Endocardite Infecciosa
O que é, causas, sintomas, diagnóstico e tratamento
Endocardite infecciosa: causas, sintomas clássicos, critérios de Duke, tratamento antibiótico e indicações cirúrgicas. Resumo para residência médica.
A endocardite infecciosa (EI) é uma infecção do endocárdio, acometendo predominantemente as valvas cardíacas e causando lesão estrutural progressiva. Representa emergência médica de alta morbimortalidade, exigindo diagnóstico precoce e tratamento imediato. É condição relevante em provas de residência por sua riqueza semiológica e complexidade terapêutica.
O que é Endocardite Infecciosa?
A EI é a infecção do endocárdio valvar ou mural por microrganismos — bactérias na grande maioria dos casos, mas também fungos. A lesão anatomopatológica característica é a vegetação: massa de fibrina, plaquetas, células inflamatórias e microrganismos que se forma sobre a superfície valvar lesada. Pode acometer valvas nativas ou protéticas, e dispositivos intracardíacos (marca-passos, CDIs).
Classifica-se conforme o tempo de evolução:
- Aguda: evolução em dias a semanas, agente virulento (ex.: S. aureus), destruição valvar rápida.
- Subaguda: evolução em semanas a meses, agente menos virulento (ex.: Streptococcus do grupo viridans), curso insidioso.

Causas e Transmissão
A EI não é transmissível entre pessoas. Resulta de bacteriemia (ou fungemia) em hospedeiro com endotélio predisposto.
Agentes etiológicos mais frequentes
- Staphylococcus aureus: principal agente em usuários de drogas injetáveis (UDI), portadores de cateter central e EI de valva protética precoce (< 60 dias pós-cirurgia). Causa EI aguda e destrutiva.
- Streptococcus do grupo viridans (ex.: S. sanguinis, S. mutans): classicamente associados a valvas nativas e manipulação dentária; EI subaguda.
- Enterococcus spp.: pacientes idosos, manipulação genitourinária ou gastrointestinal.
- Estafilococos coagulase-negativos (ex.: S. epidermidis): EI de valva protética.
- Grupo HACEK (Haemophilus, Aggregatibacter, Cardiobacterium, Eikenella, Kingella): bacilos fastidiosos, EI subaguda em valvas nativas.
- Fungos (Candida, Aspergillus): raro; UDI, imunossuprimidos, nutrição parenteral prolongada.
- Cultura negativa: ocorre em 5–10% dos casos, frequentemente por uso prévio de antibiótico ou agentes de difícil cultivo (Coxiella, Bartonella, Tropheryma whipplei).
Fatores predisponentes
- Cardiopatia valvar prévia (estenose aórtica, prolapso mitral com regurgitação, cardiopatia reumática)
- Valva protética mecânica ou biológica
- Cardiopatia congênita cianótica
- Uso de drogas injetáveis
- Dispositivos intravasculares / cateteres de longa permanência
- Hemodiálise crônica
- Imunossupressão
Classificação e Formas
Por tipo de valva acometida
- Valva nativa: mais comum no lado esquerdo (aórtica > mitral).
- Valva protética precoce (< 60 dias): predomina S. aureus e estafilococos coagulase-negativos; altamente grave.
- Valva protética tardia (> 60 dias): perfil semelhante à EI de valva nativa.
- EI de câmaras direitas: acomete valva tricúspide; clássica em UDI; embolização pulmonar recorrente.
Por contexto de aquisição
- Comunitária
- Associada a cuidados de saúde (nosocomial ou não nosocomial)
- Em dispositivo eletrônico implantável
Sintomas e Manifestações Clínicas
O espectro clínico vai de síndrome febril insidiosa a choque séptico fulminante.
