Estenose Mitral
O que é, causas, sintomas, diagnóstico e tratamento
Estenose mitral: fisiopatologia, classificação por área valvar, sintomas, diagnóstico ecocardiográfico e indicações de intervenção. Guia completo para resi
A estenose mitral (EM) é uma valvopatia obstrutiva caracterizada pelo estreitamento do orifício da valva mitral, que impede o fluxo livre de sangue do átrio esquerdo para o ventrículo esquerdo durante a diástole. É uma das valvopatias mais relevantes na prática clínica e em provas de residência, especialmente pela sua relação etiológica com a febre reumática.
O que é Estenose Mitral?
A valva mitral normal tem área de orifício entre 4 e 6 cm². Na estenose mitral, esse orifício se reduz progressivamente, gerando um gradiente de pressão transmitral. Quando a área cai abaixo de 2 cm², os sintomas habitualmente se manifestam; abaixo de 1 cm², a estenose é considerada muito grave (orifício crítico). A obstrução crônica ao esvaziamento atrial resulta em aumento progressivo da pressão no átrio esquerdo, que se transmite retrogradamente para a circulação pulmonar, podendo culminar em hipertensão pulmonar e falência de ventrículo direito.
Causas e Transmissão
A febre reumática (sequela de faringoamigdalite estreptocócica não tratada) responde pela grande maioria dos casos, em especial nos países em desenvolvimento. O processo inflamatório crônico leva à fusão das comissuras, espessamento dos folhetos e encurtamento dos aparatos subvalvares.
Causas menos frequentes:
- Estenose mitral congênita (mitral em paraquedas)
- Calcificação do anel mitral (principalmente em idosos)
- Doenças infiltrativas (amiloidose, mucopolissacaridoses)
- Endocardite infecciosa com vegetação obstrutiva (rara)
- Lúpus eritematoso sistêmico (endocardite de Libman-Sacks)
Classificação e Formas
A gravidade é estratificada principalmente pela área do orifício mitral (AOM) ao ecocardiograma:
- Leve: AOM > 1,5 cm²; gradiente médio < 5 mmHg
- Moderada: AOM 1,0–1,5 cm²; gradiente médio 5–10 mmHg
- Grave: AOM < 1,0 cm²; gradiente médio > 10 mmHg
A escore de Wilkins (0–16 pontos) avalia morfologia valvar ao eco (mobilidade, espessamento, calcificação dos folhetos e aparato subvalvar) e orienta a decisão terapêutica — escores ≤ 8 são favoráveis à valvuloplastia percutânea por balão (VPB).
Sintomas e Manifestações Clínicas
Os sintomas geralmente surgem quando a área valvar cai abaixo de 2 cm² ou quando fatores que aumentam o débito cardíaco (exercício, gravidez, taquicardia, fibrilação atrial com alta resposta ventricular) elevam abruptamente o gradiente transmitral.
Sintomas cardinais:
- Dispneia aos esforços (sintoma mais precoce e comum)
- Ortopneia e dispneia paroxística noturna
- Hemoptise (ruptura de veias brônquicas dilatadas)
- Palpitações (fibrilação atrial em 30–40% dos casos)
- Eventos tromboembólicos sistêmicos (AVC em contexto de FA + dilatação de AE)
- Rouquidão por compressão do nervo laríngeo recorrente pelo AE dilatado (síndrome de Ortner — rara)
- Sinais de baixo débito cardíaco em fases avançadas (fadiga intensa, caquexia)
Exame físico clássico:
- Fácies mitral (rubor malar bilateral — sinal de baixo débito)
- B1 hiperfonética (clap mitral)
- Estalido de abertura (EA) logo após B2 — intervalo A2-EA inversamente proporcional à gravidade
- Ruflar diastólico em foco mitral, com reforço pré-sistólico em ritmo sinusal
- Sinais de hipertensão pulmonar: B2 hiperfonética, sopro de Graham Steell (insuficiência pulmonar funcional)
Diagnóstico
O diagnóstico é clínico-complementar, com o ecocardiograma transtorácico (ETT) como exame de referência.
