devo levar a criança ao hospital por causa de mão-pé-boca?
Procure atendimento se a criança apresentar febre alta por mais de 3 dias, recusa total de líquidos com sinais de desidratação, letargia, convulsões, tremores, ataxia ou dificuldade respiratória. Esses achados podem indicar complicação neurológica ou pulmonar, associada especialmente ao Enterovirus A71.

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