Atualizações Clínicas03 ago 20266 min de leitura

Aspirina, Finerenona, Ensitrelvir e Mais: Atualizações que Mudam a Prática Clínica segundo o UpToDate (Julho 2026)

Novas recomendações em hematologia, nefrologia, oncologia, pneumologia e outras especialidades

uptodatemieloma multiplodoenca renal cronicacovid-19hepatite bfibrose pulmonar

Confira as principais atualizações clínicas do UpToDate (até julho 2026) que devem mudar condutas em mieloma, DRC, COVID-19, câncer de mama e fibrose pulmo

O UpToDate publica periodicamente suas Practice Changing Updates: seleção de recomendações novas ou revisadas com potencial de impacto amplo e imediato na prática clínica. A seguir, reunimos as atualizações mais recentes, publicadas entre janeiro e julho de 2026, organizadas por especialidade.

Pneumologia e Medicina Intensiva

Aspirina como tromboprofilaxia em artroplastia de quadril e joelho (julho 2026)

Para pacientes submetidos a artroplastia de quadril ou joelho com baixo risco tromboembólico, o UpToDate passa a sugerir aspirina isolada em vez de estratégia que inclua anticoagulante oral direto (DOAC) ou heparina de baixo peso molecular (HBPM) — Grau 2B.

A recomendação reflete evidência crescente de que, no subgrupo de baixo risco, a aspirina oferece proteção adequada com perfil de segurança favorável e custo mais baixo, sem necessidade de monitoramento de coagulação.

Nerandomilaste para fibrose pulmonar progressiva (janeiro 2026)

O nerandomilaste, inibidor oral de fosfodiesterase 4B com propriedades antifibróticas e imunomoduladoras, foi aprovado para tratamento de fibrose pulmonar progressiva não-FPI. Em ensaio clínico, seu uso foi associado a redução de 40–50% no declínio de CVF (capacidade vital forçada) em 52 semanas versus placebo, com resultado consistente independentemente da dose ou do uso concomitante de nintedanibe.

As novas sugestões do UpToDate são:

  • Para pacientes com FPI não idiopática com progressão apesar do manejo inicial otimizado: nintedanibe ou nerandomilaste (Grau 2B).
  • Para progressão persistente apesar de um dos agentes: terapia combinada com os dois fármacos, conforme tolerância (Grau 2C).

Diferenciais práticos do nerandomilaste: não requer monitoramento de função hepática e pode ser usado em doença renal ou hepática moderada.

Hematologia

Duração da manutenção com lenalidomida no mieloma de risco padrão (julho 2026)

No mieloma múltiplo (MM) de risco padrão, a prática corrente era manutenção com lenalidomida até a progressão (indefinida). Um ensaio clínico randomizado comparou manutenção indefinida com dois anos de lenalidomida após indução com três drogas em pacientes não candidatos a transplante autólogo de células hematopoiéticas. Os resultados mostraram:

  • Sobrevida global e sobrevida livre de progressão semelhantes entre os grupos.
  • Maior toxicidade na manutenção indefinida, incluindo aumento de segundas neoplasias primárias.

O UpToDate passa a sugerir dois anos de lenalidomida como duração-padrão de manutenção no MM de risco padrão (Grau 2C). Importante: quando um anticorpo monoclonal anti-CD38 também integra a manutenção, este continua até a progressão. A diretriz é extrapolada para MM de risco padrão tratado com indução mais intensiva (quatro drogas, com ou sem transplante autólogo).

Nefrologia e Hipertensão

Finerenona na DRC não diabética (junho 2026)

A finerenona já demonstrava benefício em doença renal diabética com albuminúria. Agora, um ensaio com cerca de 1600 pacientes com DRC não diabética (eGFR 25–<90 mL/min/1,73 m² e relação albumina-creatinina urinária 200–3500 mg/g) avaliou finerenona versus placebo por três anos. Os desfechos compostos renal (redução de eGFR ≥57% ou insuficiência renal) e cardiovascular (hospitalização por IC ou morte cardiovascular) foram menores com finerenona, embora sem significância estatística.