Eletrocardiograma:
- Onda P mitrale (P alargada, entalhada, > 120 ms em D2) — indica sobrecarga de AE
- Fibrilação atrial é achado frequente
- Desvio de eixo para direita e sinais de sobrecarga de VD nas fases avançadas
Radiografia de tórax:
- Aumento do átrio esquerdo (duplo contorno à direita, elevação do brônquio-fonte esquerdo)
- Redistribuição vascular pulmonar, linhas B de Kerley
- Calcificação valvar (rara, visível em incidência lateral)
Ecocardiograma transtorácico (padrão-ouro):
- Medida da AOM por planimetria e equação de continuidade
- Gradiente médio transmitral ao Doppler
- Pressão sistólica em artéria pulmonar
- Escore de Wilkins
- Avaliação de trombos em AE (complementado pelo ETE quando necessário)
Cateterismo cardíaco: reservado para casos em que os dados clínicos e ecocardiográficos são discordantes, ou para avaliação coronariana pré-operatória.
Tratamento
Tratamento Clínico
- Profilaxia secundária da febre reumática (penicilina benzatina IM mensal) — obrigatória em todos os casos reumáticos, duração conforme guidelines
- Diuréticos para alívio de congestão pulmonar
- Betabloqueadores ou antagonistas dos canais de cálcio (diltiazem, verapamil) para controle da frequência cardíaca, especialmente em FA ou durante exercício
- Anticoagulação (warfarina, INR 2–3): indicada na FA permanente, paroxística ou persistente; história de evento tromboembólico; ou trombo em AE identificado. NOACs não são recomendados em EM reumática grave
- Cardioversão elétrica: pode ser tentada em FA de início recente após exclusão de trombo intracardíaco, mas recidiva é frequente sem correção valvar
Intervenção Valvar
A intervenção está indicada em pacientes sintomáticos com EM moderada a grave (AOM ≤ 1,5 cm²) ou assintomáticos com AOM < 1,0 cm² ou hipertensão pulmonar significativa.
Valvuloplastia Percutânea por Balão (VPB — técnica de Inoue):
- Procedimento de escolha quando escore de Wilkins ≤ 8 e ausência de insuficiência mitral significativa ou trombo em AE
- Resultado: duplicação aproximada da área valvar, redução imediata do gradiente
- Complicações: insuficiência mitral aguda, comunicação interatrial residual, tamponamento
Cirurgia (comissurotomia ou troca valvar):
- Indicada quando anatomia desfavorável à VPB (escore > 8, calcificação extensa, aparato subvalvar comprometido), insuficiência mitral associada ≥ moderada, ou falha/reestenose pós-VPB
- Troca valvar mitral (biológica ou mecânica) em casos de valva muito distorcida ou reoperação
Prognóstico
A história natural da EM reumática é de progressão lenta (décadas) até o surgimento de sintomas, seguida de deterioração mais rápida uma vez estabelecida a limitação funcional. A fibrilação atrial piora significativamente o prognóstico pela queda adicional do débito e pelo risco embólico. A intervenção valvar oportuna — especialmente a VPB em candidatos adequados — restaura a qualidade de vida e melhora a sobrevida. Após troca valvar mecânica, a anticoagulação com warfarina é vitalícia.
Perguntas frequentes
- Quais são os principais sintomas da estenose mitral?
- O sintoma mais precoce é a dispneia aos esforços, que progride para ortopneia e dispneia paroxística noturna. Hemoptise, palpitações por fibrilação atrial e eventos tromboembólicos (como AVC) também são manifestações importantes, especialmente em fases mais avançadas.
- Estenose mitral tem cura?
- A estenose mitral reumática não tem cura medicamentosa — o tratamento clínico controla sintomas e prevê complicações. A valvuloplastia percutânea por balão ou a cirurgia corrigem a obstrução valvar de forma efetiva, mas pode haver reestenose ao longo dos anos, especialmente se a profilaxia da febre reumática não for mantida.
- Qual exame confirma o diagnóstico de estenose mitral?
- O ecocardiograma transtorácico é o padrão-ouro, permitindo medir a área do orifício mitral por planimetria, calcular o gradiente transmitral ao Doppler e estimar a pressão pulmonar. O escore de Wilkins, também obtido pelo eco, orienta a escolha entre valvuloplastia percutânea e cirurgia.
- Por que pacientes com estenose mitral precisam de anticoagulação?
- A dilatação do átrio esquerdo e a fibrilação atrial — muito frequente nessa valvopatia — predispõem à formação de trombos intracardíacos e ao risco de embolia sistêmica, incluindo AVC. A anticoagulação com warfarina (INR 2–3) é indicada nesses casos; os anticoagulantes orais diretos (NOACs) não são recomendados na estenose mitral reumática grave.