Resumos16 jul 20266 min de leitura

Antipsicóticos, Antiepilépticos e Estabilizadores de Humor

Mecanismos de ação, indicações, efeitos adversos e uso clínico em psiquiatria

psiquiatria

Antipsicóticos, antiepilépticos e estabilizadores de humor: mecanismos, indicações, efeitos adversos e condutas práticas para residência médica.

Antipsicóticos, antiepilépticos e estabilizadores de humor formam o núcleo do arsenal farmacológico da psiquiatria moderna. Compreender seus mecanismos de ação, perfis de tolerabilidade e indicações específicas é essencial tanto para a prática clínica quanto para as provas de residência médica.

O que são antipsicóticos, antiepilépticos e estabilizadores de humor?

Essas três classes de medicamentos atuam sobre a estabilização do sistema nervoso central (SNC), cada uma com alvos moleculares distintos:

  • Antipsicóticos são fármacos desenvolvidos primariamente para o tratamento de psicoses, atuando majoritariamente como antagonistas de receptores dopaminérgicos (D2) e, em graus variados, de receptores serotoninérgicos, histaminérgicos, muscarínicos e adrenérgicos.
  • Antiepilépticos (ou anticonvulsivantes) foram originalmente desenvolvidos para epilepsia, mas vários demonstraram eficácia no transtorno bipolar, dor neuropática e outros transtornos psiquiátricos.
  • Estabilizadores de humor são definidos funcionalmente como fármacos que reduzem a amplitude e a frequência de oscilações do humor sem precipitar mania ou depressão. O lítio é o protótipo desta classe; alguns antiepilépticos e antipsicóticos atípicos também se enquadram nessa definição operacional.

Causas e transmissão

Não se aplica diretamente a classes farmacológicas. No entanto, as condições para as quais esses fármacos são indicados — psicose, transtorno bipolar, epilepsia — têm fisiopatologia multifatorial, envolvendo desregulação de neurotransmissores (dopamina, serotonina, glutamato, GABA, noradrenalina) e fatores genéticos e ambientais.

Classificação e formas

Antipsicóticos

Primeira geração (típicos):

  • Alta potência: haloperidol, flufenazina, trifluoperazina
  • Baixa potência: clorpromazina, levomepromazina, tioridazina
  • Mecanismo: bloqueio D2 predominante → eficaz em sintomas positivos; maior risco de sintomas extrapiramidais (SEP) e hiperprolactinemia

Segunda geração (atípicos):

  • Clozapina, risperidona, olanzapina, quetiapina, aripiprazol, ziprasidona, amisulprida, paliperidona, lurasidona
  • Mecanismo: antagonismo D2 + antagonismo 5-HT2A (maioria); aripiprazol é agonista parcial D2/D3 e 5-HT1A
  • Maior eficácia em sintomas negativos e cognitivos; menor risco de SEP (exceto risperidona em doses altas); maior risco metabólico (especialmente olanzapina e clozapina)

Estabilizadores de humor

  • Lítio: mecanismo não completamente elucidado; inibe inositol monofosfatase e GSK-3β; ação neuroprotetora
  • Valproato (ácido valproico): aumenta GABA, bloqueia canais de sódio e cálcio, inibe histona deacetilase
  • Carbamazepina/Oxcarbazepina: bloqueio de canais de sódio voltagem-dependentes
  • Lamotrigina: bloqueia canais de sódio e inibe liberação de glutamato; eficaz principalmente na fase depressiva do transtorno bipolar

Antiepilépticos com uso psiquiátrico

  • Valproato, carbamazepina, lamotrigina (os mais usados em psiquiatria)
  • Topiramato, gabapentina, pregabalina (usos adjuvantes)

Sintomas e manifestações clínicas

Esta seção aborda os principais efeitos adversos clinicamente relevantes de cada classe.

