Resumos03 ago 20264 min de leitura

ITU na Gestação

Bacteriúria assintomática, cistite e pielonefrite na gravidez: diagnóstico e tratamento

obstetricia

ITU na gestação: reconheça bacteriúria assintomática, cistite e pielonefrite, saiba como diagnosticar e tratar com segurança na gravidez.

A infecção do trato urinário (ITU) é uma das complicações infecciosas mais frequentes na gravidez, acometendo cerca de 8–10% das gestantes. A imunossupressão fisiológica, a estase urinária provocada pelo útero gravídico e as alterações anatômicas da gestação aumentam a suscetibilidade à infecção e ao risco de progressão para formas graves. O rastreio e o tratamento precoces são fundamentais para reduzir desfechos adversos maternos e perinatais.

O que é ITU na Gestação?

ITU na gestação é a colonização e multiplicação bacteriana em qualquer segmento do trato urinário (uretra, bexiga ou rins) durante a gravidez. Ela engloba três entidades clínicas com gravidade e conduta distintas:

  • Bacteriúria assintomática (BA): presença de bactérias em concentração significativa na urina sem sintomas clínicos.
  • Cistite aguda: infecção sintomática restrita à bexiga.
  • Pielonefrite aguda: infecção do parênquima renal, a forma mais grave e potencialmente ameaçadora ao binômio mãe-feto.

Causas e transmissão

Agentes etiológicos

  • Escherichia coli: responsável por 70–85% dos casos.
  • Klebsiella pneumoniae, Proteus mirabilis, Enterococcus faecalis: causas menos frequentes.
  • Streptococcus agalactiae (Streptococcus do Grupo B): agente relevante pela possibilidade de colonização vaginal e transmissão neonatal.

Fatores de risco

  • Estase urinária por compressão ureteral (especialmente à direita pela dextrorrotação uterina)
  • Glicosúria e aminoacidúria fisiológicas da gestação (favorecem crescimento bacteriano)
  • Refluxo vesicoureteral
  • ITU de repetição pré-gestacional
  • Baixo nível socioeconômico e acesso limitado ao pré-natal
  • Diabetes mellitus
  • Anemia falciforme

Classificação e formas

Bacteriúria assintomática

  • Definida por ≥ 100.000 UFC/mL de um único uropatógeno em urocultura de jato médio, em duas amostras consecutivas, sem sintomas.
  • Ocorre em 2–10% das gestantes.
  • Sem tratamento, 20–40% evoluem para pielonefrite.

Cistite aguda

  • Sintomas urinários baixos sem febre ou sinais de comprometimento sistêmico.
  • Pode ocorrer mesmo após tratamento adequado da BA.

Pielonefrite aguda

  • Ocorre em 1–2% das gestantes, mais frequentemente no 2.º e 3.º trimestres.
  • Forma grave associada a risco de sepse, insuficiência respiratória (lesão pulmonar aguda por endotoxinas) e parto prematuro.

Sintomas e manifestações clínicas

Bacteriúria assintomática

  • Ausência de sintomas (diagnóstico laboratorial exclusivo)

Cistite aguda

  • Disúria, polaciúria, urgência miccional
  • Dor suprapúbica
  • Ausência de febre
  • Pode haver hematúria

Pielonefrite aguda

  • Febre (≥ 38 °C), calafrios
  • Dor lombar intensa, geralmente unilateral (mais comum à direita)
  • Punho-percussão lombar positiva
  • Náuseas e vômitos
  • Pode cursar com contrações uterinas e ameaça de parto prematuro
  • Em casos graves: hipotensão, taquicardia, sinais de sepse

Diagnóstico

Rastreio obrigatório

  • Urocultura de rotina na 1.ª consulta pré-natal (ideal entre 12–16 semanas) para todas as gestantes — conduta preconizada pelo Ministério da Saúde e pela FEBRASGO.
  • Repetir em caso de ITU prévia ou fatores de risco.