Apesar disso, extrapolando dos dados em nefropatia diabética, o UpToDate sugere adicionar finerenona (Grau 2B) em pacientes com DRC não diabética que preencham todos os critérios:

  • Em uso de IECA ou BRA e iSGLT-2
  • Relação albumina-creatinina urinária ≥200 mg/g (ou excreção urinária de albumina ≥200 mg/dia)
  • eGFR ≥25 mL/min/1,73 m²
  • Potássio sérico ≤4,8 mEq/L

Vale notar que a força da recomendação é limitada pela ausência de significância estatística nos desfechos primários do ensaio — a sugestão se apoia em extrapolação de classe, não em evidência direta robusta. Para uma discussão mais ampla sobre finerenona e outras atualizações recentes em nefrologia e oncologia, veja nossa cobertura em Finerenona, Palbociclibe, Nerandomilaste e Mais: Atualizações que Mudam a Prática Clínica segundo o UpToDate.

Doenças Infecciosas

Ensitrelvir como profilaxia pós-exposição ao SARS-CoV-2 (maio 2026)

O ensitrelvir é um inibidor de protease com atividade antiviral contra SARS-CoV-2. Em ensaio randomizado com mais de 2000 indivíduos com exposição domiciliar ao vírus, um curso de cinco dias de ensitrelvir iniciado em até 72 horas reduziu a incidência de COVID-19 em aproximadamente 67% versus placebo (2,9 vs. 9%). A tolerabilidade foi boa; o único efeito adverso notável foi queda transitória do HDL.

O UpToDate sugere ensitrelvir como profilaxia pós-exposição (Grau 2B) para indivíduos de alto risco para COVID-19 grave (≥65 anos, comorbidades relevantes, imunossupressão) após exposição domiciliar ou igualmente próxima a caso confirmado. O fármaco está disponível no Japão e foi aprovado recentemente pela FDA.

Atualização no manejo da hepatite B crônica (fevereiro 2026)

As diretrizes da AASLD para hepatite B crônica foram atualizadas. Para pacientes sem cirrose, a recomendação de tratar a fase imuno-ativa (ALT elevada + HBV DNA elevado) permanece. A novidade está na fase imuno-tolerante (HBeAg positivo, ALT normal, HBV DNA marcadamente elevado): o UpToDate passa a sugerir terapia antiviral (Grau 2C) para aqueles com alto risco de cirrose ou hepatocarcinoma, definido por:

  • Idade >40 anos
  • Fibrose ≥F2
  • Inflamação ≥grau 2

A evidência nessa população específica ainda é limitada, mas a extrapolação de benefício anti-fibrótico e anti-tumoral dos antivirais embasou a mudança. Para os demais pacientes sem cirrose fora dessas categorias, a decisão de tratar continua baseada em decisão compartilhada.

Oncologia

Palbociclibe na manutenção do câncer de mama HER2-positivo e RH-positivo avançado (fevereiro 2026)

Em pacientes com câncer de mama avançado HER2-positivo e receptor hormonal (RH)-positivo sem progressão após indução com THP (taxane + trastuzumabe + pertuzumabe), a manutenção habitual combina terapia endócrina com anti-HER2. Em ensaio randomizado com 518 pacientes, a adição de palbociclibe a essa manutenção melhorou a mediana de sobrevida livre de progressão de 29 para 44 meses, com toxicidade adicional principalmente hematológica (neutropenia e leucopenia). Os dados de sobrevida global ainda são imaturos.

O UpToDate sugere adicionar palbociclibe à manutenção (Grau 2B), mas reconhece que reservá-lo para linhas posteriores de tratamento é uma alternativa aceitável — decisão que deve levar em conta tolerância e disponibilidade do fármaco.

