Escoliose
O que é, tipos, diagnóstico e tratamento
Escoliose é a curvatura lateral da coluna vertebral. Conheça tipos, causas, sintomas, diagnóstico e tratamento atualizado para residência médica.
A escoliose é uma das deformidades da coluna vertebral mais prevalentes na prática clínica, com maior importância em pediatria e ortopedia. Reconhecê-la precocemente é fundamental para evitar progressão e complicações funcionais. Ela pode afetar crianças, adolescentes e adultos, com comportamento clínico e prognóstico bastante distintos conforme a etiologia.
O que é Escoliose?
Escoliose é definida como uma curvatura lateral da coluna vertebral com rotação vertebral associada, com ângulo de Cobb igual ou superior a 10° na radiografia. Não se trata de uma simples inclinação postural — há, obrigatoriamente, um componente rotacional que distingue a escoliose verdadeira (estrutural) da postura escoliótica funcional. A curva pode ocorrer na coluna torácica, lombar ou toracolombar, e com frequência há múltiplas curvas compensatórias.

Causas e transmissão
A escoliose não é transmissível; sua etiologia varia conforme o tipo:
- Idiopática: causa desconhecida; representa cerca de 80% dos casos. Há componente genético poligênico identificado — parentes de primeiro grau têm risco aumentado.
- Congênita: defeitos de formação ou segmentação vertebral (hemivértebra, barra óssea) presentes ao nascimento.
- Neuromuscular: desequilíbrio muscular secundário a paralisia cerebral, distrofias musculares, mielomeningocele, poliomielite.
- Sindromica: associada a síndromes como Marfan, Ehlers-Danlos, neurofibromatose tipo 1.
- Degenerativa (do adulto): deterioração discal e articular assimétrica, mais frequente após os 40–50 anos.
Classificação e formas
Por faixa etária (escoliose idiopática)
- Infantil: 0–3 anos. Rara; maioria regride espontaneamente, mas formas progressivas podem ser graves.
- Juvenil: 4–9 anos. Alto potencial de progressão por longo período de crescimento restante.
- Do adolescente: 10 anos até o fim do crescimento esquelético. Forma mais comum (70–80% de todas as escolioses idiopáticas); predomínio no sexo feminino.
Por localização da curva principal
- Torácica, toracolombar, lombar ou dupla (torácica + lombar).
Por estruturalidade
- Estrutural: rotação vertebral presente; não corrige completamente na flexão lateral.
- Funcional (postural): sem rotação; causada por discrepância de membros, contratura muscular ou postura; desaparece ao corrigir a causa.
Sintomas e manifestações clínicas
A maioria das escolioses leves e moderadas é assintomática, especialmente em adolescentes. Os achados mais comuns são:
- Assimetria de ombros ou escápulas
- Desnivelamento de quadris (pelve inclinada)
- Proeminência de costelas ou escápula (giba costal) ao teste de Adams (flexão anterior do tronco)
- Desvio lateral visível do tronco
- Dor lombar (mais relevante no adulto; incomum como sintoma inicial no adolescente)
Curvas torácicas maiores (tipicamente > 70–80°) podem causar comprometimento respiratório restritivo, com redução da capacidade vital. Déficits neurológicos são incomuns na escoliose idiopática, mas devem ser investigados em escolioses congênitas ou de progressão rápida.
