Cobertura Vacinal Global em 2025: 13,5 Milhões de Crianças Zero-Dose e o Que Isso Significa para a Saúde Pública
Relatório OMS-Unicef expõe fragilidades persistentes na imunização infantil e o papel dos conflitos e da hesitação vacinal
Relatório OMS-Unicef 2025: 13,5 mi de crianças zero-dose, cobertura de sarampo abaixo de 95% e dados sobre o Brasil. Relevante para provas de saúde pública
O relatório Estimativas OMS-Unicef de Cobertura Vacinal Nacional, divulgado em julho de 2026 com dados de 2025, revela que 15% dos bebês no mundo não completam o ciclo vacinal básico no primeiro ano de vida. Os números têm implicações diretas para o controle de doenças imunopreveníveis — tema recorrente em provas de residência médica e Revalida.
O que são crianças zero-dose e por que o conceito importa
O relatório classifica como crianças zero-dose aquelas que não receberam nenhuma dose de imunobiológico durante o primeiro ano de vida. Em 2025, esse grupo somou 13,5 milhões de indivíduos globalmente. Outras 7,3 milhões de crianças receberam ao menos uma dose, mas não completaram o ciclo básico — definido como três doses da vacina contra difteria, tétano e coqueluche (DTP).
O ponto positivo: 116 milhões de bebês receberam ao menos uma dose da DTP em 2025, alta de 750 mil em relação a 2024. Ainda assim, o Unicef avalia que o índice de crianças zero-dose está em patamar elevado — próximo ao de 2009 e abaixo do período pré-pandemia de Covid-19.
Importante para a prova: o conceito de zero-dose é utilizado como indicador de equidade em saúde. Crianças nessa situação concentram-se desproporcionalmente em contextos frágeis ou afetados por conflitos.
Sarampo: o indicador mais sensível da falha vacinal
O abandono do ciclo imunológico ocorre predominantemente antes da primeira dose da vacina contra o sarampo (MCV1). Em 2025:
- 84% das crianças receberam MCV1
- 77% receberam MCV2 (segunda dose)
- O limiar de segurança para controle do sarampo é ≥ 95% de cobertura em ambas as doses
O resultado prático dessa lacuna: mais de 411 mil casos de sarampo registrados no mundo em 2025, com surtos em 57 países. A distância entre 77–84% e os 95% necessários para interromper a transmissão comunitária explica, do ponto de vista epidemiológico, por que o sarampo permanece endêmico em regiões com cobertura aparentemente alta.
Contexto e limitações do estudo
O relatório é compilado a partir de dados governamentais enviados por 195 países — não se trata de um estudo primário com coleta independente, mas de um levantamento administrativo. Isso implica limitações relevantes:
- A qualidade dos dados depende da robustez dos sistemas nacionais de vigilância
- O próprio relatório aponta queda acentuada no número de pesquisas nacionais independentes de imunização: apenas 18 foram realizadas e enviadas neste ciclo, contra 50 em 2024 e média de 33 por ano entre 2015 e 2019
- Cortes recentes de financiamento — com destaque para a retração de recursos dos Estados Unidos — foram apontados como fator de enfraquecimento dos sistemas de monitoramento
Essa redução na vigilância independente compromete a validade externa dos dados agregados, especialmente nos países de baixa renda.
Distribuição geográfica e fatores associados
Dos 195 países analisados:
- 100 mantiveram cobertura de DTP-3 ≥ 90% desde 2019, com pouco avanço na ampliação desse grupo
- 30 países abaixo desse patamar em 2019 conseguiram melhorar as taxas ao longo de seis anos
- 65 permaneceram estagnados ou retrocederam — incluindo 13 países frágeis, em conflito ou em situação de vulnerabilidade
Mais da metade das crianças zero-dose vive em contextos frágeis ou afetados por conflitos, que abrigam apenas cerca de um terço da população infantil mundial. Essa desproporção demonstra que o risco de não imunização não é distribuído aleatoriamente: é estruturado por determinantes sociais, políticos e geográficos.
Outro fenômeno destacado é a queda de cobertura em países de renda média e alta, atribuída a mudanças no compromisso político, desafios estruturais e aumento da hesitação vacinal. Dois exemplos citados:
- África do Sul: cobertura de DTP1 caiu 20 pontos percentuais desde 2019 e continuou recuando em 2025
- Bósnia e Herzegovina: queda de 23 pontos percentuais em um único ano para DTP1, após ter registrado o maior aumento regional de cobertura para MCV1 em 2024
Ambos os países são classificados como estáveis e com melhora sustentada em outros indicadores de acesso à saúde — o que torna as quedas vacinais ainda mais atípicas e preocupantes do ponto de vista epidemiológico.
