Resumos16 jul 20266 min de leitura

Antidepressivos e Ansiolíticos

Mecanismo de ação, indicações, efeitos adversos e manejo clínico

psiquiatria

Antidepressivos e ansiolíticos: classes farmacológicas, mecanismos de ação, indicações, efeitos adversos e condutas para provas de residência.

Antidepressivos e ansiolíticos formam o núcleo do arsenal psicofarmacológico para transtornos depressivos, ansiosos, obsessivo-compulsivos e relacionados ao trauma. O conhecimento de suas classes, mecanismos, interações e perfis de tolerabilidade é exigido em provas de residência e na prática clínica diária.

O que são Antidepressivos e Ansiolíticos?

Antidepressivos são fármacos que modulam a neurotransmissão monoaminérgica (serotonina, noradrenalina, dopamina) e têm eficácia demonstrada não apenas na depressão, mas em vários transtornos ansiosos, dor crônica e outros. Ansiolíticos, em sentido amplo, compreendem qualquer agente usado para reduzir sintomas de ansiedade — incluindo benzodiazepínicos, buspirona, antidepressivos e outros. As duas categorias se sobrepõem: muitos antidepressivos são primeira linha no tratamento de transtornos de ansiedade.

Causas e transmissão

Não aplicável como conceito de transmissão. Os transtornos que indicam o uso dessas medicações têm etiologia multifatorial (genética, neurobiológica, ambiental). A prescrição é orientada pelo diagnóstico clínico e pelas características individuais do paciente (comorbidades, interações medicamentosas, perfil de efeitos adversos tolerados).

Classificação e formas

Antidepressivos

Inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS)

  • Fluoxetina, sertralina, escitalopram, citalopram, paroxetina, fluvoxamina
  • Mecanismo: bloqueio do transportador SERT → aumento de 5-HT sináptica
  • Primeira linha para depressão, TAG, TOC, fobia social, TEPT, transtorno do pânico
  • Perfil de efeitos adversos: náusea, disfunção sexual, insônia, ganho de peso (especialmente paroxetina)
  • Paroxetina: maior efeito anticolinérgico e maior potencial de síndrome de descontinuação
  • Fluoxetina: meia-vida longa (e metabólito ativo norfluoxetina), menor síndrome de descontinuação, mais ativadora

Inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSN)

  • Venlafaxina, desvenlafaxina, duloxetina, levomilnaciprana
  • Mecanismo: bloqueio de SERT + NET
  • Duloxetina: indicação adicional em dor neuropática e fibromialgia
  • Venlafaxina: em doses altas, componente noradrenérgico mais expressivo; pode elevar PA
  • Indicados em depressão, TAG, transtorno do pânico, fobia social, TEPT, dor crônica

Antidepressivos tricíclicos (ATC)

  • Amitriptilina, nortriptilina, imipramina, clomipramina
  • Mecanismo: bloqueio de SERT e NET + anticolinérgico + anti-histamínico + bloqueio alfa-1
  • Clomipramina: ISRS funcionalmente — maior seletividade serotonérgica entre os ATC; indicada em TOC
  • Imipramina: indicada em enurese noturna e transtorno do pânico
  • Efeitos adversos relevantes: boca seca, constipação, retenção urinária, sedação, ganho de peso, prolongamento do QTc, hipotensão ortostática
  • Alto risco em overdose (arritmias, convulsões) — evitar em pacientes com risco de suicídio

Inibidores da monoamino oxidase (IMAO)

  • Tranilcipromina, fenelzina, moclobemida (RIMA — inibidor reversível de MAO-A)
  • Mecanismo: inibição da degradação de monoaminas
  • IMAOs irreversíveis: múltiplas interações alimentares (tiramina) e medicamentosas graves (crise hipertensiva, síndrome serotoninérgica)
  • Moclobemida: perfil de interações mais seguro, menos restrições alimentares
  • Uso reservado a casos refratários ou depressão atípica

