ITU na Gestação
Bacteriúria assintomática, cistite e pielonefrite na gravidez: diagnóstico e tratamento
ITU na gestação: reconheça bacteriúria assintomática, cistite e pielonefrite, saiba como diagnosticar e tratar com segurança na gravidez.
A infecção do trato urinário (ITU) é uma das complicações infecciosas mais frequentes na gravidez, acometendo cerca de 8–10% das gestantes. A imunossupressão fisiológica, a estase urinária provocada pelo útero gravídico e as alterações anatômicas da gestação aumentam a suscetibilidade à infecção e ao risco de progressão para formas graves. O rastreio e o tratamento precoces são fundamentais para reduzir desfechos adversos maternos e perinatais.
O que é ITU na Gestação?
ITU na gestação é a colonização e multiplicação bacteriana em qualquer segmento do trato urinário (uretra, bexiga ou rins) durante a gravidez. Ela engloba três entidades clínicas com gravidade e conduta distintas:
- Bacteriúria assintomática (BA): presença de bactérias em concentração significativa na urina sem sintomas clínicos.
- Cistite aguda: infecção sintomática restrita à bexiga.
- Pielonefrite aguda: infecção do parênquima renal, a forma mais grave e potencialmente ameaçadora ao binômio mãe-feto.
Causas e transmissão
Agentes etiológicos
- Escherichia coli: responsável por 70–85% dos casos.
- Klebsiella pneumoniae, Proteus mirabilis, Enterococcus faecalis: causas menos frequentes.
- Streptococcus agalactiae (Streptococcus do Grupo B): agente relevante pela possibilidade de colonização vaginal e transmissão neonatal.
Fatores de risco
- Estase urinária por compressão ureteral (especialmente à direita pela dextrorrotação uterina)
- Glicosúria e aminoacidúria fisiológicas da gestação (favorecem crescimento bacteriano)
- Refluxo vesicoureteral
- ITU de repetição pré-gestacional
- Baixo nível socioeconômico e acesso limitado ao pré-natal
- Diabetes mellitus
- Anemia falciforme
Classificação e formas
Bacteriúria assintomática
- Definida por ≥ 100.000 UFC/mL de um único uropatógeno em urocultura de jato médio, em duas amostras consecutivas, sem sintomas.
- Ocorre em 2–10% das gestantes.
- Sem tratamento, 20–40% evoluem para pielonefrite.
Cistite aguda
- Sintomas urinários baixos sem febre ou sinais de comprometimento sistêmico.
- Pode ocorrer mesmo após tratamento adequado da BA.
Pielonefrite aguda
- Ocorre em 1–2% das gestantes, mais frequentemente no 2.º e 3.º trimestres.
- Forma grave associada a risco de sepse, insuficiência respiratória (lesão pulmonar aguda por endotoxinas) e parto prematuro.
Sintomas e manifestações clínicas
Bacteriúria assintomática
- Ausência de sintomas (diagnóstico laboratorial exclusivo)
Cistite aguda
- Disúria, polaciúria, urgência miccional
- Dor suprapúbica
- Ausência de febre
- Pode haver hematúria
Pielonefrite aguda
- Febre (≥ 38 °C), calafrios
- Dor lombar intensa, geralmente unilateral (mais comum à direita)
- Punho-percussão lombar positiva
- Náuseas e vômitos
- Pode cursar com contrações uterinas e ameaça de parto prematuro
- Em casos graves: hipotensão, taquicardia, sinais de sepse
Diagnóstico
Rastreio obrigatório
- Urocultura de rotina na 1.ª consulta pré-natal (ideal entre 12–16 semanas) para todas as gestantes — conduta preconizada pelo Ministério da Saúde e pela FEBRASGO.
- Repetir em caso de ITU prévia ou fatores de risco.
Exames
- Urocultura com antibiograma: padrão-ouro. Critério diagnóstico: ≥ 100.000 UFC/mL para BA e cistite assintomática; ≥ 10.000 UFC/mL com sintomas sugestivos.
- EAS (urina tipo I): leucocitúria, nitrito positivo e hematúria orientam a suspeita, mas não substituem a urocultura.
