Resumos16 jul 20266 min de leitura

Esquizofrenia

O que é, sintomas, diagnóstico e tratamento

psiquiatria

Esquizofrenia: entenda o que é, quais os sintomas positivos e negativos, como é feito o diagnóstico e quais os tratamentos disponíveis.

A esquizofrenia é um transtorno psicótico grave, crônico e recorrente, que compromete profundamente o pensamento, a percepção, a afetividade e o comportamento. É considerada uma das condições psiquiátricas mais incapacitantes e representa uma das principais causas de anos vividos com incapacidade no mundo.

O que é Esquizofrenia?

A esquizofrenia é um transtorno mental grave caracterizado por episódios psicóticos com sintomas positivos (como alucinações e delírios), sintomas negativos (como embotamento afetivo e alogia) e prejuízo cognitivo. O curso é tipicamente crônico, com períodos de agudização e remissão parcial. A prevalência mundial gira em torno de 1%, sem diferença significativa entre sexos, mas com início geralmente mais precoce nos homens (início na adolescência tardia ou no início da idade adulta) do que nas mulheres (que tendem a adoecer na segunda ou terceira década de vida).

File:SchizophreniaBrain.jpg - Wikimedia Commons
Fonte: Wikimedia Commons (Public domain)

Causas e transmissão

A esquizofrenia não tem um agente etiológico único — resulta de uma interação complexa entre fatores genéticos, neurobiológicos e ambientais.

Fatores genéticos

  • Herdabilidade estimada entre 60–80%
  • Risco aumentado em parentes de primeiro grau (cerca de 10%) e gêmeos monozigóticos (concordância de aproximadamente 50%)
  • Nenhum gene único é suficiente; modelo poligênico com efeitos de variantes raras e comuns

Fatores neurobiológicos

  • Hipótese dopaminérgica: hiperatividade dopaminérgica mesolímbica (associada aos sintomas positivos) e hipoatividade mesocortical (associada aos sintomas negativos e cognitivos)
  • Disfunção glutamatérgica (receptores NMDA) — sustenta parte dos sintomas negativos e cognitivos
  • Alterações estruturais: aumento de ventrículos laterais, redução de volume do hipocampo e córtex pré-frontal

Fatores ambientais

  • Complicações obstétricas e infecções perinatais
  • Crescimento em meio urbano
  • Migração
  • Uso de cannabis, especialmente em adolescentes geneticamente vulneráveis
  • Trauma e adversidades na infância

Classificação e formas

O DSM-5 aboliu os subtipos clássicos (paranoide, hebefrênico, catatônico, residual e indiferenciado) da classificação formal da esquizofrenia. Contudo, a CID-11 mantém algumas especificações. Na prática clínica e nas provas, é importante reconhecer os diferentes padrões de apresentação:

  • Predomínio de sintomas positivos: delírios e alucinações proeminentes; resposta geralmente melhor ao tratamento
  • Predomínio de sintomas negativos: isolamento, embotamento afetivo, avolição; pior prognóstico funcional
  • Síndrome catatônica: pode ocorrer na esquizofrenia — inclui mutismo, negativismo, estupor, flexibilidade cérea, ecopraxia e ecolalia
  • Primeiro episódio psicótico: categoria de manejo específico, com intervenção precoce como prioridade

Sintomas e manifestações clínicas

Os sintomas são classicamente divididos em positivos, negativos e cognitivos.

Sintomas positivos (excesso ou distorção de funções normais)

  • Alucinações: mais frequentemente auditivas (vozes que comentam ou ordenam); podem ser visuais, táteis, olfativas ou gustativas
  • Delírios: crenças fixas, falsas e irredutíveis à argumentação lógica; os mais comuns são persecutórios, de referência, de grandiosidade e de controle
  • Pensamento desorganizado: discurso tangencial, frouxidão de associações, neologismos, salada de palavras
  • Comportamento desorganizado ou bizarro

Sintomas negativos (diminuição ou ausência de funções normais)

  • Embotamento afetivo: expressão emocional reduzida
  • Alogia: pobreza do discurso
  • Avolição: redução da motivação e da iniciativa
  • Anedonia: perda da capacidade de sentir prazer
  • Isolamento social (associalidade)

Sintomas cognitivos

  • Déficit de atenção e memória de trabalho
  • Prejuízo das funções executivas
  • Velocidade de processamento reduzida
  • Os déficits cognitivos são frequentemente o fator mais determinante para a funcionalidade

Curso clínico

  • Fase prodrômica: meses a anos antes do primeiro surto; sintomas inespecíficos (isolamento, queda de rendimento, ideias incomuns)
  • Fase aguda (psicótica): sintomas positivos proeminentes
  • Fase de manutenção/residual: sintomas negativos e cognitivos persistentes entre os surtos

Diagnóstico

O diagnóstico é clínico, baseado em critérios operacionais — não há exame laboratorial ou de imagem específico para confirmar esquizofrenia.

Critérios diagnósticos (DSM-5)

Deve haver pelo menos dois dos seguintes sintomas presentes por um período significativo de tempo em um mês (ou menos se tratados com sucesso):

  1. Delírios
  2. Alucinações
  3. Discurso desorganizado
  4. Comportamento grosseiramente desorganizado ou catatônico
  5. Sintomas negativos

Obrigatório: pelo menos um dos critérios deve ser (1), (2) ou (3).

