Atualizações Clínicas16 jul 20266 min de leitura

Finerenona, Palbociclibe, Nerandomilaste e Mais: Atualizações que Mudam a Prática Clínica segundo o UpToDate

Seis recomendações recentes — de nefrologia a oncologia — com impacto direto na conduta

finerenonanerandomilastepalbociclibeensitrelvirhepatite bfibrose pulmonar progressiva

Confira as principais atualizações do UpToDate (nov 2025–jun 2026): finerenona na DRC, ensitrelvir, palbociclibe e nerandomilaste na prática clínica.

O UpToDate publica periodicamente uma seção chamada Practice Changing Updates, que reúne recomendações novas ou revisadas com potencial de impacto amplo e imediato na prática clínica. As atualizações a seguir cobrem o período de novembro de 2025 a junho de 2026 e atravessam nefrologia, infectologia, ginecologia, oncologia e pneumologia.

Nefrologia e Hipertensão (junho de 2026): finerenona na DRC não diabética

A finerenona — antagonista seletivo dos receptores mineralocorticoides — já tinha benefício estabelecido na doença renal crônica (DRC) diabética com albuminúria. O ensaio clínico mais recente avaliou o efeito do fármaco em aproximadamente 1.600 pacientes com DRC não diabética, eGFR entre 25 e menos de 90 mL/min/1,73 m² e razão albumina-creatinina urinária (RACR) entre 200 e 3.500 mg/g.

Ao final de três anos, observou-se redução nas taxas de desfecho renal composto (queda ≥57% no eGFR ou falência renal) e de desfecho cardiovascular composto (hospitalização por insuficiência cardíaca ou morte cardiovascular), embora os resultados não tenham atingido significância estatística.

Recomendação atual (Grau 2B): em pacientes com DRC não diabética que, apesar do uso de IECA ou BRA mais inibidor de SGLT-2, ainda apresentem RACR ≥200 mg/g, eGFR ≥25 mL/min/1,73 m² e potássio sérico ≤4,8 mEq/L, sugere-se a adição de finerenona.

Limitação importante: o estudo não atingiu significância estatística nos desfechos primários; a recomendação parte de extrapolação dos dados da DRC diabética.

Para um panorama mais amplo sobre a finerenona nessa população, veja o artigo Finerenona na DRC não diabética, ensitrelvir pós-exposição e sangramento vaginal pós-menopausa: três atualizações que mudam a prática.

Doenças Infecciosas (maio de 2026): ensitrelvir como profilaxia pós-exposição à COVID-19

O ensitrelvir é um inibidor de protease com atividade antiviral contra o SARS-CoV-2. Em ensaio clínico randomizado com mais de 2.000 indivíduos expostos domiciliarmente ao vírus, o uso de um curso de cinco dias iniciado em até 72 horas da exposição reduziu a incidência de COVID-19 em aproximadamente 67% em relação ao placebo (2,9% vs. 9%). O fármaco foi bem tolerado, com apenas redução transitória do HDL como efeito adverso relevante.

Recomendação atual (Grau 2B): sugere-se ensitrelvir para indivíduos com alto risco de COVID-19 grave (idade ≥65 anos, comorbidades, imunossupressão) após contato domiciliar ou igualmente próximo com caso confirmado; deve ser iniciado o mais rápido possível e sempre dentro de 72 horas. O fármaco está disponível no Japão e recebeu aprovação recente da FDA.

Obstetrícia, Ginecologia e Saúde da Mulher (maio de 2026): sangramento vaginal pós-menopausa

O ACOG (American College of Obstetricians and Gynecologists) revisou sua orientação para avaliação endometrial em pacientes com sangramento vaginal pós-menopausa. Anteriormente, a ultrassonografia transvaginal (USTV) podia ser usada como alternativa à biópsia endometrial quando a espessura endometrial era inferior a 4 mm. A atualização mudou esse paradigma.

Motivos da mudança:

  • Aumento das taxas de câncer endometrial
  • Potencial de resultado falso-negativo na USTV
  • Cânceres endometriais de alto risco podem cursar com endométrio mais fino

Recomendação atual: realizar tanto a biópsia endometrial quanto a USTV na avaliação inicial da maioria das pacientes com sangramento pós-menopausa — e não mais uma ou outra.

Doenças Infecciosas (fevereiro de 2026): hepatite B crônica na fase imunotolerante

As diretrizes da AASLD (American Association for the Study of Liver Diseases) foram atualizadas. A recomendação de tratar pacientes na fase imuno-ativa (ALT elevada e HBV DNA elevado) permanece inalterada. A novidade está na fase imunotolerante.

O que é a fase imunotolerante: HBeAg positivo, ALT normal e HBV DNA marcadamente elevado — pacientes que, classicamente, não recebiam tratamento antiviral.

Recomendação atual (Grau 2C): sugere-se terapia antiviral para pacientes na fase imunotolerante com alto risco de cirrose ou carcinoma hepatocelular, definido por:

  • Idade >40 anos
  • Fibrose ≥F2
  • Inflamação ≥grau 2

Para pacientes sem esses fatores de risco, a decisão deve ser compartilhada. A evidência nessa população específica ainda é limitada, e a recomendação baseia-se principalmente em extrapolação do benefício antiviral em outros grupos.

Sobre o cenário mais amplo do manejo da hepatite B, o artigo Cura Funcional da Hepatite B, GLP-1 Oral e MMP12 no Pâncreas: Destaques Clínicos da Semana traz contexto adicional relevante.

Oncologia (fevereiro de 2026): palbociclibe na manutenção do câncer de mama HR+/HER2+

Pacientes com câncer de mama avançado hormônio receptor-positivo (HR+) e HER2-positivo habitualmente recebem indução com taxano + trastuzumabe + pertuzumabe (THP), seguida de manutenção com terapia endócrina e anti-HER2.

