Resumos13 jul 20264 min de leitura

Insuficiência Mitral

O que é, causas, sintomas, diagnóstico e tratamento

cardiologia

Insuficiência mitral: causas, classificação (aguda e crônica), sintomas, métodos diagnósticos e opções de tratamento clínico e cirúrgico.

A insuficiência mitral (IM) é uma das valvopatias mais prevalentes na prática clínica, caracterizada pelo refluxo de sangue do ventrículo esquerdo para o átrio esquerdo durante a sístole. Pode evoluir de forma insidiosa por anos ou se apresentar como emergência hemodinâmica, dependendo da etiologia e da velocidade de instalação.

O que é Insuficiência Mitral?

A IM ocorre quando a valva mitral não coapta adequadamente durante a sístole ventricular, permitindo regurgitação retrógrada para o átrio esquerdo. Esse volume regurgitante gera sobrecarga de volume progressiva no átrio e no ventrículo esquerdos, levando a remodelamento cardíaco e, eventualmente, disfunção sistólica e hipertensão pulmonar.

A IM é classificada funcionalmente pela classificação de Carpentier:

  • Tipo I: movimento normal dos folhetos (ex.: perfuração por endocardite)
  • Tipo II: prolapso/excesso de movimento (ex.: ruptura de cordoalha)
  • Tipo III: movimento restrito (IIIa = restrição na diástole; IIIb = restrição na sístole, como na IM isquêmica)

Causas e Transmissão

As causas variam conforme a forma de apresentação:

Insuficiência mitral crônica

  • Prolapso da valva mitral (PVM): causa mais comum em países desenvolvidos; degeneração mixomatosa dos folhetos
  • Doença reumática: principal etiologia em países em desenvolvimento
  • Calcificação do anel mitral: frequente em idosos e em pacientes com insuficiência renal crônica
  • Cardiomiopatia dilatada: distorção geométrica do aparato subvalvar
  • IM isquêmica crônica: disfunção ou deslocamento de músculo papilar pós-infarto

Insuficiência mitral aguda

  • Ruptura de cordoalha tendínea (PVM, endocardite, trauma)
  • Ruptura de músculo papilar pós-IAM (especialmente IAM inferior/posterior)
  • Endocardite infecciosa com destruição de folheto
  • Disfunção aguda de prótese mitral

Classificação e Formas

A distinção entre IM aguda e IM crônica é fundamental por suas diferenças fisiopatológicas e de manejo:

IM aguda

  • Átrio esquerdo sem tempo para adaptação → hipertensão venoatrial abrupta
  • Edema pulmonar agudo com ventrículo esquerdo de dimensões normais
  • Situação de emergência hemodinâmica

IM crônica compensada

  • Dilatação progressiva e excêntrica do VE (mecanismo de Frank-Starling)
  • Fração de ejeção frequentemente preservada ou supranormal (por pré-carga elevada)
  • Paciente assintomático por anos

IM crônica descompensada

  • Disfunção sistólica progressiva com queda da FEVE
  • Hipertensão pulmonar, fibrilação atrial e sintomas de IC
  • Marcador de mau prognóstico; indica intervenção

Sintomas e Manifestações Clínicas

IM crônica

  • Dispneia aos esforços (sintoma mais precoce)
  • Ortopneia e dispneia paroxística noturna
  • Fadiga e intolerância ao exercício
  • Palpitações (frequentemente associadas à fibrilação atrial)
  • Em fases avançadas: sinais de insuficiência cardíaca direita (edema, hepatomegalia, ascite)

IM aguda

  • Edema agudo de pulmão súbito e grave
  • Hipotensão e choque cardiogênico
  • Sopro sistólico novo, podendo ser de baixa intensidade (gradient pequeno na IM aguda)

Exame físico

  • Sopro holossistólico em foco mitral, com irradiação para axila (típico da IM orgânica)
  • Sopro sistólico tardio com ou sem clique médio-sistólico (prolapso)
  • B3 presente na IM significativa (disfunção ou sobrecarga volumétrica)
  • Ictus cordis desviado para a esquerda (cardiomegalia com dilatação de VE)

Diagnóstico

O diagnóstico combina dados clínicos, eletrocardiograma, radiografia de tórax e, principalmente, ecocardiografia.