- Hemograma, PCR, creatinina e urocultura: obrigatórios na suspeita de pielonefrite.
- Hemocultura: colher em pielonefrite com síndrome febril expressiva (positividade em ~10–15%).
- Ultrassonografia renal: indicada em pielonefrite grave, suspeita de obstrução ou ausência de melhora em 48–72 h.
Tratamento
Princípios gerais
- Sempre guiado pela urocultura e antibiograma quando disponível.
- Antibióticos seguros na gestação: nitrofurantoína (evitar no 3.º trimestre e a termo), cefalosporinas de 1.ª e 2.ª geração, amoxicilina-clavulanato, fosfomicina.
- Evitar: fluoroquinolonas (artropatia fetal), sulfametoxazol-trimetoprima no 1.º trimestre (antifolato) e próximo ao termo (kernicterus), tetraciclinas.
Bacteriúria assintomática e cistite aguda
- Tratamento ambulatorial com antibiótico oral por 5–7 dias (conforme agente e sensibilidade).
- Opções frequentemente utilizadas:
- Nitrofurantoína 100 mg (liberação prolongada) 2x/dia por 5 dias (evitar após 36 semanas)
- Cefalexina 500 mg 6/6 h por 7 dias
- Fosfomicina 3 g dose única (para cistite não complicada)
- Urocultura de controle 7–14 dias após o término do tratamento.
- ITU de repetição (≥ 2 episódios): considerar antibioticoprofilaxia até o final da gestação (ex.: nitrofurantoína 50–100 mg/noite).
Pielonefrite aguda
- Internação hospitalar na maioria dos casos.
- Antibioticoterapia intravenosa inicial:
- Cefazolina 1–2 g IV 8/8 h (1.ª escolha em muitos serviços)
- Ceftriaxona 1–2 g IV 1x/dia (alternativa)
- Ampicilina + gentamicina (quando enterococo suspeito; monitorar nefrotoxicidade)
- Transição para antibiótico oral após 24–48 h afebril, completando 14 dias no total.
- Hidratação venosa, controle de diurese, monitoramento fetal.
- Urocultura de controle pós-tratamento obrigatória.
- Profilaxia secundária até o parto após o episódio de pielonefrite.
Prognóstico
- BA não tratada associa-se a pielonefrite, parto prematuro, baixo peso ao nascer e maior mortalidade perinatal — justificando o rastreio universal.
- Quando diagnosticada e tratada precocemente, a ITU na gestação tem prognóstico favorável para o binômio.
- A pielonefrite grave pode complicar com lesão renal aguda, síndrome do desconforto respiratório agudo (por endotoxemia) e choque séptico, exigindo manejo em UTI nos casos mais severos.
- Após pielonefrite, até 30% das gestantes apresentam recorrência sem profilaxia contínua.
Perguntas frequentes
- Qual antibiótico é seguro para ITU na gravidez?
- As opções mais seguras incluem cefalosporinas (cefalexina, cefazolina), nitrofurantoína (evitar no 3.º trimestre) e fosfomicina. Fluoroquinolonas e tetraciclinas são contraindicadas. O antibiograma deve sempre guiar a escolha definitiva.
- A bacteriúria assintomática precisa ser tratada na gestação?
- Sim. Diferentemente de mulheres não grávidas, toda gestante com bacteriúria assintomática deve ser tratada, pois sem tratamento 20–40% evoluem para pielonefrite, com risco de parto prematuro e sepse. O rastreio pela urocultura é obrigatório na 1.ª consulta pré-natal.
- ITU na gravidez pode causar parto prematuro?
- Sim. A infecção urinária, especialmente a pielonefrite, está associada a contrações uterinas e aumento do risco de parto prematuro. Por isso, o diagnóstico e o tratamento precoces são essenciais durante todo o pré-natal.
- Como é feito o diagnóstico de ITU na gestante?
- O padrão-ouro é a urocultura com antibiograma. O EAS (urina tipo I) orienta a suspeita, mas não substitui a cultura. O rastreio universal por urocultura deve ser feito na 1.ª consulta pré-natal para todas as gestantes.