Resumos13 jul 20264 min de leitura

Estenose Mitral

O que é, causas, sintomas, diagnóstico e tratamento

cardiologia

Estenose mitral: fisiopatologia, classificação por área valvar, sintomas, diagnóstico ecocardiográfico e indicações de intervenção. Guia completo para resi

A estenose mitral (EM) é uma valvopatia obstrutiva caracterizada pelo estreitamento do orifício da valva mitral, que impede o fluxo livre de sangue do átrio esquerdo para o ventrículo esquerdo durante a diástole. É uma das valvopatias mais relevantes na prática clínica e em provas de residência, especialmente pela sua relação etiológica com a febre reumática.

O que é Estenose Mitral?

A valva mitral normal tem área de orifício entre 4 e 6 cm². Na estenose mitral, esse orifício se reduz progressivamente, gerando um gradiente de pressão transmitral. Quando a área cai abaixo de 2 cm², os sintomas habitualmente se manifestam; abaixo de 1 cm², a estenose é considerada muito grave (orifício crítico). A obstrução crônica ao esvaziamento atrial resulta em aumento progressivo da pressão no átrio esquerdo, que se transmite retrogradamente para a circulação pulmonar, podendo culminar em hipertensão pulmonar e falência de ventrículo direito.

Causas e Transmissão

A febre reumática (sequela de faringoamigdalite estreptocócica não tratada) responde pela grande maioria dos casos, em especial nos países em desenvolvimento. O processo inflamatório crônico leva à fusão das comissuras, espessamento dos folhetos e encurtamento dos aparatos subvalvares.

Causas menos frequentes:

  • Estenose mitral congênita (mitral em paraquedas)
  • Calcificação do anel mitral (principalmente em idosos)
  • Doenças infiltrativas (amiloidose, mucopolissacaridoses)
  • Endocardite infecciosa com vegetação obstrutiva (rara)
  • Lúpus eritematoso sistêmico (endocardite de Libman-Sacks)

Classificação e Formas

A gravidade é estratificada principalmente pela área do orifício mitral (AOM) ao ecocardiograma:

  • Leve: AOM > 1,5 cm²; gradiente médio < 5 mmHg
  • Moderada: AOM 1,0–1,5 cm²; gradiente médio 5–10 mmHg
  • Grave: AOM < 1,0 cm²; gradiente médio > 10 mmHg

A escore de Wilkins (0–16 pontos) avalia morfologia valvar ao eco (mobilidade, espessamento, calcificação dos folhetos e aparato subvalvar) e orienta a decisão terapêutica — escores ≤ 8 são favoráveis à valvuloplastia percutânea por balão (VPB).

Sintomas e Manifestações Clínicas

Os sintomas geralmente surgem quando a área valvar cai abaixo de 2 cm² ou quando fatores que aumentam o débito cardíaco (exercício, gravidez, taquicardia, fibrilação atrial com alta resposta ventricular) elevam abruptamente o gradiente transmitral.

Sintomas cardinais:

  • Dispneia aos esforços (sintoma mais precoce e comum)
  • Ortopneia e dispneia paroxística noturna
  • Hemoptise (ruptura de veias brônquicas dilatadas)
  • Palpitações (fibrilação atrial em 30–40% dos casos)
  • Eventos tromboembólicos sistêmicos (AVC em contexto de FA + dilatação de AE)
  • Rouquidão por compressão do nervo laríngeo recorrente pelo AE dilatado (síndrome de Ortner — rara)
  • Sinais de baixo débito cardíaco em fases avançadas (fadiga intensa, caquexia)

Exame físico clássico:

  • Fácies mitral (rubor malar bilateral — sinal de baixo débito)
  • B1 hiperfonética (clap mitral)
  • Estalido de abertura (EA) logo após B2 — intervalo A2-EA inversamente proporcional à gravidade
  • Ruflar diastólico em foco mitral, com reforço pré-sistólico em ritmo sinusal
  • Sinais de hipertensão pulmonar: B2 hiperfonética, sopro de Graham Steell (insuficiência pulmonar funcional)

Diagnóstico

O diagnóstico é clínico-complementar, com o ecocardiograma transtorácico (ETT) como exame de referência.