Ecocardiograma Doppler (exame fundamental)

  • Quantifica a gravidade da IM (leve, moderada, grave) por múltiplos parâmetros:
    • EROA (área do orifício regurgitante efetivo): ≥ 0,40 cm² = IM grave (primária)
    • Volume regurgitante: ≥ 60 mL/batimento = IM grave
    • Fração regurgitante: ≥ 50% = IM grave
  • Avalia morfologia dos folhetos, aparato subvalvar e repercussão sobre câmaras
  • Diâmetro sistólico do VE (DSVE) ≥ 40 mm = critério cirúrgico mesmo em assintomático
  • FEVE ≤ 60% = critério de intervenção (equivale a disfunção na IM, dado o contexto de sobrecarga)

Outros exames

  • ECG: sobrecarga atrial esquerda, fibrilação atrial, sinais de hipertrofia de VE
  • Radiografia de tórax: cardiomegalia, aumento de átrio esquerdo, redistribuição vascular
  • Cateterismo cardíaco: reservado para avaliação de doença arterial coronariana pré-operatória ou quando há discordância clínico-ecocardiográfica
  • Ressonância magnética cardiovascular: quantificação precisa quando o ecocardiograma é inconclusivo

Tratamento

IM aguda

  • Emergência médica: estabilização hemodinâmica imediata
  • Vasodilatadores venosos e arteriais (nitroprussiato de sódio IV) para reduzir pós-carga e volume regurgitante
  • Balão intra-aórtico de contrapulsação em choque refratário como ponte para cirurgia
  • Cirurgia de urgência é a conduta definitiva

IM crônica — tratamento clínico

  • Não há fármaco que retarde a progressão ou substitua a cirurgia em pacientes com indicação
  • IECA/BRA e betabloqueadores: indicados quando há disfunção de VE associada (FEVE reduzida) ou no manejo da IC
  • Controle da frequência cardíaca: em pacientes com FA associada
  • Anticoagulação: obrigatória na FA (score CHA₂DS₂-VASc)
  • Diuréticos para controle de congestão sintomática

IM crônica — indicações cirúrgicas (IM primária grave, diretrizes ESC/AHA)

Cirurgia é indicada nas seguintes situações:

  • Sintomático com FEVE > 30%
  • Assintomático com FEVE ≤ 60% e/ou DSVE ≥ 40 mm
  • Assintomático com FEVE preservada e FA de início recente ou PSAP > 50 mmHg em repouso
  • Assintomático com alta probabilidade de reparo durável e mortalidade cirúrgica baixa

Modalidade cirúrgica

  • Plastia mitral (reparo): preferida sempre que tecnicamente factível; menor mortalidade, preservação da função ventricular, dispensando anticoagulação permanente
  • Troca valvar: quando o reparo não é viável; prótese biológica ou mecânica conforme idade e perfil de coagulação
  • MitraClip (reparo transcateter borda-a-borda): em IM secundária grave sintomática refratária ao tratamento clínico otimizado, com anatomia favorável e alto risco cirúrgico (critérios COAPT)
Algoritmo de Manejo da Insuficiência Mitral Primária Grave
Algoritmo de Manejo da Insuficiência Mitral Primária Grave

Prognóstico

  • IM crônica leve a moderada com função ventricular preservada tem prognóstico favorável com seguimento regular
  • IM grave assintomática com VE normal tem risco anual de eventos (morte, IC, FA) de aproximadamente 10% ao ano
  • FEVE pré-operatória é o principal determinante do resultado cirúrgico: FEVE < 30% associa-se a mortalidade perioperatória significativamente elevada
  • Cirurgia precoce, especialmente plastia, antes do desenvolvimento de disfunção ventricular, oferece os melhores resultados a longo prazo

Perguntas frequentes

Quais são os sintomas da insuficiência mitral?
A insuficiência mitral crônica pode cursar por anos sem sintomas. Quando surgem, os principais são dispneia aos esforços, ortopneia, fadiga e palpitações (frequentemente por fibrilação atrial). Na forma aguda, o quadro é mais dramático, com edema pulmonar súbito e risco de choque cardiogênico.
Insuficiência mitral tem cura?
A forma crônica não tem cura com medicamentos, mas pode ser corrigida cirurgicamente — preferencialmente por plastia (reparo) da valva. Quando realizada antes do desenvolvimento de disfunção ventricular, a cirurgia oferece excelentes resultados e expectativa de vida próxima à da população geral.
Como é feito o diagnóstico de insuficiência mitral?
O diagnóstico é confirmado e quantificado pelo ecocardiograma Doppler, que avalia a gravidade da regurgitação, a morfologia da valva e o impacto sobre as câmaras cardíacas. O exame físico revela sopro holossistólico em foco mitral com irradiação para axila no caso típico.
Quando a insuficiência mitral precisa de cirurgia?
A cirurgia está indicada em todos os pacientes sintomáticos com IM grave e FEVE acima de 30%, e em assintomáticos quando a FEVE cai para ≤ 60% ou o diâmetro sistólico do VE atinge ≥ 40 mm. Intervenção precoce, antes da disfunção ventricular, é associada a melhores desfechos.

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