Manifestações gerais
- Febre (presente em > 90% dos casos) — pode ser baixa e intermitente na forma subaguda
- Calafrios, sudorese noturna, astenia, anorexia e perda de peso
- Sopro cardíaco novo ou mudança de sopro preexistente
Manifestações periféricas clássicas (mais comuns na EI subaguda)
- Petéquias: pele, conjuntivas e palato
- Hemorragias em estilha (splinter hemorrhages): listras avermelhadas subungueais
- Nódulos de Osler: nódulos dolorosos nas polpas digitais (reação imune)
- Lesões de Janeway: máculas hemorrágicas indolores nas palmas e plantas (embólicas; mais comuns na EI por S. aureus)
- Manchas de Roth: hemorragias retinianas com centro pálido (fundo de olho)
- Esplenomegalia: em EI de longa duração
- Baqueteamento digital: em casos crônicos
Complicações
- Embolia sistêmica: AVC isquêmico (embolização cerebral), embolia esplênica, renal, mesentérica
- Insuficiência cardíaca: principal causa de morte; por regurgitação valvar aguda ou abscesso perivalvar
- Abscesso perianular / fistulização: mais frequente na EI aórtica
- Meningite ou abscesso cerebral: disseminação hematogênica
- Glomerulonefrite por imunocomplexos: hematúria e piora da função renal
Diagnóstico
O diagnóstico se apoia nos Critérios de Duke Modificados, que combinam critérios maiores e menores.
Critérios de Duke Modificados
Critérios maiores:
- Hemoculturas positivas para EI:
- Agente típico (viridans, S. bovis, HACEK, S. aureus, Enterococcus sem foco primário) em ≥ 2 hemoculturas separadas, ou
- Hemoculturas persistentemente positivas (≥ 2 amostras com intervalo > 12 h, ou maioria de ≥ 4 amostras), ou
- Única hemocultura positiva para Coxiella burnetii (ou IgG antifase I ≥ 1:800)
- Exame de imagem positivo:
- Ecocardiografia (ETT ou ETE) com vegetação, abscesso, pseudoaneurisma, fistula, perfuração ou deiscência de prótese nova, ou
- Captação anormal periprotética em PET-CT com ¹⁸F-FDG (> 3 meses após cirurgia), ou
- Lesão paravalvar definida na TC cardíaca
Critérios menores:
- Predisposição cardíaca ou UDI
- Febre > 38 °C
- Fenômenos vasculares (embolia arterial, infarto pulmonar séptico, lesão de Janeway, aneurisma micótico, hemorragia intracraniana)
- Fenômenos imunológicos (glomerulonefrite, nódulos de Osler, manchas de Roth, fator reumatoide positivo)
- Hemocultura positiva não critério maior
Definição:
- EI definida: 2 critérios maiores, ou 1 maior + 3 menores, ou 5 menores
- EI possível: 1 maior + 1 menor, ou 3 menores
- EI rejeitada: diagnóstico alternativo firmado, resolução em ≤ 4 dias de antibiótico, sem evidência patológica em cirurgia/autópsia
Exames complementares essenciais
- Hemoculturas: coletar ≥ 3 pares (aeróbio + anaeróbio) de sítios venosos diferentes, antes do início do antibiótico, com intervalo de ao menos 30 minutos entre coletas
- Ecocardiograma transtorácico (ETT): primeira linha; sensibilidade ~60–70% para vegetações
- Ecocardiograma transesofágico (ETE): superior (sensibilidade ~90–95%); indicado se ETT negativo com alta suspeita, valva protética, abscesso suspeito ou má janela acústica
- TC cardíaca e PET-CT: úteis especialmente em valva protética e dispositivos eletrônicos
- Hemograma, PCR, VHS, ureia, creatinina, urinálise (hematúria sugere glomerulonefrite)
- Eletrocardiograma serial: bloqueio AV novo indica abscesso perianular do septo
Tratamento
Antibioticoterapia
O tratamento é prolongado (4–6 semanas para valva nativa; 6 semanas para valva protética) e idealmente guiado pelo antibiograma.