Além disso:

  • Sinais contínuos do transtorno por pelo menos 6 meses (incluindo pelo menos 1 mês de sintomas do critério A)
  • Disfunção social/ocupacional significativa
  • Exclusão de transtorno esquizoafetivo, transtorno do humor com características psicóticas, condição médica geral e uso de substâncias

Exames complementares

Não confirmam o diagnóstico, mas são essenciais para exclusão de causas orgânicas:

  • Hemograma, eletrólitos, glicemia, função tireoidiana, função renal e hepática
  • Toxicológico urinário
  • Neuroimagem (TC ou RM de crânio): indicada especialmente no primeiro episódio
  • EEG quando há suspeita de epilepsia
  • VDRL, anti-HIV quando indicado clinicamente

Diagnóstico diferencial

  • Transtorno esquizoafetivo
  • Transtorno bipolar com características psicóticas
  • Transtorno delirante
  • Transtorno psicótico breve e transtorno esquizofreniforme
  • Psicose induzida por substâncias
  • Psicose secundária a condição médica (encefalite autoimune, epilepsia do lobo temporal, neurossífilis)
Algoritmo diagnóstico e terapêutico da Esquizofrenia
Algoritmo diagnóstico e terapêutico da Esquizofrenia

Tratamento

O tratamento é multiprofissional, integrando farmacoterapia, psicoterapia e reabilitação psicossocial.

Farmacoterapia

Antipsicóticos são a base do tratamento — reduzem principalmente os sintomas positivos.

Antipsicóticos de primeira geração (típicos):

  • Haloperidol e clorpromazina são os protótipos
  • Alta potência (haloperidol) vs. baixa potência (clorpromazina)
  • Principais efeitos adversos: sintomas extrapiramidais (parkinsonismo, distonia aguda, acatisia), hiperprolactinemia, discinesia tardia

Antipsicóticos de segunda geração (atípicos):

  • Risperidona, olanzapina, quetiapina, aripiprazol, ziprasidona, clozapina
  • Menor risco de sintomas extrapiramidais e discinesia tardia
  • Maior risco metabólico (ganho de peso, dislipidemia, diabetes — especialmente olanzapina e clozapina)
  • Clozapina: reservada para esquizofrenia resistente ao tratamento (falha de pelo menos dois antipsicóticos em doses e duração adequadas); exige monitorização hematológica pelo risco de agranulocitose

Antipsicóticos de depósito (LAI — long-acting injectable):

  • Indicados para melhorar adesão ao tratamento
  • Disponíveis em formulações típicas (haloperidol decanoato, flufenazina decanoato) e atípicas (risperidona, paliperidona, aripiprazol, olanzapina LAI)

Metas e duração do tratamento

  • Primeiro episódio: manutenção por pelo menos 1–2 anos após remissão
  • Múltiplos episódios: tratamento por tempo indefinido (muitas vezes lifelong)
  • A interrupção abrupta está associada a alto risco de recaída

Intervenções psicossociais

  • Terapia cognitivo-comportamental para psicose (TCCp)
  • Treinamento de habilidades sociais
  • Psicoeducação para paciente e família
  • Terapia familiar
  • Reabilitação vocacional e apoio ao emprego
  • Programas de intervenção precoce no primeiro episódio

Manejo da crise aguda

  • Ambiente seguro e com baixa estimulação
  • Sedação se necessário: benzodiazepínico (diazepam, lorazepam) + antipsicótico
  • Avaliação de risco de suicídio e heteroagressividade

Prognóstico

O prognóstico é variável. Aproximadamente um terço dos pacientes apresenta boa resposta ao tratamento com recuperação funcional significativa; outro terço tem resposta parcial com prejuízo funcional moderado; e um terço evolui de forma mais grave e refratária.

Fatores de melhor prognóstico:

  • Início tardio e início agudo (não insidioso)
  • Sexo feminino
  • Boa rede de suporte social
  • Ausência de comorbidade com uso de substâncias
  • Predominância de sintomas positivos
  • Adesão ao tratamento
  • Intervenção precoce no primeiro episódio

Fatores de pior prognóstico:

  • Início precoce (adolescência)
  • Início insidioso
  • Predominância de sintomas negativos
  • Comorbidade com uso de substâncias
  • Histórico familiar de esquizofrenia
  • Múltiplas internações

A esquizofrenia está associada a aumento significativo de mortalidade — pacientes têm expectativa de vida reduzida em cerca de 15–20 anos em relação à população geral, principalmente por doença cardiovascular e suicídio (risco de suicídio ao longo da vida estimado em cerca de 5–10%).

Perguntas frequentes

Esquizofrenia tem cura?
A esquizofrenia não tem cura definitiva, mas é uma condição tratável. Com farmacoterapia adequada e suporte psicossocial, muitos pacientes alcançam remissão dos sintomas e recuperação funcional significativa. O tratamento é geralmente de longo prazo, e a adesão contínua ao antipsicótico é fundamental para evitar recaídas.
Quais são os primeiros sintomas da esquizofrenia?
Os primeiros sinais costumam surgir na fase prodrômica, meses a anos antes do primeiro surto psicótico, e incluem isolamento social progressivo, queda de rendimento escolar ou profissional, ideias incomuns, comportamento excêntrico e alterações do sono. O primeiro episódio psicótico franco, com alucinações e delírios, marca o início formal da doença.
Qual a diferença entre esquizofrenia e psicose?
Psicose é um termo genérico para estados em que há perda do contato com a realidade, como alucinações e delírios — pode ser causada por diversas condições (substâncias, mania, depressão grave, doenças neurológicas). A esquizofrenia é um diagnóstico específico que exige psicose persistente por pelo menos seis meses, com disfunção funcional, após exclusão de outras causas.
O que é esquizofrenia resistente ao tratamento?
Esquizofrenia resistente ao tratamento é definida pela falha de resposta adequada a pelo menos dois antipsicóticos diferentes, em doses e durações suficientes. Nesses casos, a clozapina é o antipsicótico de escolha, por ser o único comprovadamente eficaz na resistência, mas exige monitorização regular do hemograma pelo risco de agranulocitose.

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