Diagnóstico
Avaliação clínica
- Inspeção postural em posição ortostática (frontal e lateral)
- Teste de Adams: paciente inclina o tronco para a frente; presença de giba costal sugere rotação vertebral — sinal cardinal da escoliose estrutural
- Escoliômetro (scoliometer): mede o ângulo de rotação do tronco (ATR); ATR ≥ 7° justifica radiografia
- Avaliação neurológica completa e pesquisa de síndromes associadas
Exame de imagem
- Radiografia panorâmica da coluna em ortostase (PA e perfil): exame padrão-ouro para confirmação e medida do ângulo de Cobb
- Ângulo de Cobb: medido entre a vértebra mais inclinada no topo e no fundo da curva; ≥ 10° define escoliose
- Maturidade esquelética: sinal de Risser (ossificação da crista ilíaca, 0–5) ajuda a estimar o potencial de progressão
- RNM: indicada quando há dor intensa, déficit neurológico, curvas atípicas (torácica esquerda) ou rápida progressão — para excluir siringomielia, malformação de Chiari ou tumor intracanalicular
Tratamento
A conduta depende do ângulo de Cobb, potencial de crescimento remanescente (Risser) e velocidade de progressão.
Observação
- Curvas < 25° em esqueleto imaturo ou < 40–45° em esqueleto maduro: acompanhamento clínico-radiológico periódico (a cada 4–6 meses em crescimento)
Colete ortopédico (órtese)
- Indicado para curvas entre 25–40° em pacientes com esqueleto imaturo (Risser 0–2, geralmente) e crescimento remanescente significativo
- Coletes mais utilizados: Boston (torácico baixo e lombar) e Milwaukee (torácico alto)
- Objetivo: deter ou retardar a progressão — não corrige a deformidade já estabelecida
- Eficácia depende da adesão (uso ≥ 18h/dia recomendado nos esquemas tradicionais)
Tratamento cirúrgico
- Indicado geralmente para curvas > 45–50° em esqueleto imaturo ou > 40–50° em adulto com progressão documentada e/ou dor refratária
- Técnica principal: artrodese vertebral com instrumentação (hastes de Cotrel-Dubousset e variantes), com enxerto ósseo — visa correção e fusão da curva
- Em crianças pequenas com curvas severas e crescimento restante: sistemas de hastes de crescimento (growing rods) permitem correção progressiva sem fusão imediata
- Fisioterapia pré e pós-operatória é parte integrante do processo
Fisioterapia
- Exercícios específicos (método Schroth, SEAS) podem auxiliar no controle postural e na adesão ao colete, mas não substituem o tratamento ortopédico nas curvas progressivas
Prognóstico
O principal fator prognóstico é o potencial de crescimento remanescente combinado ao ângulo atual da curva. Curvas menores em paciente com esqueleto maduro raramente progridem de forma clinicamente significativa. Já curvas > 30° em Risser 0 têm alto risco de progressão. Após o fim do crescimento, curvas torácicas > 50° e lombares > 40° podem continuar progredindo lentamente na vida adulta (0,5–1°/ano), justificando seguimento prolongado. O prognóstico funcional e respiratório é geralmente excelente nos casos tratados adequadamente.
Perguntas frequentes
- Qual o ângulo de Cobb para definir escoliose?
- Define-se escoliose quando o ângulo de Cobb, medido na radiografia panorâmica da coluna em ortostase, é igual ou superior a 10°. Ângulos menores são considerados assimetria postural, não escoliose estrutural.
- Escoliose tem cura?
- A escoliose idiopática do adolescente não tem 'cura' no sentido de reversão completa da curva, mas pode ser controlada e estabilizada. O objetivo do tratamento com colete é impedir a progressão; a cirurgia corrige parcialmente a deformidade e a fusiona. Em curvas leves sem progressão, o prognóstico funcional é excelente sem necessidade de intervenção.
- Como é feito o diagnóstico de escoliose?
- O diagnóstico é clínico e radiológico. O teste de Adams (flexão anterior do tronco) evidencia a giba costal; o escoliômetro mede a rotação do tronco. A confirmação e quantificação são feitas pela radiografia panorâmica da coluna com medida do ângulo de Cobb ≥ 10°.
- Quando operar escoliose?
- A cirurgia é geralmente indicada em curvas superiores a 45–50° em pacientes com esqueleto imaturo, ou em adultos com curvas progressivas acima de 40–50° associadas a dor ou comprometimento funcional. A técnica padrão é a artrodese vertebral com instrumentação metálica.