Situação do Brasil
O Brasil apresenta tendência oposta à média global, com melhora constante da cobertura vacinal e redução do número de crianças zero-dose, estimadas atualmente em 50 mil no país — número baixo em termos absolutos quando comparado ao contexto global, e associado também à melhora na integração dos dados do sistema público.
A exceção é a vacina DTP-3: o ciclo completo das três doses mantém cobertura na faixa de 86%, abaixo da meta de 95%.
Há, porém, uma limitação metodológica relevante: o relatório aponta a ausência de levantamento independente sobre cobertura vacinal no Brasil nos últimos cinco anos — avaliação recomendada pela OMS e pelo Unicef para garantir a confiabilidade dos dados auto-reportados. Essa lacuna reduz a certeza sobre os valores declarados.
Relevância para provas de saúde pública e residência médica
O tema cobertura vacinal é cobrado em diversas provas de residência, especialmente nas áreas de medicina preventiva, saúde coletiva e pediatria. Pontos que costumam aparecer:
- Limiar de imunidade coletiva (herd immunity): para o sarampo, estima-se necessidade de ≥ 95% de cobertura vacinal, dado o alto número reprodutivo básico (R₀ entre 12 e 18)
- Calendário vacinal no primeiro ano de vida: DTP, hepatite B, poliomielite, BCG, rotavírus, pneumocócica, meningocócica C, influenza
- Determinantes da hesitação vacinal: reconhecido pela OMS como uma das dez maiores ameaças à saúde global
- Vigilância epidemiológica: distinção entre dados administrativos (registros de doses aplicadas) e surveys populacionais independentes
Para aprofundar o contexto de atualizações clínicas com impacto em prova, veja também os destaques clínicos de julho de 2026, que incluem dados relevantes sobre mortalidade por influenza — outra doença imunoprevenível — e o artigo sobre genética na baixa estatura infantil, que contextualiza a investigação diagnóstica em pediatria preventiva.
Pontos-chave para fixar
- 13,5 milhões de crianças zero-dose em 2025 (sem nenhuma dose de vacina no primeiro ano de vida)
- 7,3 milhões com ciclo básico de DTP incompleto
- Cobertura de sarampo: MCV1 = 84%, MCV2 = 77% — ambas abaixo do limiar de 95%
- Mais de 411 mil casos de sarampo em 57 países em 2025
- Brasil: ~50 mil crianças zero-dose; DTP-3 em 86%; sem pesquisa nacional independente há 5 anos
- Contextos de conflito concentram >50% das crianças zero-dose, mas apenas ~33% da população infantil mundial
- Queda no número de pesquisas nacionais independentes compromete a confiabilidade dos dados globais
Fonte: Agência Brasil — Saúde
Perguntas frequentes
- O que é criança zero-dose em vacinação?
- Criança zero-dose é aquela que não recebeu nenhuma dose de imunobiológico durante o primeiro ano de vida. O termo é usado como indicador de equidade em saúde e concentra-se desproporcionalmente em populações em contextos de conflito, pobreza extrema ou deslocamento forçado.
- Qual é a cobertura vacinal mínima necessária para controlar o sarampo?
- A OMS recomenda cobertura de pelo menos 95% para as duas doses da vacina contra o sarampo (MCV1 e MCV2). Em 2025, a cobertura global ficou em 84% para MCV1 e 77% para MCV2 — ambas abaixo do limiar necessário para interromper a transmissão comunitária.
- Como está a cobertura vacinal no Brasil em 2025?
- O Brasil apresenta melhora constante da cobertura vacinal, com cerca de 50 mil crianças zero-dose estimadas. A principal lacuna é a DTP-3 (ciclo completo das três doses), com cobertura em torno de 86%. O país não realizou pesquisa nacional independente de imunização nos últimos cinco anos, o que limita a certeza sobre os dados declarados.
- Por que a cobertura vacinal caiu em países ricos como África do Sul e Bósnia?
- O relatório OMS-Unicef atribui a queda em países de renda média e alta a mudanças no compromisso político, desafios estruturais e aumento da hesitação vacinal. Na África do Sul, a cobertura de DTP1 caiu 20 pontos percentuais desde 2019; na Bósnia e Herzegovina, houve queda de 23 pontos em um único ano.