Esquemas empíricos iniciais (enquanto aguarda culturas):
- EI de valva nativa, sem UDI, comunitária: ampicilina-sulbactam + gentamicina (ou oxacilina + gentamicina ± ampicilina)
- Suspeita de S. aureus resistente (MRSA) ou EI nosocomial: vancomicina + gentamicina
- EI de valva protética: vancomicina + gentamicina + rifampicina
Esquemas definitivos por agente (exemplos):
- S. aureus sensível à oxacilina (SARM-): oxacilina IV por 4–6 semanas
- S. aureus resistente (MRSA): vancomicina IV por 4–6 semanas (ou daptomicina se CIM desfavorável)
- Streptococcus viridans sensível à penicilina: penicilina G cristalina ou amoxicilina por 4 semanas (ou 2 semanas com gentamicina em casos selecionados de baixo risco)
- Enterococcus spp.: ampicilina + ceftriaxona ou ampicilina + gentamicina por 4–6 semanas
Tratamento cirúrgico
Circulação 20–50% dos casos requerem cirurgia durante a internação. As principais indicações são:
Indicações de cirurgia de urgência/emergência:
- Insuficiência cardíaca aguda grave por regurgitação valvar
- Obstrução valvar por vegetação
- Fistula intracardíaca ou ruptura de seio de Valsalva
Indicações de cirurgia eletiva (durante internação):
- Infecção não controlada (abscesso perianular, fistula, bacteriemia persistente > 7–10 dias sob antibiótico adequado)
- Agente de difícil erradicação (fungos, Brucella, P. aeruginosa em valva esquerda)
- Vegetação > 10 mm com embolia prévia ou risco embólico elevado
- EI de valva protética por estafilococos (especialmente se precoce)
Monitoramento
- Ecocardiograma de controle durante e ao fim do tratamento
- Hemoculturas de controle após início do antibiótico
- Vigilância de ECG para distúrbios de condução
- Avaliação odontológica após resolução da infecção aguda
Prevenção
A profilaxia antibiótica antes de procedimentos é indicada apenas para pacientes de alto risco:
- Portadores de valva protética (incluindo reparo com material protético)
- EI prévia
- Cardiopatia congênita cianótica não corrigida ou corrigida com material protético (primeiros 6 meses ou com defeito residual)
- Receptores de transplante cardíaco com valvopatia
Procedimentos que justificam profilaxia nesses pacientes:
- Procedimentos dentários que envolvam manipulação de gengiva, região periapical ou mucosa oral
- Procedimentos em vias respiratórias com manipulação de mucosa infectada
Esquema profilático padrão:
- Amoxicilina 2 g VO, 30–60 minutos antes do procedimento
- Alérgicos à penicilina: clindamicina 600 mg VO ou azitromicina/claritromicina 500 mg VO
Medidas gerais de prevenção incluem higiene oral rigorosa, cuidado com acesso vascular e evitar piercing/tatuagens sem assepsia adequada em pacientes de risco.
Perguntas frequentes
- Quais são os sintomas da endocardite infecciosa?
- Os sintomas mais comuns são febre persistente, calafrios, sudorese noturna, astenia e sopro cardíaco novo ou mudança de sopro preexistente. Manifestações periféricas clássicas incluem petéquias, hemorragias subungueais em estilha, nódulos de Osler (dolorosos) e lesões de Janeway (indolores nas palmas e plantas). Complicações como AVC e insuficiência cardíaca aguda também podem ser a forma de apresentação.
- Como se diagnostica a endocardite infecciosa?
- O diagnóstico usa os Critérios de Duke Modificados, que combinam hemoculturas positivas para agentes típicos e achados de imagem (principalmente ecocardiograma com vegetação, abscesso ou deiscência de prótese). Devem-se coletar ao menos 3 pares de hemoculturas antes do antibiótico. O ecocardiograma transesofágico (ETE) é superior ao transtorácico e é indicado quando há alta suspeita clínica com ETT negativo.
- Quanto tempo dura o tratamento da endocardite infecciosa?
- O tratamento antibiótico é prolongado: em geral 4 a 6 semanas para endocardite em valva nativa e pelo menos 6 semanas para valva protética. A duração e o agente específico dependem do microrganismo identificado nas hemoculturas e do antibiograma. Em casos de insuficiência cardíaca aguda, abscesso perianular ou infecção não controlada, a cirurgia cardíaca é necessária durante a internação.
- A endocardite infecciosa tem cura?
- Sim, a maioria dos casos tem cura com antibioticoterapia prolongada e, quando indicada, cirurgia cardíaca. Entretanto, a mortalidade hospitalar ainda é significativa (15–30%), especialmente em casos por S. aureus, EI de valva protética ou com complicações como AVC ou insuficiência cardíaca grave. O prognóstico melhora com diagnóstico precoce e tratamento em centro especializado.