Resumos16 jul 20265 min de leitura

Fissura Anal

O que é, sintomas, diagnóstico e tratamento

gastroenterologiaproctologia

Fissura anal: causas, sintomas clássicos como dor e sangramento, diagnóstico e tratamento clínico e cirúrgico. Resumo objetivo para residência médica.

A fissura anal é uma das causas mais frequentes de dor anorretal aguda na prática clínica. Apesar de ser uma lesão benigna, pode causar sofrimento significativo e impacto importante na qualidade de vida do paciente. O diagnóstico é essencialmente clínico e o tratamento, na maioria dos casos, pode ser conduzido de forma conservadora.

O que é Fissura Anal?

A fissura anal é uma laceração ou úlcera linear da mucosa do canal anal, geralmente localizada na linha média posterior (cerca de 90% dos casos). Quando localizada anteriormente, é mais comum em mulheres, em especial no período pós-parto. A lesão se estende do ânulo (margem anal) até a linha pectínea, expondo as fibras do esfíncter interno.

  • Fissura aguda: lesão superficial, com bordas regulares e bem definidas, geralmente de evolução inferior a 6 semanas.
  • Fissura crônica: lesão com evolução superior a 6–8 semanas, bordas induradas, exposição das fibras do esfíncter interno e frequentemente associada a papila hipertrófica proximal e plicoma sentinela distal (sinal da "tríade da fissura crônica").
File:Anal Fissure Treatment-Lateral Sphincterotomy.jpg - Wikimedia Commons
Fonte: Surgery E-learning / Wikimedia Commons (CC BY 3.0)

Causas e transmissão

A fissura anal não é uma doença infecciosa ou transmissível. Sua origem é multifatorial:

  • Trauma local: evacuação de fezes endurecidas (constipação) é o fator desencadeante mais comum; diarreia crônica também pode lesar o epitélio anal.
  • Hipertonia do esfíncter interno: considerada o principal mecanismo perpetuador — o espasmo esfincteriano aumenta a pressão de repouso no canal anal, reduz o fluxo sanguíneo na submucosa e prejudica a cicatrização.
  • Isquemia relativa: a comissura posterior é a região com pior perfusão vascular, o que explica a localização predominante.
  • Fatores associados: doença de Crohn, tuberculose anorretal, sífilis, infecção por HIV, leucemia e uso de ergotamínicos podem causar fissuras atípicas (fora da linha média ou múltiplas).

Classificação e formas

A classificação prática divide as fissuras em:

  • Aguda: lesão recente (< 6–8 semanas), superficial, sem alterações secundárias.
  • Crônica: lesão persistente com tríade característica — úlcera de bordas induradas + plicoma sentinela (prega cutânea distal hipertrófica) + papila anal hipertrófica proximal.
  • Fissura típica: localização na linha média posterior ou, menos frequentemente, anterior.
  • Fissura atípica: localização lateral ou múltipla; exige investigação de causa secundária (doença de Crohn, ISTs, neoplasia).

Sintomas e manifestações clínicas

O quadro clínico é bastante característico e permite diagnóstico clínico na maioria dos casos:

  • Dor anal aguda e intensa: de caráter queimante ou cortante, desencadeada pela evacuação e que persiste por minutos a horas após o esforço defecatório — denominada "dor pós-defecatória".
  • Sangramento retal: geralmente pequeno volume, de sangue vivo, que aparece no papel higiênico ou no vaso, ao final da evacuação — não misturado às fezes.
  • Espasmo esfincteriano: contração involuntária do esfíncter anal interno, que perpetua a dor e dificulta o exame físico.
  • Prurido anal: pode ocorrer como sintoma secundário.
  • Constipação paradoxal: o paciente evita evacuar pela dor, gerando retenção fecal e agravando o quadro.

Na fissura crônica, o plicoma sentinela pode ser palpável e visível à inspeção, sem necessidade de toque retal ou anuscopia.

Diagnóstico

O diagnóstico é clínico, baseado na anamnese e no exame proctológico:

  • Anamnese: dor pós-defecatória intensa associada a sangramento de pequeno volume é a combinação clássica.
  • Inspeção anal: afastamento delicado das nádegas expõe a fissura na comissura posterior; pode-se visualizar o plicoma sentinela e as fibras esbranquiçadas do esfíncter interno nas fissuras crônicas.
  • Toque retal e anuscopia: frequentemente não são possíveis na fase aguda pela dor e espasmo; quando necessários, podem ser realizados após anestesia local.
  • Colonoscopia ou retossigmoidoscopia: indicadas quando há suspeita de doença inflamatória intestinal, neoplasia ou fissuras atípicas.