Exames

  • Urocultura com antibiograma: padrão-ouro. Critério diagnóstico: ≥ 100.000 UFC/mL para BA e cistite assintomática; ≥ 10.000 UFC/mL com sintomas sugestivos.
  • EAS (urina tipo I): leucocitúria, nitrito positivo e hematúria orientam a suspeita, mas não substituem a urocultura.
  • Hemograma, PCR, creatinina e urocultura: obrigatórios na suspeita de pielonefrite.
  • Hemocultura: colher em pielonefrite com síndrome febril expressiva (positividade em ~10–15%).
  • Ultrassonografia renal: indicada em pielonefrite grave, suspeita de obstrução ou ausência de melhora em 48–72 h.
Abordagem da ITU na Gestação
Abordagem da ITU na Gestação

Tratamento

Princípios gerais

  • Sempre guiado pela urocultura e antibiograma quando disponível.
  • Antibióticos seguros na gestação: nitrofurantoína (evitar no 3.º trimestre e a termo), cefalosporinas de 1.ª e 2.ª geração, amoxicilina-clavulanato, fosfomicina.
  • Evitar: fluoroquinolonas (artropatia fetal), sulfametoxazol-trimetoprima no 1.º trimestre (antifolato) e próximo ao termo (kernicterus), tetraciclinas.

Bacteriúria assintomática e cistite aguda

  • Tratamento ambulatorial com antibiótico oral por 5–7 dias (conforme agente e sensibilidade).
  • Opções frequentemente utilizadas:
    • Nitrofurantoína 100 mg (liberação prolongada) 2x/dia por 5 dias (evitar após 36 semanas)
    • Cefalexina 500 mg 6/6 h por 7 dias
    • Fosfomicina 3 g dose única (para cistite não complicada)
  • Urocultura de controle 7–14 dias após o término do tratamento.
  • ITU de repetição (≥ 2 episódios): considerar antibioticoprofilaxia até o final da gestação (ex.: nitrofurantoína 50–100 mg/noite).

Pielonefrite aguda

  • Internação hospitalar na maioria dos casos.
  • Antibioticoterapia intravenosa inicial:
    • Cefazolina 1–2 g IV 8/8 h (1.ª escolha em muitos serviços)
    • Ceftriaxona 1–2 g IV 1x/dia (alternativa)
    • Ampicilina + gentamicina (quando enterococo suspeito; monitorar nefrotoxicidade)
  • Transição para antibiótico oral após 24–48 h afebril, completando 14 dias no total.
  • Hidratação venosa, controle de diurese, monitoramento fetal.
  • Urocultura de controle pós-tratamento obrigatória.
  • Profilaxia secundária até o parto após o episódio de pielonefrite.

Prognóstico

  • BA não tratada associa-se a pielonefrite, parto prematuro, baixo peso ao nascer e maior mortalidade perinatal — justificando o rastreio universal.
  • Quando diagnosticada e tratada precocemente, a ITU na gestação tem prognóstico favorável para o binômio.
  • A pielonefrite grave pode complicar com lesão renal aguda, síndrome do desconforto respiratório agudo (por endotoxemia) e choque séptico, exigindo manejo em UTI nos casos mais severos.
  • Após pielonefrite, até 30% das gestantes apresentam recorrência sem profilaxia contínua.

Perguntas frequentes

Qual antibiótico é seguro para ITU na gravidez?
As opções mais seguras incluem cefalosporinas (cefalexina, cefazolina), nitrofurantoína (evitar no 3.º trimestre) e fosfomicina. Fluoroquinolonas e tetraciclinas são contraindicadas. O antibiograma deve sempre guiar a escolha definitiva.
A bacteriúria assintomática precisa ser tratada na gestação?
Sim. Diferentemente de mulheres não grávidas, toda gestante com bacteriúria assintomática deve ser tratada, pois sem tratamento 20–40% evoluem para pielonefrite, com risco de parto prematuro e sepse. O rastreio pela urocultura é obrigatório na 1.ª consulta pré-natal.
ITU na gravidez pode causar parto prematuro?
Sim. A infecção urinária, especialmente a pielonefrite, está associada a contrações uterinas e aumento do risco de parto prematuro. Por isso, o diagnóstico e o tratamento precoces são essenciais durante todo o pré-natal.
Como é feito o diagnóstico de ITU na gestante?
O padrão-ouro é a urocultura com antibiograma. O EAS (urina tipo I) orienta a suspeita, mas não substitui a cultura. O rastreio universal por urocultura deve ser feito na 1.ª consulta pré-natal para todas as gestantes.

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