Outros antidepressivos

  • Bupropiona: inibidor de recaptação de dopamina e noradrenalina (NDRI); sem disfunção sexual; contraindicado em epilepsia e bulimia; indicado também na cessação do tabagismo
  • Mirtazapina: antagonista alfa-2 e de receptores 5-HT2/5-HT3/H1; sedativa, orexígena, útil em pacientes com insônia e perda de peso; sem disfunção sexual
  • Trazodona: antagonista 5-HT2A e inibidor fraco de SERT; principalmente usada como adjuvante hipnótico; priapismo como efeito adverso raro mas importante
  • Agomelatina: agonista MT1/MT2 e antagonista 5-HT2C; monitorar transaminases
  • Vortioxetina: modulador multimodal serotoninérgico; benefício em cognição

Ansiolíticos

Benzodiazepínicos (BZD)

  • Diazepam, lorazepam, clonazepam, alprazolam, midazolam, bromazepam
  • Mecanismo: potenciação do GABA-A → abertura do canal de cloro → hiperpolarização
  • Ação rápida (minutos a horas); eficácia imediata em crises de ansiedade e agitação
  • Classificação por meia-vida:
    • Curta/ultracurta: midazolam, triazolam — maior risco de dependência e amnésia
    • Intermediária: lorazepam, alprazolam
    • Longa: diazepam, clonazepam — menor síndrome de abstinência abrupta
  • Efeitos adversos: sedação, déficit cognitivo, risco de dependência, tolerância, abstinência grave (convulsões)
  • Uso crônico desaconselhado; retirada sempre gradual
  • Contraindicados em apneia obstrutiva do sono grave e miastenia gravis

Buspirona

  • Agonista parcial do receptor 5-HT1A e antagonista D2 fraco
  • Ansiolítico não sedativo, sem potencial de dependência
  • Latência de 2–4 semanas para efeito pleno
  • Indicada em TAG; ineficaz em crises agudas de ansiedade
  • Não tem efeito cruzado com BZD (não previne abstinência)

Outros agentes com efeito ansiolítico

  • Pregabalina e gabapentina: ligantes de subunidade alfa-2-delta de canais de cálcio; eficazes em TAG e dor neuropática
  • Hidroxizina: anti-histamínico H1; ansiolítico de uso pontual, sem dependência
  • Beta-bloqueadores (propranolol): controle de sintomas autonômicos periféricos (tremor, palpitações) em ansiedade de desempenho; sem ação central ansiolítica
  • Antipsicóticos atípicos em baixas doses (quetiapina): uso off-label em transtornos ansiosos refratários

Sintomas e manifestações clínicas

Esta seção aborda os principais efeitos adversos e síndromes clinicamente relevantes:

Síndrome serotoninérgica

  • Tríade: alteração do estado mental + hiperatividade autonômica + anormalidades neuromusculares (clonus, hiperreflexia, mioclonias)
  • Desencadeada por combinações que aumentam excessivamente a serotonina (ex.: ISRS + IMAO, ISRS + tramadol, ISRS + lítio)
  • Grave: hipertermia, rigidez, rabdomiólise, coagulação intravascular disseminada
  • Tratamento: suspensão dos agentes, suporte, ciproeptadina (antagonista 5-HT)

Síndrome de descontinuação

  • Mais comum com paroxetina, venlafaxina
  • Sintomas: tontura, náusea, parestesias em "choque elétrico", irritabilidade, ansiedade (mnemônico FINISH: Flu-like, Insomnia, Nausea, Imbalance, Sensory disturbances, Hyperarousal)
  • Manejo: retirada gradual; se grave, reintrodução seguida de desmame mais lento

Síndrome de abstinência por benzodiazepínico

  • Ansiedade rebote, insônia, tremor, sudorese, convulsões (risco maior em retirada abrupta de BZD de meia-vida longa em uso prolongado)
  • Manejo: desmame gradual, substituição por BZD de meia-vida longa (diazepam) seguida de redução progressiva

Diagnóstico

Não há exame específico para indicar ou monitorar antidepressivos e ansiolíticos de rotina. A avaliação é clínica:

  • Diagnóstico psiquiátrico pelo DSM-5 ou CID-11 como base para indicação
  • Escalas validadas auxiliam na quantificação da resposta: Hamilton Anxiety (HAM-A), Hamilton Depression (HAM-D), PHQ-9, GAD-7
  • Antes de iniciar ATC: ECG (avaliar QTc), PA
  • Agomelatina: transaminases basais e ao longo do tratamento
  • IMAO: monitorar PA; lista de interações alimentares e medicamentosas
  • Rastreio de bipolaridade antes de iniciar antidepressivos (risco de virada maníaca)
  • Níveis séricos são raramente utilizados na prática, exceto em situações específicas (suspeita de não adesão, intoxicação por ATC)