Antipsicóticos típicos

  • Sintomas extrapiramidais: distonia aguda (primeiras horas/dias), acatisia (dias/semanas), parkinsonismo (semanas), discinesia tardia (meses/anos)
  • Síndrome neuroléptica maligna (SNM): emergência — rigidez muscular, hipertermia, instabilidade autonômica, rabdomiólise, alteração do nível de consciência
  • Hiperprolactinemia: galactorreia, amenorreia, disfunção sexual
  • Sedação, efeitos anticolinérgicos (boca seca, constipação, retenção urinária, taquicardia), hipotensão ortostática
  • Prolongamento do intervalo QTc (especialmente tioridazina e haloperidol IV)

Antipsicóticos atípicos

  • Clozapina: agranulocitose (risco ~1–2%; monitorização hematológica obrigatória), miocardite, sialorreia, epilepsia dose-dependente, síndrome metabólica grave
  • Olanzapina: maior ganho de peso e síndrome metabólica da classe (exceto clozapina)
  • Risperidona/Paliperidona: maior risco de SEP entre os atípicos, hiperprolactinemia proeminente
  • Quetiapina: sedação, ganho de peso moderado, hipotensão ortostática; menor SEP
  • Aripiprazol: acatisia, náusea; perfil metabólico favorável
  • Ziprasidona: prolongamento QTc; perfil metabólico neutro

Lítio

  • Toxicidade: tremor fino (terapêutico) → tremor grosseiro, ataxia, confusão, convulsões e arritmias (tóxico; litemia > 1,5 mEq/L)
  • Poliúria/polidipsia (diabetes insípido nefrogênico)
  • Hipotireoidismo (até 40% a longo prazo), hiperparatireoidismo
  • Nefrotoxicidade crônica
  • Teratogenicidade: anomalia de Ebstein (risco absoluto baixo, mas real)
  • Janela terapêutica estreita: 0,6–1,2 mEq/L (manutenção); 0,8–1,0 mEq/L (fase aguda)

Valproato

  • Hepatotoxicidade (especialmente em crianças < 2 anos), pancreatite
  • Teratogenicidade: defeitos do tubo neural, síndrome valproato fetal — evitar em mulheres em idade fértil sempre que possível
  • Ganho de peso, queda de cabelo, tremor
  • Hiperamonemia (pode ocorrer sem hepatotoxicidade)

Carbamazepina

  • Leucopenia, anemia aplásica (rara)
  • Hiponatremia (SIADH)
  • Indutor potente do CYP3A4 e CYP2C9 → múltiplas interações farmacológicas
  • Autoindutor: reduz sua própria concentração plasmática ao longo do tempo
  • Rash cutâneo; Síndrome de Stevens-Johnson (associada ao alelo HLA-B*1502, mais prevalente em asiáticos)

Lamotrigina

  • Rash cutâneo → Síndrome de Stevens-Johnson (risco aumentado com titulação rápida ou associação ao valproato)
  • Titulação lenta obrigatória
  • Perfil metabólico e teratogênico favorável em relação ao valproato

Diagnóstico

Não há diagnóstico da classe farmacológica em si, mas o reconhecimento de toxicidade e efeitos adversos exige vigilância clínica e laboratorial.

Monitorização do lítio

  • Litemia sérica (coleta 12 h após última dose)
  • Função renal (creatinina, ureia, TFG), eletrólitos, TSH — baseline e periódico
  • ECG em pacientes com cardiopatia

Monitorização do valproato

  • Valproatemia, hemograma, provas de função hepática e pancreática
  • Amônia sérica se encefalopatia inexplicada

Monitorização da clozapina

  • Hemograma semanal (primeiras 18 semanas), quinzenal (até 1 ano) e mensal (depois)
  • Protocolo de interrupção obrigatório se neutrófilos < 1.500/mm³

Síndrome neuroléptica maligna (SNM)

  • Critérios: uso de antipsicótico + rigidez muscular + hipertermia + pelo menos dois entre: diaforese, disfagia, tremor, incontinência, alteração de consciência, mutismo, taquicardia, PA lábil, leucocitose, CK elevada
  • Diagnóstico diferencial: síndrome serotoninérgica (hiperreflexia e clônus predominantes), hipertermia maligna, encefalite

Tratamento

Uso de antipsicóticos

Fase aguda de psicose:

  • Antipsicótico típico de alta potência (haloperidol) ou atípico (olanzapina, risperidona, ziprasidona)
  • Agitação aguda: haloperidol IM ± lorazepam IM; ou olanzapina IM (não associar com benzodiazepínico IM pela depressão respiratória)

Manutenção na esquizofrenia:

  • Preferência por atípicos para maior adesão e menor SEP
  • Clozapina: reservada para esquizofrenia resistente (falha a ≥ 2 antipsicóticos adequados)
  • Formas de depósito (long-acting injectables — LAI): melhoram adesão; disponíveis para haloperidol, flufenazina, risperidona, paliperidona, aripiprazol, olanzapina