Eletrocardiograma:

  • Onda P mitrale (P alargada, entalhada, > 120 ms em D2) — indica sobrecarga de AE
  • Fibrilação atrial é achado frequente
  • Desvio de eixo para direita e sinais de sobrecarga de VD nas fases avançadas

Radiografia de tórax:

  • Aumento do átrio esquerdo (duplo contorno à direita, elevação do brônquio-fonte esquerdo)
  • Redistribuição vascular pulmonar, linhas B de Kerley
  • Calcificação valvar (rara, visível em incidência lateral)

Ecocardiograma transtorácico (padrão-ouro):

  • Medida da AOM por planimetria e equação de continuidade
  • Gradiente médio transmitral ao Doppler
  • Pressão sistólica em artéria pulmonar
  • Escore de Wilkins
  • Avaliação de trombos em AE (complementado pelo ETE quando necessário)

Cateterismo cardíaco: reservado para casos em que os dados clínicos e ecocardiográficos são discordantes, ou para avaliação coronariana pré-operatória.

Tratamento

Tratamento Clínico

  • Profilaxia secundária da febre reumática (penicilina benzatina IM mensal) — obrigatória em todos os casos reumáticos, duração conforme guidelines
  • Diuréticos para alívio de congestão pulmonar
  • Betabloqueadores ou antagonistas dos canais de cálcio (diltiazem, verapamil) para controle da frequência cardíaca, especialmente em FA ou durante exercício
  • Anticoagulação (warfarina, INR 2–3): indicada na FA permanente, paroxística ou persistente; história de evento tromboembólico; ou trombo em AE identificado. NOACs não são recomendados em EM reumática grave
  • Cardioversão elétrica: pode ser tentada em FA de início recente após exclusão de trombo intracardíaco, mas recidiva é frequente sem correção valvar

Intervenção Valvar

A intervenção está indicada em pacientes sintomáticos com EM moderada a grave (AOM ≤ 1,5 cm²) ou assintomáticos com AOM < 1,0 cm² ou hipertensão pulmonar significativa.

Valvuloplastia Percutânea por Balão (VPB — técnica de Inoue):

  • Procedimento de escolha quando escore de Wilkins ≤ 8 e ausência de insuficiência mitral significativa ou trombo em AE
  • Resultado: duplicação aproximada da área valvar, redução imediata do gradiente
  • Complicações: insuficiência mitral aguda, comunicação interatrial residual, tamponamento

Cirurgia (comissurotomia ou troca valvar):

  • Indicada quando anatomia desfavorável à VPB (escore > 8, calcificação extensa, aparato subvalvar comprometido), insuficiência mitral associada ≥ moderada, ou falha/reestenose pós-VPB
  • Troca valvar mitral (biológica ou mecânica) em casos de valva muito distorcida ou reoperação
Fluxo de Decisão Terapêutica na Estenose Mitral
Fluxo de Decisão Terapêutica na Estenose Mitral

Prognóstico

A história natural da EM reumática é de progressão lenta (décadas) até o surgimento de sintomas, seguida de deterioração mais rápida uma vez estabelecida a limitação funcional. A fibrilação atrial piora significativamente o prognóstico pela queda adicional do débito e pelo risco embólico. A intervenção valvar oportuna — especialmente a VPB em candidatos adequados — restaura a qualidade de vida e melhora a sobrevida. Após troca valvar mecânica, a anticoagulação com warfarina é vitalícia.

Perguntas frequentes

Quais são os principais sintomas da estenose mitral?
O sintoma mais precoce é a dispneia aos esforços, que progride para ortopneia e dispneia paroxística noturna. Hemoptise, palpitações por fibrilação atrial e eventos tromboembólicos (como AVC) também são manifestações importantes, especialmente em fases mais avançadas.
Estenose mitral tem cura?
A estenose mitral reumática não tem cura medicamentosa — o tratamento clínico controla sintomas e prevê complicações. A valvuloplastia percutânea por balão ou a cirurgia corrigem a obstrução valvar de forma efetiva, mas pode haver reestenose ao longo dos anos, especialmente se a profilaxia da febre reumática não for mantida.
Qual exame confirma o diagnóstico de estenose mitral?
O ecocardiograma transtorácico é o padrão-ouro, permitindo medir a área do orifício mitral por planimetria, calcular o gradiente transmitral ao Doppler e estimar a pressão pulmonar. O escore de Wilkins, também obtido pelo eco, orienta a escolha entre valvuloplastia percutânea e cirurgia.
Por que pacientes com estenose mitral precisam de anticoagulação?
A dilatação do átrio esquerdo e a fibrilação atrial — muito frequente nessa valvopatia — predispõem à formação de trombos intracardíacos e ao risco de embolia sistêmica, incluindo AVC. A anticoagulação com warfarina (INR 2–3) é indicada nesses casos; os anticoagulantes orais diretos (NOACs) não são recomendados na estenose mitral reumática grave.

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