Tratamento

Princípios gerais

  • Antidepressivos têm latência de resposta de 2–4 semanas (resposta plena em 6–8 semanas)
  • Tratamento da depressão: pelo menos 6 meses após remissão do primeiro episódio; casos recorrentes podem requerer tratamento indefinido
  • Ausência de resposta após 4–6 semanas em dose adequada: considerar ajuste de dose, troca de classe ou potencialização

Estratégias de potencialização

  • Lítio: potencializador clássico de antidepressivos
  • Aripiprazol, quetiapina, olanzapina (associada a fluoxetina): aprovados como adjuvantes em depressão resistente
  • Hormônio tireoidiano (T3): usado off-label
  • Bupropiona + ISRS: combinação comum em depressão refratária

Situações especiais

  • Gravidez: sertralina é o ISRS com maior base de dados de segurança; paroxetina evitada no 1º trimestre (risco cardíaco fetal)
  • Idosos: preferir ISRS com menor interação (escitalopram, sertralina); evitar ATC e BZD de meia-vida longa (risco de quedas e delirium)
  • Overdose por ATC: lavagem gástrica, carvão ativado, bicarbonato de sódio IV (para arritmias por bloqueio de canal de sódio), suporte em UTI
  • Agitação aguda/ansiedade grave: BZD de ação rápida (lorazepam IM/IV); não usar como monoterapia crônica
Abordagem ao Paciente com Depressão ou Ansiedade — Escolha do Agente
Abordagem ao Paciente com Depressão ou Ansiedade — Escolha do Agente

Prevenção e Prognóstico

  • Resposta ao tratamento antidepressivo: cerca de 50–60% dos pacientes respondem ao primeiro agente; remissão completa em aproximadamente 30%
  • Depressão resistente ao tratamento (DRT): definida como falha a pelo menos dois ensaios adequados de antidepressivos de classes diferentes
  • Para DRT: considerar esketamina intranasal (aprovada pelo FDA/Anvisa), eletroconvulsoterapia (ECT), estimulação magnética transcraniana (EMT)
  • Prevenção de recaídas: manutenção farmacológica + psicoterapia (especialmente terapia cognitivo-comportamental)
  • Monitoramento do risco de suicídio, especialmente nas primeiras semanas de tratamento (pode haver aumento de energia antes da melhora do humor)
  • BZD: estratégia de saída planejada desde o início da prescrição para evitar dependência iatrogênica

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre antidepressivos e ansiolíticos?
Antidepressivos são fármacos que modulam a neurotransmissão monoaminérgica, usados primariamente em depressão mas com ampla eficácia em transtornos ansiosos. Ansiolíticos, em sentido amplo, incluem benzodiazepínicos, buspirona e os próprios antidepressivos. Na prática, ISRS e IRSN são atualmente primeira linha tanto para depressão quanto para a maioria dos transtornos de ansiedade.
Quanto tempo leva para o antidepressivo fazer efeito?
A maioria dos antidepressivos tem latência de 2 a 4 semanas para início de resposta e 6 a 8 semanas para efeito pleno. Ausência de resposta após 4 a 6 semanas em dose adequada indica revisão do diagnóstico, ajuste de dose ou troca de classe.
Benzodiazepínico causa dependência?
Sim. O uso prolongado de benzodiazepínicos leva a tolerância e dependência física, com síndrome de abstinência potencialmente grave (ansiedade, insônia, convulsões) na retirada abrupta. Por isso, são recomendados para uso de curto prazo e a retirada deve ser sempre gradual.
Quais antidepressivos são mais seguros na gravidez?
A sertralina é o ISRS com o maior volume de dados de segurança na gestação e é frequentemente preferida. A paroxetina deve ser evitada no primeiro trimestre pelo possível risco de malformações cardíacas fetais. A decisão deve sempre ponderar risco-benefício individualmente com a paciente.

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