Transtorno bipolar:

  • Mania aguda: lítio, valproato, antipsicótico atípico (olanzapina, quetiapina, aripiprazol, risperidona) isolados ou combinados
  • Depressão bipolar: quetiapina, lurasidona, olanzapina + fluoxetina; lamotrigina (manutenção); lítio adjuvante
  • Manutenção: lítio (primeira escolha para prevenção de recaídas e antisuicida), valproato, lamotrigina (melhor para fase depressiva), aripiprazol, quetiapina

Manejo da SNM

  • Suspensão imediata do antipsicótico
  • Suporte intensivo: hidratação, controle da temperatura, monitorização
  • Bromocriptina (agonista dopaminérgico) e/ou dantrolene (relaxante muscular)
  • Evitar reintrodução do antipsicótico por pelo menos 2 semanas; preferir atípico de baixa potência

Manejo de sintomas extrapiramidais

  • Distonia aguda: biperideno IM/IV
  • Parkinsonismo: reduzir dose ou trocar para atípico; biperideno VO
  • Acatisia: propranolol, biperideno ou benzodiazepínico; reduzir dose
  • Discinesia tardia: reduzir dose, trocar para clozapina; valbenazina ou deutetrabenazina (inibidores de VMAT2)

Intoxicação por lítio

  • Leve (1,5–2,0 mEq/L): hidratação oral, suspensão temporária
  • Moderada-grave (> 2,0 mEq/L) ou sintomática: internação, hidratação IV com soro fisiológico, hemodiálise nos casos graves
Escolha do Estabilizador de Humor no Transtorno Bipolar
Escolha do Estabilizador de Humor no Transtorno Bipolar

Prevenção e considerações especiais

  • Gestação: lítio — avaliar risco-benefício (anomalia de Ebstein); valproato — evitar sempre que possível; lamotrigina — perfil mais seguro entre os estabilizadores. Antipsicóticos típicos clássicos têm maior experiência de uso na gestação.
  • Interações farmacológicas: carbamazepina induz metabolismo de contraceptivos orais, anticoagulantes, outros antiepilépticos e antipsicóticos; valproato inibe metabolismo da lamotrigina (dobrar o intervalo de titulação).
  • Síndrome de descontinuação: antipsicóticos e lítio devem ser reduzidos gradualmente para evitar recaída e efeito rebote colinérgico (náuseas, vômitos, insônia).
  • Risco metabólico: monitorar peso, glicemia, perfil lipídico e PA em pacientes em uso de antipsicóticos atípicos — especialmente olanzapina e clozapina.
  • Antiepilépticos e suicidalidade: FDA emitiu alerta sobre risco aumentado de ideação suicida com antiepilépticos; não é contraindicação, mas exige monitorização.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre antipsicóticos típicos e atípicos?
Os típicos (ex.: haloperidol) bloqueiam predominantemente receptores D2 e têm maior risco de sintomas extrapiramidais e hiperprolactinemia. Os atípicos (ex.: olanzapina, quetiapina) combinam bloqueio D2 com antagonismo 5-HT2A, resultando em menor risco extrapiramidal, porém maior risco metabólico (ganho de peso, dislipidemia, diabetes).
Quais os sinais de toxicidade por lítio?
A toxicidade por lítio ocorre geralmente com litemia acima de 1,5 mEq/L e se manifesta com tremor grosseiro, ataxia, confusão mental, disartria, vômitos e diarreia. Casos graves podem evoluir com convulsões e arritmias. O manejo inclui hidratação e, nos casos mais sérios, hemodiálise.
O que é síndrome neuroléptica maligna e como tratar?
A SNM é uma emergência rara porém grave associada ao uso de antipsicóticos, caracterizada por rigidez muscular intensa, hipertermia, instabilidade autonômica e alteração do nível de consciência, com elevação de CK. O tratamento exige suspensão imediata do antipsicótico, suporte intensivo, e pode incluir bromocriptina e dantrolene.
O valproato pode ser usado em mulheres grávidas?
O valproato é altamente teratogênico — aumenta o risco de defeitos do tubo neural e está associado à síndrome valproato fetal. Sempre que possível deve ser evitado em mulheres em idade fértil e substituído por alternativas mais seguras como lamotrigina. Quando indispensável, exige suplementação de folato e aconselhamento adequado.

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