Em ensaio clínico randomizado com 518 pacientes, a adição de palbociclibe (inibidor de CDK4/6) ao esquema de manutenção resultou em:

  • Mediana de sobrevida livre de progressão: 44 meses (palbociclibe) vs. 29 meses (controle)
  • Toxicidade principal: neutropenia e leucopenia
  • Dados de sobrevida global: ainda imaturos

Recomendação atual (Grau 2B): sugere-se a adição de palbociclibe à manutenção com terapia endócrina e anti-HER2 em pacientes HR+/HER2+ sem progressão após indução com THP. Reservar o fármaco para linha posterior permanece uma alternativa aceitável.

Pneumologia e Medicina Intensiva (janeiro de 2026): nerandomilaste na fibrose pulmonar progressiva

O nerandomilaste é um inibidor oral da fosfodiesterase 4B (PDE4B), com propriedades antifibróticas e imunomoduladoras, aprovado recentemente para fibrose pulmonar progressiva (FPP) não idiopática.

Dados do ensaio clínico:

  • Redução de 40 a 50% na taxa de declínio da CVF (capacidade vital forçada) em 52 semanas vs. placebo
  • Benefício na mortalidade por todas as causas avaliada até 114 semanas
  • O efeito foi consistente independentemente da dose ou do uso concomitante de nintedanibe
  • Diarreia foi o efeito adverso mais comum: 15–25% sem nintedanibe; até 50% com nintedanibe concomitante

Vantagens práticas: não exige monitoramento de função hepática e pode ser usado em pacientes com doença renal ou hepática moderada.

Recomendação atual (Grau 2B): para pacientes com DPI não-FPI que desenvolvem FPP apesar do manejo inicial otimizado, sugere-se tratamento com nintedanibe ou nerandomilaste. Em casos de progressão com monoterapia, sugere-se combinação dos dois agentes conforme tolerância (Grau 2C).

Cardiologia (novembro de 2025): antiagregação prolongada após ICP em pacientes anticoagulados

Pacientes com indicação de anticoagulação oral (ACO) que realizam intervenção coronária percutânea (ICP) frequentemente mantêm antiagregação indefinida associada. Dois ensaios clínicos recentes questionaram essa prática:

  • Ensaio 1: em mais de 800 pacientes com stent implantado há >6 meses e em uso de ACO, os randomizados para aspirina apresentaram maiores taxas de morte e sangramento maior em comparação ao placebo.
  • Ensaio 2: em mais de 900 pacientes com stent implantado há >12 meses, a monoterapia com anticoagulante oral direto (DOAC) associou-se a taxas menores do desfecho composto de morte, IAM, trombose de stent, AVC, embolia sistêmica e sangramento clínico.

Recomendação atual (Grau 2B): para a maioria dos pacientes em ACO de longo prazo, sugere-se não manter antiagregação indefinidamente após ICP, suspendendo-a em geral 6 a 12 meses após o procedimento. Para pacientes com risco trombótico muito alto, a manutenção de um único antiagregante permanece uma opção razoável.

O que essas atualizações têm em comum

A leitura conjunta dessas seis mudanças revela um padrão relevante para provas de residência e para a prática:

  • Extrapolação de evidências: tanto a finerenona na DRC não diabética quanto a terapia antiviral na hepatite B imunotolerante baseiam-se em evidências indiretas ou de significância limítrofe — saber distinguir Grau 2B de Grau 1A é fundamental.
  • Combinação de exames substitui escolha: a avaliação do endométrio no sangramento pós-menopausa deixou de ser USTV ou biópsia para ser USTV e biópsia.
  • Toxicidade como limitador real: palbociclibe e nerandomilaste mostram benefício clinicamente relevante, mas o perfil de efeitos adversos (principalmente hematológicos e gastrointestinais) precisa entrar na equação da decisão compartilhada.

Para atualizações clínicas em outras áreas cobertas recentemente, confira também Silicose, neuropatia autoimune e câncer colorretal: três atualizações clínicas para ficar no radar.


Fonte: www.uptodate.com

Perguntas frequentes

O que são os Practice Changing Updates do UpToDate?
São atualizações periódicas que destacam recomendações novas ou revisadas com impacto amplo e imediato na prática clínica. Não cobrem todas as mudanças do banco de dados, mas focam nas de maior relevância prática.
Finerenona pode ser usada em DRC não diabética?
Sim, o UpToDate passou a sugerir finerenona (Grau 2B) para pacientes com DRC não diabética que mantêm RACR ≥200 mg/g apesar de IECA ou BRA associado a inibidor de SGLT-2, desde que eGFR ≥25 mL/min/1,73 m² e potássio ≤4,8 mEq/L. Os dados do ensaio clínico não atingiram significância estatística, e a recomendação extrapola os achados da DRC diabética.
Qual a diferença do nerandomilaste em relação ao nintedanibe na fibrose pulmonar progressiva?
O nerandomilaste é um inibidor de PDE4B aprovado para fibrose pulmonar progressiva não idiopática. Ao contrário do nintedanibe, não exige monitoramento de função hepática e pode ser usado em doença renal ou hepática moderada. Pode ser combinado ao nintedanibe em casos de progressão com monoterapia, embora a diarreia seja mais frequente com a combinação.
A diretriz mudou para o sangramento vaginal pós-menopausa?
Sim. O ACOG atualizou sua orientação e recomenda agora que a maioria das pacientes com sangramento pós-menopausa realize tanto a biópsia endometrial quanto a ultrassonografia transvaginal, abandonando a possibilidade de usar apenas a USTV quando a espessura endometrial era menor que 4 mm.

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