Diagnóstico diferencial

  • Hemorroidas internas trombosadas
  • Abscesso anorretal
  • Doença de Crohn anorretal
  • Carcinoma epidermoide do canal anal
  • ISTs anorretais (sífilis, herpes, gonorreia)

Tratamento

O objetivo é quebrar o ciclo dor–espasmo–isquemia–má cicatrização.

Tratamento clínico (fissura aguda e crônica)

  • Medidas higienodietéticas: aumento da ingesta de fibras e líquidos, regularização do hábito intestinal, banhos de assento mornos (relaxam o esfíncter e aliviam a dor).
  • Laxativos osmóticos ou formadores de bolo fecal: para evitar fezes endurecidas.
  • Anestésicos tópicos: aliviam a dor sintomaticamente (lidocaína gel).
  • Nitratos tópicos (nitrato de glicerila 0,2–0,4%): promovem relaxamento do esfíncter interno por liberação de óxido nítrico; são o fármaco de primeira linha em muitos serviços. Principal efeito adverso: cefaleia.
  • Bloqueadores de canal de cálcio tópicos (diltiazem 2%, nifedipino 0,2–0,3%): eficácia semelhante aos nitratos com menos efeitos adversos; boa opção de segunda linha ou substituta.
  • Toxina botulínica (injeção intraesfincteriana): indicada quando há falha ao tratamento tópico; promove paralisia química temporária do esfíncter interno. Taxa de recidiva em torno de 30–40%.

Tratamento cirúrgico

  • Esfincterotomia lateral interna (ELI): padrão-ouro para fissura crônica refratária ao tratamento clínico. Consiste na secção parcial do esfíncter interno, reduzindo a hipertonia. Taxa de cura superior a 90%, porém com risco de incontinência fecal (geralmente leve e transitória).
  • Fissurectomia com ou sem avanço de retalho: opção em pacientes com esfíncter hipotenso ou risco de incontinência, onde a ELI seria contraindicada.
  • A ELI é contraindicada em pacientes com incontinência fecal prévia, esfíncter hipotônico ou fissuras secundárias a doença de Crohn.
Abordagem terapêutica da Fissura Anal
Abordagem terapêutica da Fissura Anal

Prognóstico

  • Fissuras agudas respondem bem ao tratamento clínico conservador em até 50–70% dos casos com medidas higienodietéticas isoladas.
  • A adição de agentes tópicos (nitratos ou bloqueadores de cálcio) eleva as taxas de cura.
  • Fissuras crônicas têm menor resposta ao tratamento clínico e frequentemente requerem intervenção (toxina botulínica ou cirurgia).
  • Após ELI, as taxas de recidiva são baixas (< 10%), mas o risco de algum grau de incontinência fecal deve ser discutido com o paciente antes do procedimento.
  • Fissuras atípicas ou refratárias exigem sempre investigação etiológica complementar.

Perguntas frequentes

Quais são os sintomas da fissura anal?
Os sintomas clássicos são dor anal intensa durante e após a evacuação (dor pós-defecatória) e sangramento de pequeno volume, de sangue vivo, ao final da evacuação. A dor pode durar de minutos a horas após a defecação e é frequentemente acompanhada de espasmo do esfíncter anal.
Fissura anal tem cura?
Sim. Fissuras agudas se curam em boa parte dos casos com medidas conservadoras (dieta rica em fibras, hidratação e banhos de assento). Fissuras crônicas podem exigir medicamentos tópicos (nitratos, bloqueadores de cálcio) ou procedimentos como injeção de toxina botulínica e, nos casos refratários, cirurgia (esfincterotomia lateral interna), com taxas de cura superiores a 90%.
Fissura anal e hemorroida são a mesma coisa?
Não. A fissura anal é uma laceração da mucosa do canal anal, causando dor intensa pós-defecatória. A hemorroida é uma dilatação dos plexos vasculares hemorroidários. Ambas podem causar sangramento retal de sangue vivo, mas a dor pós-defecatória prolongada é mais característica da fissura anal.
Qual o tratamento para fissura anal crônica?
O tratamento inicia com medidas higienodietéticas e agentes tópicos (nitratos de glicerila ou bloqueadores de canal de cálcio). Na falha, indica-se injeção de toxina botulínica. Para fissuras refratárias, a esfincterotomia lateral interna (cirurgia) é o padrão-ouro, com cura em mais de 90% dos casos.

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