Obstetrícia, Ginecologia e Saúde da Mulher

Nova orientação do ACOG para sangramento vaginal pós-menopausa (maio 2026)

O ACOG atualizou sua diretriz para avaliação do endométrio em pacientes com sangramento pós-menopausa. Anteriormente, a ultrassonografia transvaginal (USG-TV) podia substituir a biópsia endometrial quando a espessura endometrial era <4 mm. A revisão abandona essa abordagem e passa a recomendar que ambas — biópsia endometrial e USG-TV — sejam realizadas na avaliação inicial na maioria das pacientes.

A mudança se fundamenta em três preocupações:

  1. Aumento nas taxas de câncer endometrial nos últimos anos.
  2. Potencial de resultado falso-negativo na USG-TV isolada.
  3. Cânceres endometriais de alto risco tendem a se apresentar com endométrio mais fino, escapando do critério de corte de 4 mm.

O UpToDate adota a atualização do ACOG e passou a orientar que a maioria das pacientes com sangramento pós-menopausa realize tanto biópsia quanto USG-TV.


Essas atualizações cobrem um espectro amplo de especialidades e, em conjunto, ilustram como recomendações baseadas em novos ensaios e revisões de diretrizes podem alterar condutas já consolidadas. Para acompanhar outros destaques clínicos recentes em áreas como oncologia e doenças raras, confira também Vitamina B3 na Doença Genética Rara, Fibromialgia e Bactérias Intestinais no Câncer: Destaques Clínicos de Julho de 2026 e Transplante Pulmonar no Câncer, Nova Definição de IC e Cetamina Oral: Destaques Clínicos de Julho de 2026.


Fonte: www.uptodate.com

Perguntas frequentes

Qual a duração recomendada de lenalidomida na manutenção do mieloma de risco padrão?
O UpToDate passou a sugerir dois anos de lenalidomida como manutenção no mieloma múltiplo de risco padrão, em vez de tratamento indefinido até a progressão. Ensaio randomizado mostrou sobrevida semelhante e menor toxicidade — incluindo menos segundas neoplasias — com a estratégia de dois anos.
Quem se beneficia de finerenona na DRC não diabética?
O UpToDate sugere finerenona para pacientes com DRC não diabética em uso de IECA ou BRA mais iSGLT-2 que ainda apresentem albumina-creatinina urinária ≥200 mg/g, eGFR ≥25 mL/min/1,73 m² e potássio sérico ≤4,8 mEq/L. A recomendação é Grau 2B e se baseia em extrapolação dos dados em nefropatia diabética, pois o ensaio na DRC não diabética não atingiu significância estatística.
O ensitrelvir está aprovado para profilaxia pós-exposição ao SARS-CoV-2?
Sim. O ensitrelvir foi aprovado pela FDA e está disponível no Japão para profilaxia pós-exposição. Em ensaio randomizado com mais de 2000 participantes, cinco dias do fármaco iniciados em até 72 horas após exposição domiciliar reduziram a incidência de COVID-19 em cerca de 67%. A indicação prioritária é para indivíduos de alto risco (≥65 anos, imunossuprimidos, comorbidades relevantes).
Por que o ACOG mudou a orientação para sangramento pós-menopausa?
O ACOG passou a recomendar biópsia endometrial e USG-TV conjuntamente porque cânceres endometriais de alto risco frequentemente se apresentam com endométrio fino (abaixo do antigo corte de 4 mm), o que tornava a USG-TV isolada insuficiente para excluir malignidade. O aumento nas taxas de câncer endometrial nos últimos anos reforçou a necessidade de avaliação combinada.

Ler é metade do caminho.

A outra metade é praticar: transforme o que você acabou de ler em questões, flashcards e resumos com a IA do Chagas — a partir do seu próprio material.

Quero sair na frente

Mais em Atualizações Clínicas